Lista de Poemas
PERMITA
Permita acontecer.
Ainda que esteja escuro
Não dê pra decifrar
Seja impossível ler
Permita significar
Quando acontecer.
Talvez coisa à toa.
Um repique qualquer.
Batuque de pé na mesa.
Talvez seja possível até
Estralar no céu da boca
Um pedacinho de lua
Com gosto de beleza.
Coisas insignificantes
Que fazem roer unhas
Desmantelam atitudes
Distraem os sentidos
Sem motivo qualquer.
Torna-se raro e sagrado
Como textos lidos.
Deixe levar pelas águas
As sobras não faltam.
Mesmo amores passam.
No tempo nada é único
Ruem como as estações.
Há quem sempre aproveite
Das ausências e excessos.
VARAIS
O conceito usual de ser bom.
Há quem leve como obsessão
O custo dessa cumplicidade
Em entender-se inútil e prestativo à bondade.
Para quem nunca viveu dessa pressa
O vil admoesta as intenções
Para sempre exige que se ponha
Ao vivo atento precavido à ruindade.
Tudo que dói da dor
Que perambula pelo nefasto da sala
E que desatenta despenca as incertezas
Ou se apossa e fecha as janelas
É um passo de maldade.
Por isso já moro fora de casa
Colado às cercas dos quintais
Lá onde as intempéries
Ficam mais perto da rua
E a realidade é transparente lençol
Seja de lama, asfalto ou areia
Estendido nos varais.
BULA
Como remendar essa dor:
É preciso tomar as doses corretamente
Dessa droga que irá cicatrizar
A ausência do amor que deixou de existir
Tudo se encontra minuciosamente prescrito
Em negrito times new roman
Incluindo alta dosagens e contraindicações
Parece que o medico responsável dessa bula
Também se perdera enamorado como eu um dia por ti
Ele assina
Mas não diz escrito
Se curou
O VENDEDOR DE PICOLÉS
Já pensando onde irá pousar
Carros saem de garagens
Motos circulam entre ônibus e caminhões
Todos com viagens demarcadas
Também as bicicletas e os barcos partem
As charretes e carroças os trens
As meninas nos patins
Carrinhos de pedreiros baldeando entulho e massa
A senhorinha da feira arrasta a cesta com rodinhas
Tudo vai girando sobre esferas e aros
Desenhando retas e círculos
Circulando por ruas quietas e tortas
Movimentando elétrons
Por dentro da terra
No meio do mundo
Por entre nuvens e raios
Em todas as horas
Na velocidade do justo
E apesar de toda essa pressa – ou não – sobre rodas
Passei lindos dias esperando na porta
O vendedor de picolés
UM EXPRESSO NA LIVRARIA
A moça de leve eleva até a boca
A borda da delicada xícara
E abraça com os lábios
O líquido que arrebate expresso
A espuma quente da beira da louça.
A fumaça lhe embaça as lentes
O negro néctar alveja ainda mais seus dentes
Ela sibila, cerra os olhos com candura
Enquanto sorve e disfarça a voz
Envolta em doce encantamento
Depois arrebatada de momento
Deita a chávena no colo do pires
Observando a vastidão da mistura
Vestígios do seu batom no café
Açodado por um torrão de chocolate
Como quem lesse placidamente as entrelinhas
E o moço revendo displicente as capas
Floridas dos mágicos títulos da livraria
Retém da memoria uma infância de rimas
Torrando as sementes de um vasto cafezal
Banhado pelo aroma de frases, valsas e poesia
IGREJA
Paulo Sérgio Rosseto
Sei que me carregas pela mão
E que me transformas pela fé
Que me aceitas sempre como eu sou
E que me amparas porque quer
Sei sou o menor dos filhos teus
Mas tua bondade me engrandece
Sobre tua mão me apoiarei
Pois tua verdade me enaltece
Nasça sempre em mim a piedade
Ao compartilhar a tua luz
Semeando a paz pela seara
Levarei tua palavra
Por onde o amor conduz
Não me bastaria tua bênçãos
Se não abençoasses meu irmão
Por isso quero ser teu instrumento
De misericórdia e união
Isto é ser Igreja num só templo
Fortificados na fraternidade
Então bem unidos viveremos
Repartindo o pão da caridade
@psrosseto
RABISCOS
Qual a diferença da fome
Entre um lado e outro da fronteira
Da sede se é maior ou menor aqui ou acolá
Das ideias, ideais, culpa e ideologias
Da necessidade de entendimentos
Das concepções, expectativas e experiências
Da beneficência que assimila o beneplácito
Das nuances da língua, transcritas na fala
Da confidência do acerbo causal
Que por vezes exacerbados nos toma
Achamos que somente nós detemos
A bandeira mais bela
Um hino emblemático
A épica epopeia
Um enviesado ontem de glórias
A certeza mais pródiga
Um futuro tão próximo
E esse presente útil e absoluto
Que nos imprime soberanos
A mesma chuva que aqui orvalha ali molha
E quando aqui encharca talvez ali apenas serene
Mas a neblina é só uma
E jamais apequena a terra
Apesar das duras penas e da febre
Que sem dó tapa, impõe, arrolha
A consciência de quem labuta e assume a batalha
Quem dividiu os lados
Esqueceu-se de desligar os rabichos
Dos rabiscos sujos de guerra
ENDURECER-SE
Compor versos sem contexto
Fazer tudo pelo avesso
Errar o caminho da volta
Driblar velhos pretextos
Passar por outros acessos
Desentoar de vários gostos
Desdenhar de um desfecho
Rejeitar um falso apreço
Apreciar o que não possa
Acatar por ser anormal
Banalizar certas certezas
Refutar as asperezas
Rebuscar no que perdera
Rasurar o próprio papel
Cancelar o que não queira
Amar o que não tem nexo
Repensar uma promessa
Dimensionar a consequência
Começar um novo ciclo
Endireitar o próprio jogo
Assim se suporta o jugo
O ombro se torna terno
E a alma mais serena
PARA DEPOIS DO CARNAVAL
Contenham os ânimos
Embainhai as espadas
Guardem os rifles e canhões, fuzis
Poupem a língua do sarcasmo hostil.
Deem às crianças liberdade e fantasia
Às deusas fantasias e malemolência.
Desmanchem os pelotões
Criai apenas blocos.
Cessem as marchas para ouvirem os coros
Das simétricas matreiras marchinhas nas ruas e salões.
Hasteiem as bandeiras das escolas
Os estandartes das agremiações
Os santos mantos dos desejos
Estampados nos mastros da alegria dos trios.
Desnudai os sentimentos que invadem as praças
Com sonoros tambores e tamborins.
Arrastões somente de ousadia
Excessos de explosões de felicidade nas avenidas.
E depois, quando tudo isso passar pela cidade
Riremos incomodados da paz que essa guerra de folia
Por alguns inconsequentes e deliciosos dias
Conseguiu nos dar.
PASSARINHAR
Pelas asas
Pelo canto
Ou pelo pio
Muito menos pela leveza da pluma
Ou pelo ziguezagueio matreiro no ar
Não os invejo por serem passarinhos
Pelo desenho de seus ninhos
Ou por outra razão alguma
Senão o relance do olhar
- Isto sim me põe zonzo de arrepio
Enxergando a diferença
Entre seus necessários voos
E meu reles caminhar
Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
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