Escritas

Lista de Poemas

ENIGMA III

Há um tempo em ti chamado de Eternidade. 
Há outro tempo em ti chamado de Mistério. 
Mas o Amor em ti é mais inexorável que a eternidade e o mistério.
Ah, como eu amo esse indecifrável enigma!

ENIGMAS

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RESIGNAÇÃO

Eu já não te suplico um beijo

que te enche de mágoas e revolta.

Eu já não quero que me queiras.

Eu já não espero a tua volta.

 

Eu já não sinto a tua falta.

Eu já não quero mais teus beijos

que em nossas bocas eclodia

as chamas de infernais desejos.

 

Resoluto... Quebrei a cama.

Esqueceu-me teu corpo quente.

Volta às ilusões de quem tu amas

Que eu fico com a solidão, consciente!

 
 

 

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NAQUELA RUAZINHA DE ANTIGAMENTE

Naquela ruazinha triste
noutros tempos cheia de vida,
cheia de luz, repleta de amor!
Velhos casarões festivos
abriam sorridentes para os anos vindouros
os janelões com umbrais cobertos de flores.

Hoje, naquela ruazinha de antigamente,
está tudo, mas tudo tão diferente!
Já não é mais a mesma ruazinha de outrora.
De repente, nela tudo mudou.
E desde o dia em que tu te foste de lá,
aquela ruazinha ficou ainda mais triste:
perdeu o brilho,
ficou sem vida,
não tem mais luz,
perdeu a cor!

E daquela ruazinha outrora palpitante,
feliz, alegre, soberba, regurgitante.
Agora solitária, deserta, silenciosa, errante.
Dela, só a saudade foi o que restou!
Lá as horas se arrastam dissolutas no tempo,
escorrendo por entre ponteiros enferrujados
de relógios senis, sonolentos, bocejantes
que arquejam agarrados às paredes trincadas
de antigos casarões que contam séculos e séculos de histórias.

E dali...Não muito distante dali
ainda dar pra se ouvir
o apito plangente do trem da saudade
se dissipando volátil pelo ar
enquanto velozmente passa
a geringonça de aço
puxando os comboios atafulhados de solidão.
E nos trilhos vibráteis da mente,
a locomotiva fantástica sobre os dormentes,
se contorce ligeira tal qual serpente
levantando o pó e a vítrea poeira
do meu tempo de criança!

 
É lá naquela ruazinha erma e sem vida
nas estantes empoeiradas, esquecidos,
de velha e provecta biblioteca,
livros e compêndios amarelos de preguiça
cochilam horas e horas à espera de leitores
que nunca aparecem para lê-los.

 
Ah, saudade daquela ruazinha modesta
onde criança eu brinquei, amei e fui feliz!
No colo de minha pobre mãezinha;
lembro-me... Fazia festas
coberto de carícias maternais.
Ah, tempos que não voltam nunca mais!

Ainda me lembro daquelas noites fagueiras,
brincando ao redor das crepitantes fogueiras
acesas no terreiro do velho casarão
onde morávamos a tudo indiferente e a tudo alheio!
E quando eram noites de lua cheia,
rolava contente nos alvos bancos de areia
 e de bruços me deitava no chão.
 
Hoje, naquela ruazinha nada mais resta.
A não ser o silêncio de calçadas desertas,
quebrado pelo ranger lânguido e triste
de cadeiras decrépitas, monótonas e vazias
onde o tempo e a solidão, de mãos dadas, juntos se balançam
contemplando atônitos, com indiferença e apatia
o luar cataplético de minha dourada infância!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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ETERNA AMADA

Luz dos olhos meus!
Sempre que te vejo
me despertas n’alma
os febris desejos
de um amor insano
às vezes voraz,
às vezes profano.

Prende-me e escraviza-me
nesta Vida em Morte,
nesta Morte em Vida.
Frêmitos da Dor
no torpor do delírio.
Cavatina d’amor
- divinal Martírio –
que transcende os Céus
e subjuga o Inferno.
Quase sempre amargo,
nunca sempre terno.

Gozo da Desventura
no estertor d’Agonia.
Doce fel da Amargura
nos frenesis da orgia.

Frívolo ou fugaz.
A forma? Qu’importa?!
Nele me deslumbro
e nele me encanto.
Se me traz a guerra
ou leva-me a paz;
porque é Dor....Ai!
Eu o quero tanto!

Vida desta Vida.
alma rediviva
n’essência dúbia e viva
do meu rude ser.
Ó, louca paixão!
mais que bem-querer
por Deus sempre unidos
em pujantes laços
de carne e de sangue
inturgescidos.
Beija-me à boca
com teus lábios lassos
pra ressuscitar-me
se eu tiver morrido.

DA OBRA AMOR PRA VIDA INTEIRA, DE PEDRO PAIVA
 
 
 
 
 
 
 
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PELA MESMA RAZÃO DE SER

Quem sabe, se não sofres com eu sofro?
Talvez, pela mesma razão de ser:
eu sofro porque tu não me quiseste
e tu sofres porque vais me perder !
 
DA OBRA MEUS PRIMEIROS CANTOS, ENCANTOS E DESENCANTOS, DE PEDRO PAIVA
 

 

 

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O HOMEM QUE VOLTA

Quando parti havia flores no caminho
e ainda era manhã nos meus olhos.
Levando na mala a saudade e os sonhos,
deixando, atrás de mim, um homem chã.
 
Com gosto me atirei na vida – à revelia
dos desenganos é que pude ver
que as flores haviam se tornado espinhos
e as manhãs dos olhos – eclipse augural!
 
Quando voltei... O homem chã encontrei-o mais velho,
espreitando o horizonte, pensando talvez:
“O homem que volta à origem Pátria
não foi feliz desta vez!”.

DA OBRA MEUS PRIMEIROS CANTOS, ENCANTOS E DESENCANTOS, DE PEDRO PAIVA
 
 
 
 
 
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NASCERARTE

Eu já pensei em parar de escrever.
Mas a arte é existir!
Já me esqueceu garatujar poemas, poesias,
contos, crônicas, poemetos e outras formas 
em linhas tortas e sinuosas
cheias de palavras vazias 
e submissas a sintaxes exclusas
que alimentam e nutrem apenas o ego dos ditadores de regras,
que pululam em ideias inconclusas e sentidos indecifráveis,
mas a minha impulsão descomedida
se rende a compulsão do fazer que me arrasta pelos meandros da arte.
Então, me vejo à volta de rimas ricas, pobres, toantes, preciosas,
raras, brancas e soltas que se vão engastando em versos e hemistíquios tontos,
bárbaros, rotos, broncos e sem métrica.
Porque a arte não se mede; 
a arte se vive .... Ou se revive?
Eis a lida de quem escreve: a angústia da busca constante da palavra certa que não se diz ou não se escreve; 
que nada expressa, mas que tudo fala; 
a palavra impronunciada, mas que salta audaciosa, vívida nua e atrevida na frente do artista 
e o convida, adúltera e prostitutamente, para fazer amor.
E desse amasiado nasce cândida e pura a arte

 

 

 

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ENIGMA VI

Na cripta celeste
a Lua eclíptica
se afoga na elipse de sangue.

No horizonte irisado das paixões humanas
se debuxa um lindo rosto. 
De anjo? De demônio?
De santa? Ou de mulher?

Não sei... Não sei... Não sei!
Só sei que é um rosto suave
e de expressões amenas,
projetado das vagas lembranças
de minha saudosa infância!
De compleição ora austera ora serena,
mas de feição doce e delicada
tal como o semblante angelical de uma criança!


Exsurgindo nos muros altos de minha memória
Um rosto crispado, sem contorno, sem linhas,  
sem traços e sem   formas definidos, 
perdido num passado longínquo, distante.
Preso no espelho irreflexo de uma memória que fenece,
mas vivo e pulsante num coração que nunca envelhece!

ENIGMAS

 

 

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HORIZONTE

Vem! Dá-me tuas mãos.
Segura-me as mãos.
E caminhemos! ...
Caminhemos juntos
nessa direção.
Em busca de um horizonte
largo, aberto, livre e iluminado.
Encubramo-nos distantes na poeira da estrada.
Colhamos flores nas planícies alagadas.
E juntos cantemos uma nova canção
falando de amor e de paz
num Mundo que agoniza na guerra.
 
DA OBRA MEUS PRIMEIROS CANTOS, ENCANTOS E DESENCANTOS, DE PEDRO PAIVA
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FERIDA ABERTA

Não te bastara tanto amor que a ti devotei?!
Contrariando o mundo aos teus pés me joguei
na vertigem de querer-te, n'ânsia de tanto te amar.
Por um instante,  refestelou-se-me a alma,
encrudesceu-me na fronte a estonteante febre.
E entre  delírios e delíquios do amor,   langues e breves,
passei pela vida como um louco a sonhar.

Equivoquei-me ao dedicar-te tanto afeto!
Profligaste um amor de que eu estava certo
só por prazer de ferir-me ou, quem sabe, me matar.
E hoje, à revelia do teu vil desafeto,
no meu peito ficou, para sempre, uma ferida aberta
que se não expunge e nem para de sangrar.

DA OBRA MEUS PRIMEIROS CANTOS, ENCANTOS E DESENCANTOS, DE PEDRO PAIVA
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Comentários (1)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-12-31

Meu caro Senhor Poeta...Pedro Paiva...Amor - mistério - e a eternidade ... somente o lado feminino consegue decifrar este enigma . Pois é de se amar mesmo este texto. felicidades. feliz ano novo. para ti e tua familia.