Escritas

Lista de Poemas

MATURIDADE

Habita em sons a perfeição da tua fala!
As tuas sílabas são raras dissonantes dessa melodia
Nas exatas ideias onde prolifera o que dizes
Repletas na partitura dos verbos em diversos semitons.
Transbordo quando ouço a tua alma eterna
Calma, vasta, às vezes até intensa e árdua
Tramar o que os olhos pedem e a boca implora que entenda
Ainda que não contas as tuas impuras e nuas e ternas vendas.

Continua, anda, sussurra, assovia, cantarola, entoa
Insinua loas, balbucia agora, à tarde ou logo mais
Lambe cada sílaba com tua língua profana
Antes de explodi-las em mínimas abismadas bolhas
Como fico eu ante as frases que propalas.

Proponho e permaneço a escutar-te
Pelo terço de anos desse rosário de dias
Inclusive nas contas de horas que adormeço
Hilário ou sereno, mas sempre humano
Traçando aventuras em sisudas aparas
Ou simplesmente arcando o que cumpres
No passar do inusitado tempo
Que arde e verde madura ou perde.

Idade, venero tua algazarra nesse turbilhão velado
Cumprindo a caminhada que me segue e assegura.

👁️ 509

HÁ NO MAR

Há no mar um rumo aberto entre a onda e a lua
Há na lua um amor tão casto onde atua a fase
Onde teu uso assa, onde minha asa flana
Em profana massa e o sal em aço flutua.

Aí pela água revolta ou calma
Um vento repassa o presente ameno
O contraste ermo, a ausência rasa
Na maré intensa pela alma vagamente encontrada.

Há no mar uma busca eterna entre pernas e arbítrios
Há marujos enxaguados purgando desejos
Nas penas lanças e roldanas, continuidade e volta
Entre uma área e outra nas complexas armadas.

Em alto mar está meu amor próprio
Consolando as gotas que evaporam
E se perdem mansas no curvilíneo horizonte.

Além dos meus braços fincados no mar
As minhas mãos solevam nuvens
Distribuindo-as feito filhas dadas ao mundo.

👁️ 652

CARNAVAL

Aí vem Fevereiro, avivado, aceso, iluminado, bagunceiro.
Vem Fevereiro trazendo trios e salões e escolas e saltitantes cordões
Costurado de batuques e coloridas e engraçadas e dissonantes rimas.

Fevereiro como tantos que já desfilaram por minhas veias-avenidas
Fevereiro como os que me casaram com as calçadas e me cansaram os pés
Fevereiro como aqueles iludidos amores, suados e desprovidos de fé.

Apenas menos dias dos trinta, desde que entendi as semanas
Recheadas de estrofes e ensaiadas como se houvesse trabalho em tê-las.

Ei, Fevereiro, estaciona tua língua avara nos verões de toda a gente
Desse povo que exageradamente samba, santificado pelo peso das plumas
Padecido de promessas descumpridas, iludido como lhes enganam os santos
Que somente intercedem quando lhes desnudam a alma e reiteram a vez.

De qualquer forma, desejo um Fevereiro robusto, seguro, adulto e prático
Um, em particular a cada um, nem maior nem menos, nem menor nem aumentado
Cabível dentro das consciências, encaixado nas expectativas, definitivamente pronto.

Festivo. Festejado. Intensamente celebrado de folias, onde existir alegria em dançar.

👁️ 442

HÁ TORMENTA NO MAR

Falta água na pia
Lamento que assim seja

Nem Deus entente a peleja
Da escassez de realidade
Tamanha é a coragem

Nas entranhas desses dias
Quanta desigualdade há
Entre o farto e a anarquia
Se em mar há tanta água

Em terra imensa mágoa
Um mundo inteiro ausente
E eu fugindo adoidado
Dos insultos e manias
Poderia ser de outro nome

Ou mesmo em outra baía
Inclusive ser qualquer mínimo
Lavando a alma na pia
Caso ali houvesse água
Não houvesse tanta rima
Nos desmanches da poesia

Lamento que assim seja
Um mundo inteiro ausente
Nem Deus entende a peleja
Entre o farto e a anarquia
Tamanha é a coragem
Da escassez de realidade
Dos insultos e manias

👁️ 497

A MARRETA E O VERBO

A trava retrai e desemperra a tranca
Untada de maresia, verde azul de zinabre
Tosca idade que o formoso tempo tornou o aço impuro.

Ferrugens acumuladas intensificam o que ninguém traduz
Nenhum pensamento tem força igual
Nenhuma vontade detém tal feitiço
Como tem as horas sucessivas sobre a vida.

Somente as palavras - estas sim, desemperram a trava
Destravam, destrancam, quebram se preciso for
Todos os elos por mais ignóbeis possam estar.

As minhas emoções se arrebentam no costão de pedra
Emparedado, feito de frases compreensíveis
Apenas por aqueles que não ouvem ou desconhecem
Os caminhos entre a marreta e o verbo.

👁️ 493

VOLTA

Volta e me conta porque tão de repente fostes
Dizes o motivo da tua ida aparentemente sem nexo
Retorna como quem chega e nem pensa em de novo ir

Não direi palavra alguma, apenas hei de escutar-te
Silaba a silaba que proferirdes enfim

Não será regresso porem simples vinda

Volta como vem o sol na profusão dos dias
Chega feito primavera endoidecida de cores
Obliqua, pavimentada, outra vez presente
Sem querer ser intensa, eterna apareça

Vem reviver, reencontrar, acalante desinibida
Pisa o assoalho ignóbil da existência
Entenda apenas que voltas por isso aguardo-te
Robusta de historias, carregada de sonhos
Para juntos irmos a lugar algum um dia

👁️ 472

O MURO

O muro que separa
A minha casa da sua
É o mesmo que resguarda
O meu leito da rua
Que por vezes aplaca
Nossas caras e bocas
Ou então em bordões
Interrompe as amarras
Da boa convivência.

Juro que somente desatrelo
A minha casa da sua
Por mera formalidade oficiosa
Pois nada mais nos alicerça
Aproxima e atenua
Senão nos encontrarmos
Pela doce fissura
Entre um lado e o outro
Dessa parede ardilosa
Inclusive nas horas
Em que as cozinhas misturam
Venenos e aromas.

Por isso
Nosso humano muro
Foi construído de argila
Mel, chouriço, apupo
E ar puro.

👁️ 772

EXERCITANDO

Exercito os dedos nas cordas do violão
Exercito os olhos omitindo a luz em profunda cegueira
Exercito a alma apiedando-me misericordiante dos meus próprios erros
Exercito os dentes mordiscando as linhas estiradas na folha branca de papel
Exercito as pernas caminhando trôpego, bêbado, irreconhecível
Exercito a fala quando calo e consinto com o que diz você

Ponho a paciência em exercício

Coloco frente a frente o pecado e o perdão em exercício
Admito o glamour e me estraçalho a bel prazer em exercício
Componho os meus versos amargos em exercício
Deixo meu dedo em riste rumo ao seu nariz em exercício

Exercito a verdade
Exercito a fome
Exercito o coração
Exercito a oração
Exercito a ação

Dou a boa fé em exercício

Exercito quando abraço a causa

Luto apenas por exercício

Executo as leis do exercício

É bom morrer assim, exercitando

👁️ 701

NÔMADE

Quando amanhece estático o meu pensamento
Permanece mansa a vontade em não ir
Afinal, novamente partir assegura
O retorno dessa aflição intensa que complemento
Relendo as rotas percorridas.

No entanto, como saber do mundo sem beber suas águas
Estancar a ânsia ignorando outras plagas
Recontar distâncias sem tê-las medido!

Vou agora, porque sou afeto a mudanças
Porque respondo aos meus modos
Consequentes ou falhos.
Um bravio retinente me zarpa as amarras
De nômade, peregrino, efusivo andejo.

Presumidamente solto, fujo algemado
Rumo a outro inconsequente nada.

👁️ 466

UM TREM

Um interminável trem desfila na passarela de aço
Suas negras e afiadas roldanas de prata.
Umas cantam, outras gargalham adoidadas
Criando turbilhão, fazendo veloz algazarra
Na preguiça ensolarada do meio dia.

Há vento e poeira, além do escandaloso sol
E o peso do mundo sobre os dormentes da linha férrea.
Dentro da dezena de vagões, homens e malas,
Desejo de retorno, choro da partida, cumplicidade.
Também há mantimentos e nos últimos lances
Uma pequena manada presa em paralelo e com sede.

À frente, solitário, debaixo de um quepe amarelo
E por traz da suada gravata, o maquinista percebe
A distância emendar os trilhos que flanam feito folhas
De almaço, estiradas na luz absoluta e crua.

Enquanto esperneia incontinente pela estrada,
Apita e acena quando percebe a moça recostada na soleira
Tomando água, distraída, vendo um trem passar na frente da casa
No meio do mato, preso entre o encanto e a serra.

👁️ 522

Comentários (2)

Iniciar sessão ToPostComment
ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!