Escritas

Lista de Poemas

AS MÃOS

As mãos dela passeavam suaves com o pente sobre nossa testa
As dele docemente derrubavam os cachos que se desprendiam no piso
As mãos dela banhavam nossa fronte com serena candura
As dele arremessavam nossas ideias muito avante do nosso tempo
As mãos dela desenhavam nosso dorso com seus santificados dedos
As dele corrigiam nossas paixões e avaliavam nossas vontades
As mãos dela apalpavam nossas pálpebras para que nos aquietássemos
As dele comprimiam nossos impulsos e retinham as ousadias
As mãos dela benziam nossa coragem rezando nossos momentos
As dele disciplinavam os gostos que tínhamos pelas fantasias
As mãos dela cozinhavam os pródigos alimentos que nos nutria
As dele escavavam oportunidades para que ganhássemos o que nos valesse
As mãos dela cosiam as vestes puras que nos vestiam
As dele teciam nossos rosários com as contas que merecêssemos
As mãos dela aplaudiam escondendo as travessuras
As dele descobriam nossos erros e corrigiam nossos travesseiros
As mãos dela ajustavam os desejos que nos arrebatavam
As dele afugentavam nossos momentos de fracassos
As mãos dela cobriam nosso peito afugentando a friagem
As dele acendiam a esperança e aqueciam a casa fria
As mãos dela cortavam nossas unhas arrancando as cutículas
As dele arranhavam nossa alma com amor próprio e cidadania
As mãos dela balançavam o berço a rede e nossa piedade
As dele sacudiam nossa preguiça e nos punham envaidecidos da verdade
As mãos dela quaravam nossas meias e calçavam nossos tênis
As dele nos ensinavam a escovar os sapatos e a não sentir as solas
As mãos dela se juntavam unidas em orações por nossos dias
As dele também assim faziam e nos acolhiam em longos abraços
Ambas nos ensinaram a ser família e nos recolhiam nos braços
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TÃO POUCO SE SABE

Não fora um rio de bênçãos que desceu vale afora
Nem uma tempestade de bonanças que escorreu da montanha
Tampouco um paredão de esperanças que rompeu pelas grotas
Ou a erupção de um vulcão que vomitou benesses na vargem

Não fora um fio de alegria que encantou a baixada
Nem uma gôndola de fé que explodiu sobre o prado
Tampouco um caminhão de promessas irrompeu pelo plano
Ou um avião de vantagens que aterrissou na campina

Não fora um regozijo fraterno no contexto esperado
Nem uma novidade imprevista por qualquer aguardado
Tampouco um turbilhão de progresso para uma gente mineira

Não fora nem tampouco poderá vir a ser o que não seja
Ou seja, não fora nem tampouco poderá vir a ser qualquer coisa
Além do que fora, tão pouco se sabe, e tampouco se explica
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GAIOLAS

No pequeno alpendre, a mesa e seis cadeiras
Uns bancos malfeitos com restos das madeiras
Reaproveitadas das destocas do terreiro.
Sobre a mesa maçãs, folhas, flores e jarros
Desenhados na toalha plástica cheia de poeira.
Lembro ainda dos palitos queimados
E guimbas amassadas, dos palheiros pisados.
Logo à frente um risco de agua vazado da torneira
Das galinhas ciscando sobre as próprias fezes
E dos cachorros e gatos deitados na soleira.
Roseiras plantadas em canteiros separados
Por tijolinhos enterrados na diagonal.
Cascas de laranjas, pés de mamão macho
E os portões tortos amarrados
Junto aos mourões das cercas escangalhadas
Entre touceiras de mato, guariroba e pimenteira.
Um silêncio lascado se estendia pelas ruas do milharal
Cujas bonecas tagarelavam ou dormiam quietas
Transtornadas de gostosa meiguice.

Era apenas domingo, ninguém trabalhava.
Os parentes viriam de novo somente no Natal.
Enquanto isso o presente era a saudade e a velhice.
Nós? Assistíamos a tudo de dentro das semiabertas gaiolas
Penduradas por pregos à sombra, nas paredes.
Comíamos restos, matávamos a sede.
Recordo daquela vida como fosse agora:
Cantávamos solidários blues desafinados
Alimentando os sonhos daquela gente da aldeola
Até que batessem asas para o mundo
E aprumados como nuvens livres
Em busca das cidades torpes fossem embora!
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SONETO

As tuas mãos desenham coisas tão bonitas
Linhas infinitas que se completam em cada ponto
Que me põem tonto admirando as habilidades
Da tua preciosa e discretamente arte

Olhando os teus rabiscos sinto sede
Sonhando teus riscados tenho medo
Velando os teus desenhos transfiguro
Medindo tuas figuras compreendo

O que nas entrelinhas me revelam
Silenciosamente como músicas
Aquebrantando os ritmos dos segredos

Acendendo a tua áurea de artista
Quando uno a ti os vértices do poema
Transcritos por teus ágeis e habilidosos dedos
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GARIS

As folhas do saber
Brotam dos pés de papel
Boiam como rolhas
Velando lâmpadas acesas
Com azeites das virgens olivas
Entre restos de banquetes
E férteis favas de mel
As abelhas leem ceras
Entumecem a celulose
Em meio a moscas cupins e traças
Formigas e larvas baratas
Fornicam nos escarros
Luzidias de riquezas avaras
Patinam na metamorfose
Vespas e besouros arquitetam
As trêmulas laminadas asas
Pássaros aninham gulosos
As trôpegas lacunas
E o microcosmo pulula
Perde-se nos rumores
Em suas covas rasas
E as borboletas sóbrias
Partem das várzeas
Íntimas e rasteiras
Voando misericordiosas
Sem importarem-se
Com os abutres que sorriem
Das nossas náuseas

Cândidas mãos nuas
Abnegam rudes gentis
Recolhem restos da noite
Transportam fétidos containers
Apanham as máculas mundanas
E ainda cantam e sorriem
Como a segurar Portinaris
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ESPERA

De seu coração tudo espero
- Desde a sublime paciência
Em compreender minha espera
Até mesmo a complacência
Por entender o desespero
Cuja tormenta me desespere
Caso a saudade conflite, admoeste, debilite
E atormente esta alma aflita
Repleta de bem querência
Porem inconstante e impaciente
Imatura, avara, intransigente
Sem saber se a desejo porque preciso
Ou se preciso porque a quero
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AUDIÊNCIA PÚBLICA

Essa ideia íntima
Resiliente colada a ti
Que gemina quântica
Ainda que aos olhos vãos
Traduz-te santa e pérfida
Mesmo aos pudicos apiedados

Entendes putífera
Propositalmente lisa e lúcida
Paralisada à sílaba diáspora
De uma legião convicta
De débeis alucinados
De ouvidos moucos
Que fazem pouco dos que se interpõem
Ou se opõem a ti

Enquanto cálidos transeuntes mórbidos
Se sentem quedos
Aos gestos mais insensatos
Inventados por tuas ramas
Destróis os argumentos toscos
Artífices das cláusulas inexatas
À sombra das sobras
Dos teus próprios medos

Te arranjas forte
Acima dos loucos
Dos tolos
Da loucura oca
E seus artefatos
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NO LADO OCULTO DA LUA

Deus agora está morando
No lado oculto da lua
Aonde no princípio descansou
Após a criação do firmamento
Onde guardou as armas peculiares
Usadas na composição do universo:
O verbo, o sopro, a onipresença
Magnanimidade e onipotência
E nos alimenta de bondade e misericórdia,
Persistência, persuasão
Esperança e sobriedade
Cuja saciedade me faz sorrir
Até das graças dos arcanjos endiabrados
Como fossem divinamente argutos
A ponto de me tornar secularmente feliz

Eu, que não me atrevo
Nem mesmo a explorar
O lado escuso da minha rua
Jamais recomendo xeretar o escuro lunar
Se bem que de certa forma
O mistério estelar instiga:
Desconfio que ali exista
Um celeiro de alminhas
Conservadas em invólucros de inocência
- Essa que perdi olhando o céu enluarado
Sonhando achar você!
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PEIA

Um dia coubeste inteira
Dentro do meu alforje
Eu bem pude move-la
Amassar, derreter, esfarelar e sobrepor
Como desejasse fugir, soerguer
Completamente verdadeira

Então criaste descontrolada
Quando eu não mais percebi
Não conseguia dobra-la
Não mais amassara
Jamais derretera
Muito menos se esfarelara
Apenas crescera independente
Enquanto demovido suspeitei
Desconhecer sua lógica velada

Saudade é mesmo assim
Transborda, explode
Arrebenta o embornal
Agiganta e dói feito peia
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O TEMPO EXPIRA

                  Paulo Sérgio Rosseto

Fecha a cortina para diminuir o sol
Retrair a luz
Tornar opaca a mera visão do dia

Cochila recostada à cadeira
Cerra os olhos
O instante congela quando fecha a janela

A nuvem densa esconde a lua
Depois chove
E a noite se molha negra e ensopada

De silêncio a madrugada silencia
Tranca os lábios
Aquieta a língua e o pensamento flutua

Não há morte encomendada
Tudo é normal
Como qualquer ato cedente

Apenas continua o gesto motor
Repetido movimento
A gente segue e o tempo expira

Há quem adoeça e soluça e suspira
O prazo extingue
E o corpo – ah o corpo não mais respira

@psrosseto

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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!