Escritas

Lista de Poemas

DA JANELA DO MEU QUARTO

A lua recosta a testa na vidraça lisa e fria
E na penumbra abraça meus sonhos com clarinhos
Ela passa em visita por minha casa
E eu paro a vida para contempla-la
Nada existe mais entre eu e ela
Exceto a imensidão do universo
Plena e tênue luz que absorve
Envolta num labirinto de ondas claras
Me engrandece a alma nessa experiência
Entre a condição humana e o divino

Não é mera coincidência estarmos ali em sentinela
Nos observando mutuamente absortos
Eu viajando admirado em seu lume
Ela passeando acesa por minha morada
Com apenas um frágil vidro nos evitando
Como separasse a ocasião do engano
Se aconchega íntima e pequenina em meus versos

Da janela do meu quarto
Certamente é Deus me observando
É assim que Ele em mim se manifesta
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CONVIVÊNCIA

Soltos sobre a cômoda alguns ícones
Alimentam minha consciência:
John Baldoni, Peter Cusins, James Hunter
Rupi Kaur, Spinoza, Thomas More
Goethe, Veríssimo, João Cabral de Melo Neto
Fernando Pessoa, Charles Baudelaire, Ezra Pound
Catulo da Paixão Cearense e alguns gibis da Mônica.

Assim a filosofia o protesto a ciência e a infância
Redesenham minha mente
E me disfarço de poeta em meio a essa gente
Imortal, consagrada e que vive ali
Abundante em generosa convivência.

Sobre minha cabeceira idêntica realidade
Pseuda fantasia, misto de certezas e abandono.

Na gaveta do criado-mudo
Irrequietos  repousam meus poemas.

Não são fáceis os momentos que antecedem ao sono.
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PRESSAGIO

Hoje meus sentidos adormecem quietos
Os olhos teimam em permanecer fechados
Há um vazio imenso entre minhas mãos
Não ouço nem o silencio quisera teu som
A língua não prova nem doce nem fel
Não percebo nenhum cheiro pelo ar
Inerte, mal consigo manter o equilíbrio
Do lerdo exercício de respirar

Devo estar em fase de pressagio
Esse mau passadio é mais que preguiça do meio dia
Tem tantos nomes, tantas afinidades e distúrbios
Vai muito além da saudade, está após os limites
Corriqueiros e conhecidos da rotina diária
 
Desconforto. Essa a definição mais acertada
Que posso eu admitir estar sentindo já perto do coma
Vésperas da depressão

Preciso urgente de uma oração e duas cervejas geladas
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MATREIRA

Há um quarto de lua minguante
Outro tanto dela crescente
Uma face bela e tão nova
E uma fase ousada e bem cheia

Tem noite que se retrai
Outras vezes ela incendeia
Perfuma agita e faz troça da terra
Que não sabe se a ama ou odeia

Prende os cabelos, solta as madeixas
Faz juras e queixas, invade as loucuras
Dos rios e dos mares, rasura as margens
Baixa e ergue as marés
Joga palavras, remoinha os ares
Treslouca excitada, extrapola, rebela
Se esconde nas nuvens, se disfarça em estrela
Abre-se inteira, líquida, sem mácula
Se delicia nas águas, goza faceira
E repousa e acalma igual à pétala rosa
Que gangorra cheirosa
Entre o lábio carmim e a língua vermelha

Lua matreira, tão calma e bonita
Tem pena de mim
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CORAÇÃO SERTANEJO

Pensar em ti é andar por jardins floridos
Perder-se em campos de dourados trigos
Passear por verdes pastagens
Cruzar pontes sobre rios amenos
Deixar a espuma das ondas lamber os pés
E os pés afundarem na coroa de areia encharcada

Andar por jardins floridos
Certamente seria pensar na cor dos teus olhos
Estar perdido em campos de trigo
É vê-la erguer e mudar os cabelos
Sentir-me a passeio pelas verdejantes campinas
É ter o privilegio de estar próximo ao teu hálito
Cruzar pontes sobre rios amenos
Seria observar teus comedidos gestos
E sentir a água e a areia é deliciar-me
Sobre a luz que evidencia quando me olhas

Vê como és natureza e desejo?
Inexiste qualquer outra forma ou maneira
De lembrar teu gracejo
Senão semelhar-te paisagens e sensações
Ao meu coração sertanejo
Repleto de sertanejas canções
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A POESIA DO MOMENTO

Sente a brisa que toca teus olhos
Contorna os teus lábios
Beija os teus pés
Alisa teus pelos
Enevoa teus céus
Entrelaça teus dedos
Arrepia teus poros
Massageia teus braços
Carinha teu pescoço
Orvalha tua pele
Perfuma tua cama
Inunda tua noite
Enlaça teu corpo
Tirando teu sono?

Essa mesma brisa
Doce leve e ousada
Também vem aqui em meu quarto
Povoar os meus sonhos
Agora de madrugada

Com ela me deito

É a poesia do momento!
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EM CADA PÁGINA

As ralas nuvens passeando
Parecem muito soltas e macias
Deixam entrever o azul através
Da transparente brancura
Brandas mexem-se medianas
Pelas beiradas do céu
Esticam colam erguem baixam
Gotejam e desaparecem
Irrequietas onde se afirmam
Simplesmente deixadas
Ao sol e se aquecem

Se parecem com as rendas das
Vestes leves que te recobrem
Quando na cama dissimulada
Retiras do barco que te atraca
Os versos que te envio
E te sentes com o privilegio
De ser lembrada e cumplice
Do que há escrito e encharca
Da agua que habita tua espuma

Façamos chover
Em cada página que nos flutua
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A COVA QUE CAVO

A cova que cavo pá a pá
Abre uma brecha no mundo
E nela planto a muda virgem
Da erva que gerará sombra
Flores, frutos e folhas
Que ajudarão a oxigenar
Os pulmões da terra

Depois nesse espaço nem raso nem fundo
Estarão sepultas as raízes dos meus dentes
As plantas dos meus próprios pés
O esguio tronco que sustenta
Todos os vértices e meu ventre
Além de restos da massa e seiva que sobrar

Continuarei assim parte de barro e calcário
Pó de pedra, musgo e areia
E quando por fim mais nada restar
Estarei presente em livro e retrato
No fundo de sua memória
Ou junto a uma velha estante
Em alguma sala de estar
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ONDE DEVERIA

Onde deveria eu agora
Estar buscando tua presença
Se justamente a tua falta
Inspira-me e faz com que
Minha arte aflora

Não fosse tua existência
Andar por outra morada
Não haveria essa ansiedade
Adivinhando teu vestido
Qual música adorna
Os sons nos teus ouvidos
Se há livro em teu colo
Anéis nos teus dedos
Brisa remexendo os cabelos
Sandália em teus pés
Que te levam a passeio
Ardor nos teus olhos
Arrepio nos teus pelos
Segredos nos lábios
Perfume em teu cheiro
Rima em teus braços
Certeza em tuas crenças

A poesia não é cruel
Apenas se farta impropria
Das simples ausências
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SEGUNDAS INTENÇÕES

Meu poema não tem segundas intenções
As palavras sabem da própria densidade
Que lhes é delegada
Por isso pesam suficientes dentro das emoções
Que os versos transmitem
E falam diretas ao coração

Sabe, eu às vezes ignoro algumas ideias
Por acha-las fora de algum contexto real
E cometo o maior dos erros de um poeta
Que seria renega-las por meras concepções
Pessoais dos axiomas e suas conjecturas

Preciso aprender a não ter desprezo por verso algum
Porque são eles que compõem esse universo encantador
Capaz de tocar a alma como uma oração
Que faz soar um canto de Deus num aperto de mão
Ou a sensibilidade nos olhos do ateu
Ao perceber a natureza farta que se procria
Na sucessão de letras que se coadunam
Nas estrofes de uma poesia

A maior intenção de qualquer poema meu
É tocar tua mente com a maestria de uma orquestra
Ou depositar nos teus lábios um despretensioso beijo
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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!