Escritas

Lista de Poemas

EPINÍCIO

Com o tempo se desfazem as tempestades
Os remoinhos de vento, os pós dispersos pelo caminho.
Na margem do Rio-Vida hão de soprar
Crestos, ainda, os vendavais festivos da bonança
E a luz ressurgirá no fim do túnel anunciando um novo tempo.
Intimoratos, atravessaremos esse mar de escolhos e de angústias
Cobertos, embora, com os últimos trapos que nos restaram
Ao nosso lado – o que mais nos importa- os filhos amados
O Bem Supremo que a mala sorte não nos roubara.
 
DA OBRA MEUS PRIMEIROS CANTOS, ENCANTOS E DESENCANTOS, DE PEDRO PAIVA
 
 
 
 
 
 
 
 
👁️ 2 395

ENDECHA

Ah, quando eu me for desta vida
descansar na paz do meu leito!
Quem chorará, por mim, querida,
uma lágrima comovida
que me orvalhe ao menos no peito
as mágoas que trago escondidas?

Quem à fronte suada e fria
um beijo depositará?
E na extrema-unção d’agonia
o conforto amigo trará?!

Ai... Quem de mim se lembraria
no célere correr dos anos?
E sobre a lájea fria
do peito a flor murcha poria
chorando o funéreo abandono
numa tarde erma e sombria.

Se o mal me devorasse o peito,
eu teria descanso agora!
E às convulsões do morno leito,
viria alívio sem demora.

A alma silente, muda e fria
ruflar as asas bem podia
pela vasta amplidão do céu!
Pelo infinito ir-se embargando.
Nas plagas etéreas cantando
à corte suprema de Deus.

 

Só assim meu peito fremente
s’esgotaria desta dor!
E sentiria à fronte ardente
passar um sopro animador!

Meu ser a Deus s’elevaria
em adustas preces ao fim do dia
num arquejo terno e profundo.
Mas deixaria nesta endecha
as notas tristes de uma queixa:
“teu amor que objurgou-me no mundo!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
👁️ 3 202

COGITAÇÃO

Esta estrada oblívia, apertada e estreita
não nos leva a lugar nenhum!
Este sinuoso ambívio, perplexo, eu suspeito
tais quais as lides e meandros da vida
nela os caminhos também se encontram
no mesmo ponto de partida.

Então... Quedo-me pensativo a me perguntar:
Quando partimos? Ou será que não partimos?
E como num estalo de insigth fremente
a resposta vem assombrar-me a mente:
É que, talvez, nem haja estradas e partidas;
haja volteios na vida, simplesmente!

 

 

 

 

 
👁️ 327

ESTRANHAMENTE PERDIDO EM TI, PERDIDAMENTE ESTRANHO EM MIM

Desconheço todos os pedaços de mim,
quando me tranco e me atravanco 
no escuro labirinto do teu ser.
Dissimulo que me acho,
se ando estranhamente perdido em ti 
fazendo as mais depravadas arruaças de amor.

Estranho o beijo que insulta  nossas línguas.
com o gosto e o desejo despudorados 
de possuir, por inteiro,  o teu corpo 
e de me encalacrar na tua alma.
E então, entontecido e louco de teu amor,
eu já me acho todo perdidamente estranho dentro de mim.
DA OBRA AMOR PRA VIDA INTEIRA, DE PEDRO PAIVA
👁️ 3 007

AMOR PRA VIDA INTEIRA

Não me importaria, meu amor,
se o meu Destino fosse morrer hoje.
Muito menos me importarei,
se minha sina for morrer amanhã.

O que me importa é te amar incondicional e intensamente
em todos os momentos da vida.
Seja no esplendor do Sol brilhando ao meio-dia no Céu,
seja na agonia da Luz morrendo no fim da Tarde.

E quando o amanhã chegar... (Se ainda houver amanhã)
e o golpe certeiro da morte sobrevier-me
e as lágrimas congelarem-se no teu rosto,
eu virei descongelá-las com o calor dos meus beijos.

E mais tarde, na férrea solidão do lar,
o tempo impiedoso, cruel, frio e indiferente
vier açoitar-te o corpo já cansado e exaurido pelos anos,
eu aquecê-lo-ei com o sopro quente da minha paixão
que transcenderá os abismos da Morte para te alentar.

Mas por agora, enquanto o tempo nos permite, vem me amar.
Não vamos pensar no que há de vir depois, minha querida!
De teu amor eu nunca hei de me cansar.
Se prometeres que de mim nunca vais te esquecer,
eu prometo te amar por toda a minha vida!
👁️ 1 904

O LOBISOMEM DO ROCHA

           Nos idos de 70 corriam por todo o Batalhão, Bacurizeiro e regiões vizinhas, boatos de que certas criaturas de costumes estranhos e misteriosos que ali viviam, nas noites de lua cheia, saramandaiavam pelas ruas do bairro, colocando em polvorosas todos os moradores da região.
       Rocha, um morador do Bom Princípio e perdulário das noites da provinciana Altos, jurou, de pé junto e pelas chagas de Cristo, ter visto dois bichos- mistura de gente com lobo e porca - correndo atrás dele.
     Foi um rebuliço dos diachos! Naquela noite ninguém mais dormiu. Os alaridos dos cães nas ruas deixavam todos ainda mais assustados e temerosos de um ataque brusco e inesperado das tais monstruosidades que o Rocha supostamente tinha visto.
     Noite longa aquela, meu Deus! Tremia todo dentro da minha rede só de pensar na possibilidade de ser atacado pelos lobisomens do Rocha. Logo eu, que todas as noites abria a janela do meu quarto para namorar a lua, não o fizera naquela madrugada. Morria de medo só de pensar na possibilidade de, repentinamente, dá de cara com aquelas criaturas esquálidas e horripilantes que tinham corrido atrás do Rocha o qual tremendo mais do que vara verde, se refugiara na minha casa.
       Na manhã seguinte, como era costumeiro, fui comprar manga d’água e tamanho foi o pavor que tomou conta de mim, quando, de repente, saiu da alcova um homem velho, com as vestes sujas, rotas e amarrotadas, nariz adunco, o rosto, golpeado pelo tempo, parecia o de uma caveira que, a passos lentos e desengonçados, perambulava pela casa suja, imunda, escura, solitária, deserta e completamente desarrumada.
     Os cabelos compridos, fulvos, embaraçados, desgrenhados, de um branco amarelado e fusco, unhas grandes, sujas e afiadas. Dos lábios descaídos escorria uma gosma nojenta por entre a barba longa, densa e amarelada. 
       Por todo o casarão exalava um fedor de fumo que se misturava ao azedume da sujeira e à catinga azinhavrada de enxofre que vinha lá do fundo daquela enxovia horrenda e asquerosa. Por todo o corpo daquela caquética criatura, cobria uma camada densa e farta de pelos tão pontiagudos, duros, tensos e afiados que espetavam impiedosamente as moscas e varejeiras que ousavam pousar na pele dele.
       Cenas macabras aquelas e, por um momento, pensei está diante de um dos mensageiros do maldito.
      Gritei: - Valha-me Deus! É o lobisomem do Rocha! Apavorado, desabei na carreira para o refúgio sagrado do meu lar e nunca mais fui comprar manga d’água.

👁️ 1 981

ARTE DE FAZER AMOR

Agora sinto queimar-me o peito
o fogo das dúbias paixões humanas.
Incendiando nossos corpos nus,
suados,
inuptos,
ilapsos,
esputos,
provocantes,
ávidos,
vulgívagos
e instigantes.
Num roçar de peles
e de bocas estuantes,
lascivas,
êxprobas,
sôfregas,
ofegantes.
Na cama, brutalmente, a gente se ama
e já no chão, animalescamente, a gente se devora, 
se assanha,
se morde,
se lanha,
e se arranha
nas loucuras de visceral paixão.
Arte de fazer amor.
A pele escrevendo
indizível  arte de fazer amor:
impetuoso instinto!
A gente se lambe,
se esvurma,
se esfrega
e se lambuza
em delírio total
se entrega.
A gente se contorce,
se retorce,
se rebuça
e se estrebucha
no clímax do prazer carnal.
...
Intermezzo
...
Engendram-se as cenas
do próximo ato:
nossos corpos desasidos
novamente se procuram.
Beijos quentes
em vulvas úmidas
decretam o fim da censura.
Rios de leite desaguam
na desembocadura de mel
e num cantinho da terra
a gente pinta um pedacinho do céu!
Arte de fazer amor.
A pele escrevendo
indizível  arte de fazer amor:
impetuoso instinto!
Fogo fino, fluxo vivo.
Fôlego firme, febril.
Vai e vibra, verbo voa!
Volta e vira juvenil.
Rima, roça, ritmo roda.
Roda, roça, rima risca.
Pulso, pulsa, passo, passa.
Brisa brilha,  mente pisca.
Laço leve, lance longo!
Lume, lúcido, legal!
Arte ágil, atual.
Tua alma - alinho natural!
Corre, cobre, cola, cria,
corre, cuida, cai no som.
É amor em alta voltagem;
arte pura em cada tom.
Arte de fazer amor.
A pele escrevendo
indizível  arte de fazer amor:
impetuoso instinto!

AMOR PRA VIDA INTEIRA



 

 

 

 

 

👁️ 3 945

LACUNAS

Falto de mim,
busco completar-me em ti.
Quem sabe num gesto intraduzível
ou numa frase impronunciável.

Indizível?... Talvez!  
Inaudito?... Quem sabe?!

Subtraído em mim ou de mim,  
busco completar-me em mim.
Para pleno de mim mesmo,
preencher, laconicamente, essas lacunas
que vão  abrindo abismos entre nós dois.
DA OBRA AMOR PRA VIDA INTEIRA, DE PEDRO PAIVA
👁️ 814

TELA

Entre afagos e beijos tão ardentes
ela se banhava e se aquecia.
Nas tardes de outono cinzas e quentes,
junto ao ocaso, ela também morria.
 
Para ressurgir mais encantadora e bela
na noite fria, de perfume amena.
Como se fosse uma linda estrela
ela regurgitava de amores, plena.
 
Curiosa! Até a lua no céu se inclina
para ver na praia, lá de cima,
a minha deusa nua em tela cheia.
 
E eis que, entre cores, surge um lindo busto.
Fico extasiado, e logo tremo de susto:
manchou-me à tela grânulos de areia!
👁️ 301

SOLIDÃO

Há em mim uma saudade latente, 
entranhada bem lá no fundo do meu ser
que grita de angústia no silêncio da solidão
e que, aos poucos, vai abrindo-me feridas n'alma.

Há uma tristeza ensombreando o meu rosto
no pandemônio das horas sarcásticas e obtusas
que se arrastam lentas no relógio da sala de estar,
e   se escabujam bem ali na minha frente,  
rindo com escárnio e gargalhando de mim
nas algazarras e arruaças que aprontam dentro do meu ser.

Há uma vontade louca de te querer
aqui bem pertinho de mim,
trazendo acalantos para o meu coração
que geme e que suspira na distância
a dor da tua sentida e ressentida ausência.
Mas eu sou em ti e tu és em mim
e só assim eu sinto, para me redimir,
o afago e o calor da tua presença.

 

 

 
👁️ 636

Comentários (1)

Iniciar sessão ToPostComment
ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-12-31

Meu caro Senhor Poeta...Pedro Paiva...Amor - mistério - e a eternidade ... somente o lado feminino consegue decifrar este enigma . Pois é de se amar mesmo este texto. felicidades. feliz ano novo. para ti e tua familia.