Escritas

Lista de Poemas

SUPER LUA

A primeira vez que ela viu
Aquela imensa chama fevereiro à noite
Contou a todos que no céu
Havia
Uma super lua
Do tamanho do farol
De um trem
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ROTINA

Minha cidade tem apenas alamedas

Não existem ruas
Nem vielas avenidas travessas trilhas ou becos
Mas sim somente alamedas
Por onde largamente disfarço
E vivencio
Na rotina dos meus medos
A imprecisão dos meus passos
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PERGUNTO

Pergunto
Se no futuro haverá criancices
Dessas corriqueiras sandices
Feitas por mim e qualquer um
Nas esquinas das ruas
Amoitadas no banheiro
À beira da piscina
Escondidas no mato
Amassadas nas beiras
Rabiscadas no muro
Debaixo das fuças
Onde todos passam
E os loucos nem sonham
Que possam existir
Assim tão saborosas e boas

Pergunto
Somente porque
Sempre haverá perguntas
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TORTA

O que pensa aquele
Que mapeia a terra ao meio
Põe recheio assa e come
Vai à tribuna e discorre
Sobre a necessidade que resta
E se presta à exegese
Caricata aventura
Dessa massa disforme
Lixada xingada e some
Em nome da caridade
Das mãos que doam
Repartem se vaza
Na vala onde a brasa
Dispersa a sobra rejeitada

Longa estrada essa torta
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CHACINA

De repente e
Sozinho
Ele aparece embriagado
Falando coisas sem sentido
Sentindo náuseas da própria fala
Como se assoprasse uma imaginária flauta
Ou apertasse as teclas de uma sanfona
De fole furado
Chutasse uma bola sem ar
Rodasse um pneu sem aro
Se deitasse numa cama sem forro
Varasse um cerco de nóias
Comprado um pão endurecido
Feijão brocado
Lastimando a perfeição

E amanhã estarão nos jornais
Todas as suas artes
Peripécias
Indecências
Ousadias
Morto na porta de um bar
Sem explicação
Ao lado de outros dez
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APARÊNCIAS

Não sou de viagens
Apesar de andejo
Caminho em círculos
Por meu próprio brejo
Eu nunca me assusto
Com o que vejo
Porque já conheço
Todo o previsto
Antevejo a catástrofe
Antes que venha
Convirjo os meus medos
Em assaz coragem
Transgrido as regras
Que me detém
Nenhuma disputa
Me toma a senha
Jamais me rebaixo
Nem digo amém
Não sou teu guia
Nem sou eu pajem
Convivo com regras
Sei a que sirvo
Se acordo triste
Sofro calado
Mas peço ajuda
Quando errados
Explodem as pontes
Do meu caminho
Reato as pontas
Reforço as cordas
Refaço as vidraças
Estilhaçadas
Remendo o casco
Redijo as linhas
Contorno o curso
Antes traçado
Nesse mar de barcos
Que não navegam
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SOZINHO

Então parece que Deus foi cuidar dos outros
Daqueles que moram além da minha rua e dos meus muros
Daqueles que estão em outras avenidas, bairros e vilas
Daqueles que se encontram nos sertões e nas cidades vizinhas
Em outros estados, em outras capitais, em outros países e continentes
De repente Deus fica infinitamente distante
Tão longe quanto um instante no universo que só aparece daqui há milênios
Parece que foi passear em outro mundo
Que vive em outro mundo
Divino

Quisera um Deus mais humano, mais próprio, mais meu

Para que esconder-se no fundo dos oceanos?
Para que deitar-se sobre as geleiras dos polos?
Para que sentar-se à beira dos vulcões e brincar com as lavas?
Para que abobalhado ficar observando o movimento de translação dos astros?

Oh Deus, vem cuidar de mim
Afinal sou eu sua maior criatura
Afinal sou eu sua criatura
Afinal sou eu
Sou eu

Eu
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IRREALIDADES

O que prende as águas ao leito
É unicamente a aparência das imagens
O que segura as ondas sobre a flor
É puramente a coincidência
Não há beirais
Não existem orlas
Inexistem as margens
Não há prudência na testa das tormentas
São meros paradigmas boçais

Achamos que alicerce prende e separa
Que amarra ancora
Que âncora sustenta, fixa e aferra

Tolos conceitos, tudo esvai ligeiro, degenera
Ensaboa como nó na garganta, dor no peito
Prenúncio de temporal

Tão frágil é o mundo
Fortes são as sombras
Que assopram e assombram
Irrealidades coadas sobre todos nós
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CANÇÕES

Eu gosto de fazer canções que encantem o dia
Para que toda liberdade sublime e irradie ternura
Que o amargor das taças se torne doçura
Quando a candura suplanta o rancor da agonia
Eu gosto de fazer canções que encantem o dia
Regenerando a ingênua alma que procura razões
Para os dissabores que surgem sem qualquer malícia
Onde a preguiça de pensar atravanca as verdades
Eu gosto de fazer canções que encantem o dia
Daquele que lida com o líder estabanado
Que sem escrúpulos fere na arrogância da lide
As obrigações mínimas dos modos humanos
Eu gosto de fazer canções que encantem o dia
De quem mal ganha o farelo rareado na mesa
E que dorme debaixo da realeza mesquinha
Daquele que usurpa sem modos e afeto
Eu gosto de fazer canções que encantem o dia
Pelo direito a uma cadeira que descanse as pernas
Sobre um chão translúcido e benfazejo
Que acolha sem ódio sem ócio esse oficio
De fazer canções livres que encantem o dia
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TAMANHO FAMÍLIA

O tamanho da família é maior
Que se consegue contar nos dedos ou listar
Família é ser maior
Que estar no afago das mãos

Não é possível mensurar por empatia e amor
Não é possível mensurar apenas na coincidência
Nem pela incidência de sobrenomes puramente convergentes
O tamanho da solicitude é maior
Que as razões em tornar-se tamanho família
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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!