Lista de Poemas
SAÍSTE PEREGRINO
Milênios afora em viagens cominadas;
Porque andaste os cinco montes
Nos desertos da alma desertora;
E aprendestes vislumbrar por nada
Os percalços da aridez solidária
Nas colunas da sobriedade
Nas vicissitudes das solitárias dunas
E nos anseios foscos da humildade;
Nas vigas ocas da retidão, vigilante
E sabedor das regras apreendidas
Nas leis do teu árduo oficio;
Porque aceso está o cerne nas bordas e pontas
Da magnânima fumegante estrela
Na labuta, lide, meta, anseios em tuas veias
Batuta maestra que rege esta inefável orquestra;
Entre os fios da prata da espada
Dos cinco instrumentos ímpares
Da construção do teu edifício
- Na régua da exatidão desmedida
No círculo exato da tua essência
No lábaro veredito da caminhada
E em tudo que concerne o anteparo
Da pedra por fim esmerilhada
Em seu compasso medianeiro...
Segui, pois, companheiro
Onde tua vida é tua própria guia
A retilínea jornada
Não nem nunca solitário
Mas em tua única e serena companhia!
REFÚGIO
Desliga teus raios abjetos
Encandeça somente as partículas
Das luzes particulares
Dos colares que adornam
As faces cerradas e ocultas
Das tuas vontades loucas
Elimina assim das gavetas
As roupas que adornam
Tua amálgama revolta
Na prata das desperanças
No agouro das incertezas
Na tradução dos olhos rasos
Das razões das tuas contendas
Veleja teu momento ímpar
Crente por entre as ondas
E à beira da restinga
No refúgio da costa âmbar
Espreguiçada no oceano vesgo
Quando entorna os mangues
Desarranjados às vezes
Vergados com a sorte
Sem algas e nem norte
E perspectivas de ordem
Mas nem sempre é o mar
Essa garganta voraz
Devoradora de foz
Ainda que por si mareia
Debaixo do nariz
Tudo se reanima e refaz
No continente vasto
Daquilo que nos instiga
Reavivar idos castelos
Feitos de água e areia
MEU POVO
Meu povo passar na alameda
Cheia de pedras soltas nas ruas
Degraus repentinos feito abismos
Piso escorregadio nas calçadas
Sem qualquer porosidade onde pisa
Vagam a sola e a sandália
Entre o asfalto, o chão e o vazio
Passam a passos tortos
Por onde não devessem seguir
Seguem tontos, cegos
Tateando os pés pelo solo
A esmo, sem rumo, a ir
Entrevejo impertinente a plebe
Ater-se a desviar de postes
Placas, poeira, árvores, carros
Tapumes, cocô de cachorro, chorume
Espalhados na correria da insanidade
Ignorando que as avenidas
Cansaram-se da displicência
Dos reclames da Cidade
E sobre a beira da laje
Indiferentes surdas formigas
Perdidas feito gado em riste
Ignoram as aragens disformes
Nivelam suas trilhas com as patas
Sedimentam os caminhos e o destino
Imitando minha gente passante
Estafada de tanto andar
DOCES DOSES DE POESIA
Pelos vasos da tua sala
Sobre a mesa de jantar
Em cima da cristaleira
No armário do banheiro
Junto à televisão
No alto da prateleira
Colado ao criado-mudo
Perto do computador
Pela cama e o travesseiro
Na rede da varanda
Nas mechas dos teus cabelos
Pelas frestas e janelas
Assim tudo estará florido
Perfumado cheio de cores
Nas abas da tua saia
No laço em teu pescoço
No doce olhar das tuas tardes
Na alegria das tuas falas
Nas lingeries e vestes, toalhas
Na nudez dos teus lençóis
Nos brincos das orelhas
Nos quadros das fases
E em tudo o mais que enfeita
Tua voz e teu silêncio
Tua vida e os teus amores
Verás que as flores por fim
Enriquecerão tua vida
Afugentarão teus males
Dispersarão tuas dores
Renovarão os teus ares
Ainda que a solidão
Seja a tua companhia
Despetale tuas rosas
Espalhe-as por toda a casa
Depois contempla tua obra
Entre polens talos folhas
E doces doses de poesia
AQUILO QUE EU NÃO QUIS FALAR
Verso, rima, estrofe, poema, papo, trelelê
Talvez uma leve reflexão para que não se perca o costume
De rever silenciosamente a conjuntura da voz
Sem aviltamento ou recusa da livre arte de pensar.
Na ultima noite estive assim, sem qualquer emoção.
Não quis política, nem quis cantar nenhum avesso
Apenas deixei largado efervescer e fomentar
Essa seiva vermelha que viaja sórdida nas veias
Como alguém que descansa um copo num balcão de bar.
Sentir também é uma obra que resume a aridez
Os impasses e as sórdidas impurezas da alma.
Conheço as profundezas dos desafios e descobertas
E o respeito da carne a tudo que se interpõe à natureza.
Renuncio portanto em pedir o perdão da palavra
Ainda que o único medo que sinta da vida
Seja o do fio de corte da faca da minha estúpida língua
Por tudo o que diz aquilo que propositalmente eu não quis falar
NO PAÍS ONDE MORO
Tudo é incrivelmente notório:
Todos choram de alegria
Locupletam-se de bondade
Esmoecem de emoção
Relaxam com a extrema candura
Amofinam-se de intenso amor
Esbabacam de paixão
Afrouxam de felicidade
Derretem de benevolência
Intrigam de generosidade
Amolecem de gratidão
Amuam de tanto rir
Enfadam de bonança
Desolam de tanta fartura
Entristecem-se de apaziguados
Escaramujam de galhardia
Agitam de benquerência
Adoecem de mansidão
E arreados de otimismo
Morre-se momento a momento
De extremo prazeroso altruísmo
Venturosa fraternidade
E inefável contentamento
Tudo está portanto translúcido
No estado de espírito
Daquele país tão bonito
Onde todos tem o hábito
De imaginar a mesmice
Da peculiaridade que se tornara
O mundo em que se convive e acredita
E interrogam - porquê egoisticamente
Apenas eu o habito
ESSENCIAIS
Destes que se curvam com os vorazes ventos
Da tua perversa velocidade
Mas quando assim nos reclinas
Deitamo-nos junto às flores meninas
Que conosco convivem no prado
E nos fartamos destemidos
Plenos de felicidade
E com elas assim estirados
Entremeio às pedras do asfalto
Rimos da tua desvairada pressa
Bailamos ao som das cantigas
Dos pneus cegos que te voam
Fazemos firulas com o ronco
Do teu motor ágil vibrante
E descansamos enraizados
Ao pé das campinas
Não frágeis nem marginalizados
E sim robustos ainda que rotos
Porque de nossos macios brotos
Nascem tuas verdejantes colinas
Margeando enfim os essenciais caminhos
Apascentamos os passos do andarilho
Camuflamos grilos e centopeias
Acalentamos as lagartas preguiçosas
Trocamos o puro oxigênio das teias
Contemplamos as estrelas no ápice das trevas
Saboreamos o orvalho nos pelos
E os raios do dia que nos despertam
E ainda que tuas lâminas e o fogo
Consumam nossos frágeis talos
Somos capins de beira de estrada
Ressurgimos das cinzas cruas que nos alimentam
Revigorando as paisagens da tua jornada
ARTEIRO
Aveludadas pétalas e esguias ramas
Quem sabe também tão cheias de densa ansiedade
Por deitarem-se suaves na palma de tua mão
Morar entre a graça serena dos teus dedos leves
Que acolhem por safira uma pedra rara
E rosas brancas, vermelhas, amarelas
Agrupadas em buques em teu abraço calmo
E jasmins e hortênsias e orquídeas nobres
Margaridas e dengosas violetas de rua
Roubadas ligeiro da flora de agosto
Para fabricar alegrias e enfeitar as janelas
Desenhar teu corpo e os quintais da alma
Que contempla, recobre e perfuma teus braços
Sou esse serviçal catador de folhas
Rastelando entre sílabas secas e versos soltos
Atrás do tempo enquanto me resta a sede
De versejar a vida feita de escolhas verdes
E antes que finde o inverno e a primavera desça
Continuo feito saúva carregando flores
Para dentro da completa íris dos teus desertos
Porque sei que isto acende teu riso e serena tuas horas
E te tornas jardim de aroma e cores
Brincando na relva carpida de corpo inteiro
Molhada de contentamento pelo miúdo orvalho
Que te ampara, deseja, viceja e atura
Porque em setembro terás tanta fartura
Que esquecerás de mim, teu menino arteiro
ORA SEMPRE COMIGO
Unicamente aquilo necessário
Porque o Senhor já aguenta tanta troça
Que seria deveras injusto
Declinar-Lhe o breviário inteiro
Pela simples tola mania de rezar
Apesar de quão desumanos
Por vezes consigamos ser
Nosso Pai permanece envolto
Em seu interminável projeto de eternidade
Redefinindo nossos mundos
Concentrado em traçar Suas linhas atemporais
Esmerilhando a formula de vida
Confidenciando à Trindade
A grandiosidade da própria obra universal
Apesar de quão desumanos
Por vezes parecemos ser
Deveria nos bastar que Ele fique aqui
Tão junto a nós, assim próximos,
Para que nos sintamos por natureza confitentes
Peremptoriamente protagonistas de Sua glória
Confortavelmente amparados e capazes
Do merecimento Dele habitar em nós
Apesar de quão desumanos
Por vezes insistimos ser
Não atrapalhemos portanto Deus
Com as impurezas que nossa indignidade
Não consegue resolver
Muito menos O incomodemos
Com as obliteradas lamentações
Pelo que não dispusemos compor
Manter ou conquistar
Em razão da nossa preguiça em fazer
Ainda que tão humanos
Por vezes tentamos conseguir ser
DEPRESSÃO URBANA
Não vai a noite à praça
Não passeia pela calçada
Não traz a seresta nos dedos
Nunca solta a voz
Não suporta a sombra
Teme o samba
Reserva-se da madrugada
Esconde os fantasmas
Dorme o fim de semana
Desconexa os novos rumos
Não reza medita ou se benze
Até brisa apaga seu incenso
Ninguém vê que não ri
Não se ouve seu surdo
Não canta nenhuma cantiga
Rebelde e só
A depressão urbana
É maçã sem perfume
Revolve-se nesse abscesso
Nessa demência, nesse reverso
A rigidez do absurdo não se suporta
Triste arquitetura que não se entende
Estraçalha seu avesso mambembe
E somente esse estado de morbidez
Arrasta, deprime, destroça sórdida
Pisa, caça, arrasa e a lambe
As cidades angustiadas erguem tanto
Que deprimem sua gente lépida
Em condomínios imaginários
Que as desfazem cidadãs
Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
Português
English
Español