Lista de Poemas
OS DIAS VIVIDOS
Quando puder reconte os dias vividos
Refaça o tempo de frente para trás
Regresse, regrida, reverta, retorne, retome
Tente voltar
Passe novamente cantando por onde precisaste ir
Com outros olhos onde foi desnecessário estar
Reveja e inveje tua pecaminosa vida
Que construíste sobre falsos pilares de amparo
E abrace cada erro com mãos de peregrino
Com carinho e análises de pai
O que houve de acertos somaram-se sólidos
Constituem justamente a piedade com que averiguas o que se foi
Essa capacidade de enxergar o que deixaste fenecer
Tornará grande o que porventura apequena tua paz
Quando puder redesenhe caminhos andados
Sem necessariamente trilha-los de novo
Tenha consciência de que os teus passos
Jamais seguirão os rastros dos meus
Ainda que façamos parte desse mundo imaturo
E tenhamos nos encontrado
Num repente de coincidência sem perceber
Que viver é conseguir ser totalmente irreal
COMUNHÃO
Do pão que reparti
Também comi
Servi a ti e aos teus irmãos
Alimentou-nos
Aclarou a calma
Unificou, reuniu, purificou e afiançou a fé
Por menos que se creia na perfeição da alma
A força que fala ampara sentimentos
Apara o que desaponta
Desponta e complementa
A integridade do todo e de qualquer desejo
Pedaço a pedaço mastigamos
Remisturando gostos e sabor
À rigidez íntima das vertentes
Imprudentes verdades que se misturaram
Entre a língua, palato, fome, fala e os dentes
Esse ato único de ruminar, remói, transforma
Modifica os gestos do rosto, elucida e alimenta
Toda espécie de informação e forma plural
Ilumina a face ainda que por dentro
Erroneamente procrie tártaros e caries
Acaricia a confiança
Sedimenta e aflora a vida
Refaz, revela e nos torna mais próximos
Da construção maior do ser
Num simples pedaço de pão
Revigora em comunhão
Repartir sacia
TODA FALA
De papel-porcelana-aquarela
Tintas onde o sol quarara
Sobrerramas de frágeis bolhas azuis
Fuxicos de gentilezas
Traduzidas por faces que o vento propala
Em palavras sempre simples e doces
Quando abala
De mel da fina flor araucária
A espessura exata de toda fala
Tu que não cala e não desafeta
Torna-te preciosa peça transparente
De impugnável riqueza
Que a pena valha e enceta
Quantificar nessa amena porção
Que emana de irresistíveis sabores
Nos desconsolos sobre nossas caras
Por isso ria-se não do tosco até do belo
Do paralelo renegado cotidiano
Caso a sorte por azar te assedie e roube o norte
Mas sim reconstrua cada quadro
Senão pelo quadrante ogro que deteriora
O que refaz a salvaguarda magnitude viva do agora
Rarefeita perfeitamente qual animal que refuga
Qualquer sobrevida ingrata avilta e avara
SEDA
Tão mínimos quanto os apelos
Que adormecem por entre as teclas
De um brando piano alvo recém-aberto
Ritma pelos suaves dedos dos artistas
Que brilham humildes em sandices
Usando ágeis frases nos trastes das violas
Abalroadas de canções e calmarias
Canta nas tardes que ardem melancólicas
Nas plumagens que acentuam as cores do lilás
Nos holofotes que incendeiam as pupilas
Quando fogem sem razão do insano silêncio fugaz
Sem as notas não seria ela leve como assobios
Não haveria frágeis quanto nuvens em prenúncio
Nem chegariam amparadas ou deleitariam
Nas entrelinhas das escalas as claves das pautas
Lê enfim a flor das gotas ou a granel
Toques, tons, alma, sonhos, melodias
Sobre a grande seda desenhando no papel
Os viandantes sons de seus entreabertos lábios
Eu dela gosto por ser ela assim tão maior
Envolta em dons repleta de poderes
E ainda que advenha dos mais rudes cristais
Tudo transborda em completa poesia
DESCONFIANÇA
Exalta aflita falta de carinho e abandono
Noda de reminiscências ocas imprevistas
Calma adormecida pelo desleixo do sono
Manchas de carvão nas vestes da alma
Que podam e apontam o contorno do corpo
Desmancham a indefesa áurea apagada
Perfurando as dobras e rugas da pele
Estampa as marcas do travesseiro de pedra
Ausência de um cinto que afivele o ânimo
E esse jeito comprimido irremediável da mente
Sem perspectivas em saber-se para que vieram
Os sinais de que macios turbilhões revoltam
Ensinam o estigma da deliberada conduta
Desapontam o entrelaçamento das amarras
Quando fingem sumir e surpreendentemente faltam
Não reconte pois agora os segredos nem os revele
Cedo demais depois para que não esvaeçam
Nem tardiamente antes por conta da desconfiança
Como se pudessem outrora por decisão detê-los
MEMÓRIAS
Anda construindo um mundo à parte.
Nesse empreendimento de divinas jornadas
Determinou ao barqueiro primaz
Arrebatasse para o reino enlevadas
Preciosas joias de fina estirpe
Ainda que não garimpasse tão justos e perfeitos
Ao menos determinados a genuflectir
Ante a magna profusão celestial.
Agindo o anjo de obediência máxima
Ceifou recente então pelas beiras raras
Recolhendo da fina flor na obediência
Duas incólumes insignes graças
Dois vesuvios, dois irmãos
Levando-os para outras esferas no intuito
De engendrarem apriscos em novos templos.
E se aos arcos faltam estes pedreiros hoje
Deixaram nas memórias, alças e afrescos
As formas puras das suas mãos.
O TEMPO
Não somente um semeador ou reles sementeiro.
Sou eu a verdadeira pureza
Que deteriora o fruto, arrebata o bago
Estala a vagem, decompõe a polpa
Resseca o talo, carcome a carne
E oferece aos homens, ventos e pássaros
As chances cruas da refloresta
A oportunidade de novas mudas
O reinicio dos ciclos
A perene teia que peneira.
Independo que tuas mãos sintam
A repentina ou comprometida fiança em plantar.
Os meus amigos passam pelo pórtico da Cidadela
Arrebatam jardins e pomares
Sentem as rosas, colhem mangas maduras
Descansam sob os pequenos arbustos
Conversam com as cigarras ciganas
Que adivinham as manhãs e temerosos
Entreolham nos olhos da venenosa esperança.
Simplesmente trabalham, comem, engendram
Regeneram, recuperam as forças tamanhas.
Ao invés, sou essa incólome presença
Porque trago a teimosia resoluta dos amanhãs.
LANCINANTE
Que parte a fala ao meio;
Da longitudinal distância exangue
Que se esvai severa
E deixa o dorso quedo;
Frívolo estupor que mingua a veia
Como se pudesse viver
Desprovido sequer de um ai
Pelo fio e frio apelo
Da misericórdia que torna pio
A incessante insensatez
Insegura e injusta dor
De galgar atroz
O que põe doido
Resvala a arte
Em sua lancinante
Inoportuna sorte
Como se também soubesse ela
O dia infinito
Que parto eu
Junto a minha morte
VERBAL
destemida e solta. Lambe
o pescoço em revista à bandeira;
atrevida ergue a face onde o dorso
curva perplexo pelo próprio beiral
sua confortável e certa trilha.
Pátria-palavra nada frívola
súbita conjunção que exulta
o mais nobre preceito verbal.
Amar é todo esse exercício
explicito de exuberância efêmera,
de um povo-poder evidente
incrível e intencional cabível.
Comove-se com a rude arte
faz parte desse ápice supremo
Imparcial inexato convincente;
convive com o sempre
envolto em um desafio real.
Do amor a língua por fim tritura
de forma ambígua e frugal.
Arrebata a criatura e a mente,
debela estruturas e intenções.
Desestrutura o secreto,
preconiza rupturas virais,
torna plausíveis as esperas,
entendimentos concretos,
possibilidades únicas do anormal.
Mesmo quem surja impróprio inviável
controvertido e estrábico contundente
de benevolência augusta improvável;
que apoie ao ócio entre o ópio e a pia
pelas risíveis manchas promíscuas nas vias -
também enxerga relevantes e indomáveis
imagens, registros de indecifráveis cores:
sentimos transpirar incontinente o ardor
que amarga e queima a verve da gente.
ARAUTOS
Apupos do arado depois da colheita
Como quem espelhando louva
De olhos cerrados a primavera
Ouvindo os ventos harmoniosos
Da era dos trópicos e hemisférios
Brindando o solstício entre os mistérios
Revelados nas forças da natureza
As almas carreando a luz do verão
Sorriem sucintas festejadas
Entrecortadas entre frutos maduros
Hão de existir definidamente
Suculentas em meio a sinfonias
Dezembrinas transmutadas em gente
Arrebatando nós e correntes
Enunciadas pragmáticas de pura leveza
Então copiosos arautos desses aromas
Nos conduzimos pelas baías vertentes
Onde o sol nas salinas custa surgir
Nas distantes geleiras dos continentes
Nas frias semânticas tão primitivas
Galerias de neves entremeadas
Respeitando intenções e pressentimentos
Celebramos a dádiva, a vida e a beleza
Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
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