Lista de Poemas
EPINÍCIO
DA OBRA MEUS PRIMEIROS CANTOS, ENCANTOS E DESENCANTOS, DE PEDRO PAIVA
ENDECHA
descansar na paz do meu leito!
Quem chorará, por mim, querida,
uma lágrima comovida
que me orvalhe ao menos no peito
as mágoas que trago escondidas?
Quem à fronte suada e fria
um beijo depositará?
E na extrema-unção d’agonia
o conforto amigo trará?!
Ai... Quem de mim se lembraria
no célere correr dos anos?
E sobre a lájea fria
do peito a flor murcha poria
chorando o funéreo abandono
numa tarde erma e sombria.
Se o mal me devorasse o peito,
eu teria descanso agora!
E às convulsões do morno leito,
viria alívio sem demora.
A alma silente, muda e fria
ruflar as asas bem podia
pela vasta amplidão do céu!
Pelo infinito ir-se embargando.
Nas plagas etéreas cantando
à corte suprema de Deus.
Só assim meu peito fremente
s’esgotaria desta dor!
E sentiria à fronte ardente
passar um sopro animador!
Meu ser a Deus s’elevaria
em adustas preces ao fim do dia
num arquejo terno e profundo.
Mas deixaria nesta endecha
as notas tristes de uma queixa:
“teu amor que objurgou-me no mundo!
COGITAÇÃO
não nos leva a lugar nenhum!
Este sinuoso ambívio, perplexo, eu suspeito
tais quais as lides e meandros da vida
nela os caminhos também se encontram
no mesmo ponto de partida.
Então... Quedo-me pensativo a me perguntar:
Quando partimos? Ou será que não partimos?
E como num estalo de insigth fremente
a resposta vem assombrar-me a mente:
É que, talvez, nem haja estradas e partidas;
haja volteios na vida, simplesmente!
ESTRANHAMENTE PERDIDO EM TI, PERDIDAMENTE ESTRANHO EM MIM
quando me tranco e me atravanco
no escuro labirinto do teu ser.
Dissimulo que me acho,
se ando estranhamente perdido em ti
fazendo as mais depravadas arruaças de amor.
Estranho o beijo que insulta nossas línguas.
com o gosto e o desejo despudorados
de possuir, por inteiro, o teu corpo
e de me encalacrar na tua alma.
E então, entontecido e louco de teu amor,
eu já me acho todo perdidamente estranho dentro de mim.
DA OBRA AMOR PRA VIDA INTEIRA, DE PEDRO PAIVA
AMOR PRA VIDA INTEIRA
se o meu Destino fosse morrer hoje.
Muito menos me importarei,
se minha sina for morrer amanhã.
O que me importa é te amar incondicional e intensamente
em todos os momentos da vida.
Seja no esplendor do Sol brilhando ao meio-dia no Céu,
seja na agonia da Luz morrendo no fim da Tarde.
E quando o amanhã chegar... (Se ainda houver amanhã)
e o golpe certeiro da morte sobrevier-me
e as lágrimas congelarem-se no teu rosto,
eu virei descongelá-las com o calor dos meus beijos.
E mais tarde, na férrea solidão do lar,
o tempo impiedoso, cruel, frio e indiferente
vier açoitar-te o corpo já cansado e exaurido pelos anos,
eu aquecê-lo-ei com o sopro quente da minha paixão
que transcenderá os abismos da Morte para te alentar.
Mas por agora, enquanto o tempo nos permite, vem me amar.
Não vamos pensar no que há de vir depois, minha querida!
De teu amor eu nunca hei de me cansar.
Se prometeres que de mim nunca vais te esquecer,
eu prometo te amar por toda a minha vida!
O LOBISOMEM DO ROCHA
Rocha, um morador do Bom Princípio e perdulário das noites da provinciana Altos, jurou, de pé junto e pelas chagas de Cristo, ter visto dois bichos- mistura de gente com lobo e porca - correndo atrás dele.
Foi um rebuliço dos diachos! Naquela noite ninguém mais dormiu. Os alaridos dos cães nas ruas deixavam todos ainda mais assustados e temerosos de um ataque brusco e inesperado das tais monstruosidades que o Rocha supostamente tinha visto.
Noite longa aquela, meu Deus! Tremia todo dentro da minha rede só de pensar na possibilidade de ser atacado pelos lobisomens do Rocha. Logo eu, que todas as noites abria a janela do meu quarto para namorar a lua, não o fizera naquela madrugada. Morria de medo só de pensar na possibilidade de, repentinamente, dá de cara com aquelas criaturas esquálidas e horripilantes que tinham corrido atrás do Rocha o qual tremendo mais do que vara verde, se refugiara na minha casa.
Na manhã seguinte, como era costumeiro, fui comprar manga d’água e tamanho foi o pavor que tomou conta de mim, quando, de repente, saiu da alcova um homem velho, com as vestes sujas, rotas e amarrotadas, nariz adunco, o rosto, golpeado pelo tempo, parecia o de uma caveira que, a passos lentos e desengonçados, perambulava pela casa suja, imunda, escura, solitária, deserta e completamente desarrumada.
Os cabelos compridos, fulvos, embaraçados, desgrenhados, de um branco amarelado e fusco, unhas grandes, sujas e afiadas. Dos lábios descaídos escorria uma gosma nojenta por entre a barba longa, densa e amarelada.
Por todo o casarão exalava um fedor de fumo que se misturava ao azedume da sujeira e à catinga azinhavrada de enxofre que vinha lá do fundo daquela enxovia horrenda e asquerosa. Por todo o corpo daquela caquética criatura, cobria uma camada densa e farta de pelos tão pontiagudos, duros, tensos e afiados que espetavam impiedosamente as moscas e varejeiras que ousavam pousar na pele dele.
Cenas macabras aquelas e, por um momento, pensei está diante de um dos mensageiros do maldito.
Gritei: - Valha-me Deus! É o lobisomem do Rocha! Apavorado, desabei na carreira para o refúgio sagrado do meu lar e nunca mais fui comprar manga d’água.
ARTE DE FAZER AMOR
Agora sinto queimar-me o peito
o fogo das dúbias paixões humanas.
Incendiando nossos corpos nus,
suados,
inuptos,
ilapsos,
esputos,
provocantes,
ávidos,
vulgívagos
e instigantes.
Num roçar de peles
e de bocas estuantes,
lascivas,
êxprobas,
sôfregas,
ofegantes.
Na cama, brutalmente, a gente se ama
e já no chão, animalescamente, a gente se devora,
se assanha,
se morde,
se lanha,
e se arranha
nas loucuras de visceral paixão.
Arte de fazer amor.
A pele escrevendo
indizível arte de fazer amor:
impetuoso instinto!
A gente se lambe,
se esvurma,
se esfrega
e se lambuza
em delírio total
se entrega.
A gente se contorce,
se retorce,
se rebuça
e se estrebucha
no clímax do prazer carnal.
...
Intermezzo
...
Engendram-se as cenas
do próximo ato:
nossos corpos desasidos
novamente se procuram.
Beijos quentes
em vulvas úmidas
decretam o fim da censura.
Rios de leite desaguam
na desembocadura de mel
e num cantinho da terra
a gente pinta um pedacinho do céu!
Arte de fazer amor.
A pele escrevendo
indizível arte de fazer amor:
impetuoso instinto!
Fogo fino, fluxo vivo.
Fôlego firme, febril.
Vai e vibra, verbo voa!
Volta e vira juvenil.
Rima, roça, ritmo roda.
Roda, roça, rima risca.
Pulso, pulsa, passo, passa.
Brisa brilha, mente pisca.
Laço leve, lance longo!
Lume, lúcido, legal!
Arte ágil, atual.
Tua alma - alinho natural!
Corre, cobre, cola, cria,
corre, cuida, cai no som.
É amor em alta voltagem;
arte pura em cada tom.
Arte de fazer amor.
A pele escrevendo
indizível arte de fazer amor:
impetuoso instinto!
AMOR PRA VIDA INTEIRA
LACUNAS
Inaudito?... Quem sabe?!
TELA
ela se banhava e se aquecia.
Nas tardes de outono cinzas e quentes,
junto ao ocaso, ela também morria.
Para ressurgir mais encantadora e bela
na noite fria, de perfume amena.
Como se fosse uma linda estrela
ela regurgitava de amores, plena.
Curiosa! Até a lua no céu se inclina
para ver na praia, lá de cima,
a minha deusa nua em tela cheia.
E eis que, entre cores, surge um lindo busto.
Fico extasiado, e logo tremo de susto:
manchou-me à tela grânulos de areia!
SOLIDÃO
entranhada bem lá no fundo do meu ser
que grita de angústia no silêncio da solidão
e que, aos poucos, vai abrindo-me feridas n'alma.
Há uma tristeza ensombreando o meu rosto
no pandemônio das horas sarcásticas e obtusas
que se arrastam lentas no relógio da sala de estar,
e se escabujam bem ali na minha frente,
rindo com escárnio e gargalhando de mim
nas algazarras e arruaças que aprontam dentro do meu ser.
Há uma vontade louca de te querer
aqui bem pertinho de mim,
trazendo acalantos para o meu coração
que geme e que suspira na distância
a dor da tua sentida e ressentida ausência.
Mas eu sou em ti e tu és em mim
e só assim eu sinto, para me redimir,
o afago e o calor da tua presença.
Comentários (1)
Meu caro Senhor Poeta...Pedro Paiva...Amor - mistério - e a eternidade ... somente o lado feminino consegue decifrar este enigma . Pois é de se amar mesmo este texto. felicidades. feliz ano novo. para ti e tua familia.
Nascido em Altos- PI. Graduado e Pós-graduado em Letras/Português, Ciências Contábeis, Administração de Empresas, Administração Pública. Pedro Paiva é professor de Portugês, Literatura, Redação, Direito, Economia, Contabildiade, Estatística, Empreendedorismo, Administração Financeira e Administração da Produção dos cursos de Administração, Contabilidade, Comércio e Informática. Exerceu os cargos de Gerente de Suporte do Banco do Brasil S.A, Presidente da Câmara Municipal de Vereadores, Secretário Municipal de Administração, Secretário Municipal de Educação. Premiado em 1º lugar no I Concurso de Crônicas e Poesias Mário Quintana, promovido pela AABB, de São Paulo. Premiado em 2º lugar no Concurso Mostrando Poesia, promovido pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI, campus de Campo Maior PI. Ex-Prefeito. Membro-fundador da Academia de Letras e Línguas Nativas Altoenses - ALLNA, ocupando a cadeira nº 03 que tem como patronesse Josefa de Paiva Macedo. Participação na coletânea CONTOS DE TERROR ALTOENSES. Autor da antologia poética AMOR PRA VIDA INTEIRA (prelo).
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