Escritas

Lista de Poemas

BOLINHOS

Ontem uma nuvem boba não se conteve
E derreteu suas vontades
Sobre a terra

Assim caiu uma aguinha à toa
Dessa esparsa que pouco molha

Os pingos fizeram bolhas na frigideira
Onde Jandira suava bicas

Amamos esse cheiro de terra úmida
Ventos rápidos
E bolinhos de chuva
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EXPLICAR

Meu poema não traz respostas
Apenas faz perguntas

Indaga o cotidiano em versos
InquerI as atitudes silábicas
Interpela ausências gramaticais
Questiona cadências
Sem transigir as rasuras
Ou benesses
Que as palavras possam trazer
E a arte explicar

De resto é recitar recitar recitar
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OS MOTIVOS DA POESIA

Troco um ano por um dia
Desde que possa ser intenso
Intimamente denso em alegria
Copioso em bênçãos
Um dia de horas válidas
Dessas que aliviam
Minutos cujos momentos
Prazerosamente extasiem
O sentido da existência
E os motivos da poesia
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SEGREDOS

Nossas mãos dormem entrelaçadas
Tão próximas e coladas debaixo do lençol
Que se parecem às íntimas conchas
Desenhadas de um atol
Não se soltam, completam-se caladas
Suportam as marolas do mar
Resistem suadas aos alvoroços
Solavancos e aos infinitos riscos do amar

Depois, fora dos espaços, longe da cama
Equilibradas e já rasteiras
Reservam ainda nos tiranos dedos
Cheiros, sabores e nuances corriqueiras
Segredos que nem ousam falar
Aos mais insanos desejos
Para que nem mesmo elas, as mãos
Aos próprios pés possam contar

Isto é ser parte de um todo, verdadeiras
Até mesmo onde porventura
O destemido amor possa instar
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SAMAMBAIAS

Minha alma tem inúmeras samambaias
Espaçosas pelo chão.

Chegaram verdolengas e se estiraram
Ligeiras por falsos cantinhos ralos
Disputando com restos de poeira
A umidade reservada às formigas e cupins.

Eu apenas procriei minha particular floresta
Onde descanso entre madeiras e folhagens
Todas as bobagens do tempo que me resta.

Nem sinto falta das ausências de estarem
Perto ou ainda longe de mim.
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VERSOS DE VIDRO

Opaco espelho
Desvencilha dos minúsculos ciclos
Esfarelados fincados na areia

Esse velho labirinto inútil estilhaçado
Refletia de um lado
As fases das faces monstruosas
Enquanto dormíamos distraídos
Nas escadarias das cavernas

Cuidava das imagens
Velava os mínimos pigmentos de luz
Das imediações
Pensando que nos iluminava
E ria porque nos enganávamos imortais

Nós continuamos iludidos
Robustos de carne e vidro

As suas migalhas no entanto
Transformaram-se de frente
Em versos e cacos
Que a dor quebrara!
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INACABADO

Precisasse falar, diria.
Como não preciso calo
Porque sei que minhas mentiras
Nem mesmo eu as ouviria.
Não escutando, ignoro
Ignorando desdenho.
Qualquer coisa que supunha
Em nada ou pouco ajudaria.
Entendam todos que tenho
A liberdade ao meu lado
Por isso entro e saio a passeio
Pelo ângulo e ótica que concebo
Em até partir a verdade ao meio
E suas supostas metades
Retalha-las sem receio.
Desvendando o que não vejo
Não vendo o que não pretendo
Ao tornar prioridade
Deixo as suposições de lado.
Ninguém conclui a própria obra
Sempre haverá um novo verso
Outras sensações e adendo
A um momento inacabado.
Eis o inusitado segredo!
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LAPSOS

Se fosse para enxergar o belo te emprestaria meus olhos
Se desejasses carinhar uma flor daria as minhas mãos
Se pretendesses reverberar os bons sons doaria meus tímpanos
Se quiseres difundir a paz entregaria a ti a minha língua
Se fores pelo reto caminho ofertaria os meus pés
Se intentas celebrar o gozo toma meu sexo
Se buscasses o amor desmesurado tornaria minha alma
E para festejar os bons pecados
Poria ao teu dispor toda emoção e sorriso

Mas se em nada disso houver razão e propósito
Seria eu em ti o mesmo mistério e forma

É engraçada a vida de quem se engraça
Nessa bagunça da raça humana chamada paixão
A gente se arrisca e rabisca e enovela nos lapsos
Muito além do que possa parecer preciso
Por ser a soma do amor a busca de todos os riscos
Enquanto e quando se ama
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POR UMA CAMA DESTAS

Por uma cama destas
A gente se deita e abre a estrada.

Seguiremos imperfeitos
Por qualquer caminho,
Amassaremos as coisas
Em meio a ausências e rejeitos
E roupas amarrotadas.

Escolheremos como e de que ter medo
Que cores tingiremos as paredes
De quais verdades iremos brincar
Em quais brinquedos passaremos a crer;

Se no tempo certo ou agora cedo
Deixaremos o porvir dizer
Em que solo devemos pisar.

Haverá sempre um abrigo
Próximo a uma margem mínima
Entre os sinceros sentimentos.

Nenhum estrondo ou silêncio
Irá abalar nossos propósitos
Mas caso haja a hora derradeira
Será esta única dose íntima.

Conviveremos com os ventos
Que têm por habito desalinhar
E tornar perplexo o propósito
Do que se acha fortaleza.

Jamais duvidaremos do que brota
Ainda que a madrugada esgote
Qualquer vontade em seguir.

Entre mãos firmes e dadas seguiremos.
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QUALQUER SOM

Procuro um bolero para dançar
Um tango, valsa, xote, blue
Qualquer som, ritmo, melodia

A parceira eu tenho
Falta-me o canto, a sonoridade
A hora que propicia o baile

Nem precisa ser à noite
Pode ser agora antes da agonia
Dos contrassensos dos passos

No meio do balé das ruas
Em cima da cama num quarto
Na porta de um salão fechado
Sobre a mesa do escritório
Na sacada ou jardim
À beira do fogo na cozinha
Em frente à geladeira
Na sacristia de um convento

Onde houver um momento único
Para nos sentirmos livres pela música
Desenhada na luz do sol
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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!