Escritas

Lista de Poemas

O FIM DE TODO MUNDO

Não fosse a agua não me daria conta da chuva
Apenas da enxurrada
Não fossem os embranquecidos cabelos
Me perderia na fila dos dias idos
Não fosse a taça esqueceria as uvas e do vinho
Não embriagaria
Não fosse o garfo despreocuparia da fome
Lembraria a faca
Não fossem os segredos não faria poemas
Dormiria cedo
Não fosse a arma o portão estaria solto
E livre meu espirito de qualquer medo   
Não fosse a ética não haveria culpa
Estaríamos mortos

Aprenderia a pular etapas descrer do obvio
Rever o abismo por outros modos
Descer muito abaixo do choro
Analisar o jogo
Teria coragem de rezar prevenindo
O inicio e não o fim de todo mundo
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HAJA PRECES

Existem homens que não servem
Procriam-se como germes
Tornam-se monstros
E não se mostram
Apenas evidenciam a catástrofe
Admoestam
Omitem
Mentem

Há aqueles que se prestam
A reparar o que não presta
Recuperar desafetos
Aparar finas arestas
Reacendem da mesmice a vida que fenece

Tantos são servidos e excluem-se

Entre bons e maus lideres
Alguns nos representam
Outros lamentável ignoram e desconhecem
Que todos somos parte
Daquilo que nem sempre nos convence

Uns buscam apreços
Outros nem se importam

Haja preces!
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NÃO QUERO METADE

Não quero metade
Preciso do todo
De um risco a outro
Ambos os lados e até ambíguo
Começo e fim, termo e início
Ida e regresso, chegada e partida
Polpa e caroço, sombra e luz
A gleba repleta, a taça cheia
A caixa cheia
A paciência que transborda
O círculo completo
O quanto dure uma vida inteira

Não há meio abraço ou beijo
Meio desejo, meia lástima, meia lágrima
Vontade ou sonho ao meio
Ou é bonito ou feio, rude ou simpático
Forte ou fraco, ético ou velhaco
Astuto ou tolo

Que a sorte nos seja palpável e farta
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A VIDA NOS MORDE

Cedemos conformados aos costumes
Tanto nos acostumamos que vira rotina
Repetir rotas
Cantar cotidianamente
As mesmas notas nos mesmos tons

Convivemos com os buracos da rua
Com as goteiras da casa
Com os rasgos na roupa
O barulho do carro
A poeira no livro
O espelho sem brilho
A casa vazia
O coração fechado
A torneira que pinga
Os olhares surdos
Os chinelos gastos
Sapatos sem graxa
Muros altos
Portões trancados
Risos de fachada
Conversa sem rumo
Dor na coluna
Dente estragado
Falta de iniciativa e pensamento lerdo

Mordemos os dias e a vida nos morde
Se não cuidamos
Viver fica pra logo mais tarde
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ENQUANTO ESCURECE

Hoje não mais semeio
Pois é tarde

Deixarei para amanhã cedo
Depositar a semente
No seio do chão úmido
Com o frescor do orvalho
Que se fertilizará ao nascer do sol

Hoje arei a gleba
Alinhei a eira ao nível do solo

A noite baixará a poeira da seara
Seu virgo à espera do plantio
Estará fértil ao femeeiro
 
Agora merecidamente
Descansamos observando as nuvens
Que incendeiam no poente
Ardendo de desejo
Eu e a terra nua
Enquanto escurece
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DOS VERSOS DE OUTRO POETA

Esperei a lua que vinha
Agora à noite para um vinho
Provaríamos da mesma taça
Deixando na margem do cristal
A tatuagem dos lábios
Ensopando a língua
E ébrio o riso ensaiando
Qualquer possível beijo
Entre cumplices olhares

Deve estar sobre os mares
Acima das nuvens
Ou em alguma fase furtiva
Velando namorados
Ou mesmo enamorando-se
Dos versos de outro poeta

Ainda assim sinto-a repleta
Num agradável brinde
Apesar da ausência
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UM BRINDE

Mais uma ou duas doses
Para curar a magoa
Estou seco em ausência de agua
Com sede e ainda que o desejo pese
Rezo para que algo me console
Apesar da significância
A carência de sua presença
Me consome sem guia
Põe disforme na estrada
Em que agora estou totalmente só

Ando em desequilíbrio
Ajo desnecessário
De nada me alimento
Exceto de seu ausentar
E desse nó reviravolto
Que nos amola

Sei que você também a essa hora
Derrama-se da mesma vontade
Recosta seu barco em mim

Um brinde à solidão que nos devora
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EM ESTADO DE POESIA

Pela manhã a vontade de amar-te
Às vezes é mais forte que à noite
Mas noturna é a hora que engraça
Os amantes

Eu faço amor sempre de repente
Pois a sorte comigo me agracia

A todo o tempo sinto tua carícia
E em mim você se faz presente
Tão sagrada e profana
Que qualquer pensamento teu
Me delicia e inflama

Amo te amar
Permanente em estado de poesia
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ME CHAMA

Quando você me lê
Pressuponho em silêncio
Balbucia os versos
Como quem deixa
Escapar o anúncio
De um suspiro disfarçado
Aquele ah! ligeiro que remete
A um pensamento distante

Mas se em voz alta
Tua língua torna evidente
E aquebranta o reclame
De cada palavra escrita
Nem mesmo você acredita
Que junto à tua boca
Vontade olhar e mente
Você inteira me chama
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TUDO JÁ SEI

Fui ao futuro aprender como se morre
Porque da vida tudo ja sei

Morre-se de extenuado amor
De fome, frio, calor, apaixonado
Também da falta de fome e excesso
De paixão, solidão, mesmo que acompanhado

Morre-se de qualquer morte banal
Dessa que extrai a vida sem explicar
De surpresa, de repente, acidente
Até de arrependimento e contente

Morre-se de ilusão antes que esta morra
De idade, por verdades e de mentira
Inveja, infarto, palpitação, alegria
De um coração envenenado e ódio

Morre-se ao nascer e até antes
De ser qualquer ser que perceba
A razão do choro e a beleza do riso
A candura de um olhar inocente

Morremos todos por azar ou prazer
Ainda que não acietemos ser preciso morrer

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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!