Lista de Poemas
COTIDIANO
Ouvir teus planos e
Já não tens paciência para
Escutar as minhas lamúrias
Confidenciamos com os
Mais distantes desejos que nos procuram
Buscamos soluções às
Propostas mais imponderáveis porém
Nos furtamos em proferir as
Palavras doces que desejamos ouvir
Ainda temos traçado nas veias os
Sinais das vias da gentileza e
A grandeza da consciência do
Que necessitamos interagir
Somos generosos e
Mansos personagens do
Absorto cotidiano
Falta-nos tempo – esse
Limado grão intransponível da
Soma de todas as
Horas
PREGUIÇA
Era manhãzinha
E ante o sol lépido
A figura lerda e sozinha
De um anjo tísico
Perguntou-me como queria
O plácido dia
Respondi incondicionalmente
- Intrépido e narcísico
Quiçá sem essa doce divina preguiça!
NOVELOS
Lustrei tuas calçadas
Escovei os cabelos dos teus quintais
Limpei os armários e gavetas das casas
Banhei as asas dos teus telhados
Afiei as tuas facas e o cortante
Punhal com que descascas as tuas frutas
Desafias as dobras dos sentimentos
E os amarelados novelos de barbantes e lãs
Enfiados entre ralos e apelos
Pelas orelhas dos livros de histórias ainda nem abertos
Nos caminhos incertos com que teces
As teias em que te isolas e enrolas
Santa cidade
Tenho medo e pena
Da falsa piedade plena que distribuis
Da cega fé que te morde o lombo
Endurece a tez
Apodrece o arame com que amarras
As tuas conquistas e ensejos
Pelo singular capricho
Vergado no desejo espúrio
Enciumado de moldar
A VISÃO DO FAROL
Como escolhe a onda quem deseja surfar
Entre areia e espumas recolho conchas
Seleciono pérolas, poemas do mar
Da enseada de saudades cato lembranças
Separo algas das lagrimas das pedras
E do sal das frias e insensatas marolas
Revivo os relatos de heroicas esquadras
Quem anda comigo enfim não ancora
Se preciso nada, segue com afinco
O traçado espelhado do céu e do sol
Assim incitando o amanhã de mãos dadas
Renovamos o tempo, cientes que a estrada
É a mesma, o que turva é a visão do farol
EQUALIZANDO
Em tudo o que com eles incide e procede
Nas propriedades que as equações detém
Entre a esquerda e a direita dos zeros
Como se comportam, se nos importunam
Ou o quanto importam em cada ser
E nos cálculos e resultados impactantes
Das planilhas elaboradas com a meticulosidade
Que a matemática, a lógica e a genialidade pontuam
Entre sensíveis prognósticos e reflexos
Impares sobre a materialidade constante
Nos modelos distintos das exceções semelhantes
Nos pontos percentuais que resultam das oscilações
O quanto tudo é tão abominavelmente efêmero
Indizível e ao mesmo tempo sociável nas fórmulas infinitas
Quando a ilusão diz ter, mas na verdade não se possui
Dissociando as exatas ideias e o ideário das frações
Arquitetadas nas pranchetas do que do imaginário flui
Pensando nisso, tudo é muito tenso e intenso
Deixe-me quieto com minhas elucubrações
Enquanto degusto equalizando a textura de um doce
UTOPIA
Lá fora cortávamos os cabelos das bonecas de milho
À beira do fogo assávamos as espigas e nos fartávamos de pão
Nas arvores balançávamos nas sujas cordas dos galhos pendulares
À mesa saciávamos as vontades no ato propício da mastigação
Pelo terreiro corríamos arvorados comungando entre a sombra e o sol
Sob o teto santificávamos com leite puro e chocolate as hóstias de polvilho
Do pátio partíamos desmedidos atrás da arrelia dos similares castelos vizinhos
Sentados disfarçávamos os olhares da mãe das unhas pretas de terra dos dedos das mãos
Após a porta, serelepes voávamos pelo horário infinito e as constelações
Entre as paredes aquecíamos das esbranquiçadas geadas das friorentas manhãs
Estudávamos nas cartilhas dos portais
Mapeávamos geopoliticamente as trilhas das lagartas
Retapávamos os buracos dos formigueiros
Desviávamos das valas os tenros filetes dos ribeirões
Varríamos dos caminhos as folhas soltas no chão
Distribuíamos as migalhas aos bichos que especulavam pomares e jardins
Cobríamos com penas as leves perebas e arranhões
E dávamos conta das contas dos rosários que a rotina nos permitia rezar
Ainda hoje plantamos utopia
E repartimos os brinquedos de fazer bem
Com tudo o mais que há, houvera e sentimentalmente havia
Porque aprendemos e continuamos a prender
Viajar e conviver entre o quintal e a cozinha
Da casa repleta de construções de silêncio e algazarras
Enquanto os sonhos de infância por complacência permitirem
MUDE
Por estar demasiadamente justa ou largada
Limpa ou suada
E tua carne pedir outra pele
E teu apelo querer outro pano
Ou se porventura na casa falte um botão
Ou enguice o fecho
Ou rasgue a gola
Ou enjoe a cor
Ou não caiba o tamanho
Da dobra da barra
Do frio ou calor
Comprida ou curta
O tecido incomoda
Está fora de moda
Por algum motivo não satisfaz
Põe pra lavar, mude, doe, cose, cirze, remende
Passe, alise, desamarrote, customize
Quando teu desejo pedir
Quando tua vontade mandar
Sempre há motivo e lugar
Aguardando uma nova atitude
Mude
SE
O sino do meio dia
Se a meia noite desdobra
Deita-te, repousa, desposa
Todo o ocidente recobra-se
Entre a coluna e o oriente
Repõe-se a energia
Então a acácia desperta
O ideal refloresce
O mal se envergonha e morre
E a fraternidade sobrepõe-se
Porque se refaz e renasce
Onde o amor prevalece
CARISMA
Evidencia o que persegues
Exibe o que inseres
E pontua tuas robustas referências.
Por preferência escolhe dentre as facetas
Aquilo que enceta teus rumos
Apruma e repagina tuas buscas
Reafirma teus mundos
Determina os investimentos
Dentro e fora dos teus sonhos
Em tudo o que acreditas.
Assim procedo
Com o que me condena
Ou indulta.
A NATUREZA DAS COISAS
De chuva molha
De papel queima
De oração ora
De novidade anima
De persistência teima
De proteção anjo
De arco-íris cora
Do que é feito de bronze zune
De madeira cerra
De lata tini
De água escorre
Mesmo o que é de ferro fura
De afeto alenta
De arte coaduna
De astúcia fere
De conveniência assenta
De vertigem adere
De alento encanta
Tudo é feito da mistura intrusa
Da generosa dádiva e causa
Da natureza das coisas
Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
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