Escritas

Lista de Poemas

POR DEBAIXO DA PORTA

                    Paulo Sérgio Rosseto

Caso esse vento arteiro sopre lá fora
Colocar agora a língua suave e assopre
Pela mínima fresta por debaixo da porta
E levemente vente por entre tuas pernas
Entregue-se lânguida ao frescor do arrepio
A essa benfazeja brisa que te acaricia

E caso resfrie puxe a coberta
Aconchegue-se ao florido jardim
Do seu travesseiro

Mas se o sono falte
Dê-se ao direito do devaneio

E se porventura incendiar
E tornar-se intensamente desperta
Jogue o lençol
Deixe-se nua e inquieta
Aos doces apelos
Desse vento poeta

@psrosseto

👁️ 167

DOCE DELEITE

Vai muito além da vontade
Por algo doce na madrugada
Um manjar branco ou pudim
Um naco de goiabada
Algum pastel de Belém
Camafeu de nozes
Diamante de morango ao creme

Extrapola o apetite
Pelo açúcar que excita
Que molha os lábios
A boca salivando treme
Por esse lascivo desejo
Do beijo adocicado
Legitimo chocolate ao leite

Doce deleite que arrebata
A sede não de água
Mas do carinho que mata
A saudade que arde sem jeito
No âmago do peito
Nos seios em pêssego
E por onde o querer lateja
👁️ 189

CADA ERRO ENSINA

Não me tome tão repleto se tua fome não é tanta
Pois o alimento escassa e não é justo que soçobre
O espanto do pecado pelo desperdício da comida

Retira-me do teu armário antes que embolore
Doa-me a quem precisa e pouco tem a recobrir-se
Aquecer do frio, dignificar-se com um mínimo conforto

Da tua agua cede-me um gole que meus lábios molhem
Ou insignificante jarro para que banhe meu dorso
Limpe e lave o sujo que em mim impregna e cola

Vê se ouve minha fala, escuta o clamor que aflige
Minha alma sem guia recostada nas sarjetas
Que margeiam as avenidas dessa vida peregrina

Crê nas verdades que te conto ainda que assuste
E não me cobre do impossível se não te parece real
Pois nem sempre se acerta mas cada erro ensina
👁️ 187

O QUE FAZEM ESSES HOMENS

O que fazem esses homens eternos
Dentro de templos fechados
No silencio sem janelas
Nos enredos de seus passos
Íntimos mistérios
Escondidos em preceitos?

Talvez rezem ou procuram
A oração perfeita e pura
Que cure a alma pela doçura da caridade
E torne mais perfeita e fraterna
Cada ser e a humanidade.

Seriam tantas as respostas
Nessa batalha mística do escuro
Contra a magnitude da vida;
Talvez seja escura busca
Que se aclara com a visão ávida da luz.

Vencem ardilosas e árduas batalhas
Trazem consigo pura e reta
A estrada por onde aprimoram e aprumam
Seus vastos e próprios espaços.

Do que sei guardo com a alma
Se desconheço estudo, e se descubro
Cubro com o manto do segredo.

Me torno também mudo
Como a calma que me resta.

Poucos veem o que fazem
Esses homens de terno.
👁️ 348

OUSADIAS

Meu sol costuma dormir pertinho
Nada dessa historia de ir ao Oriente no final do dia

Ele não viaja, apenas desliga a luz e torna amanhã
Alguma parte de ser que seja tarde
Ou faz amanhecer algo que precise
E nunca deixa de brilhar por mim

Antes de apagar põe os pássaros em suas árvores
Arrebanha as nuvens aos seleiros
Diz aos ventos que arrefeçam e se refaçam
E aos arcanjos que clareiem minha áurea
Para que eu não sonhe em vão ou perca o sono
Descabido temeroso com minha própria insônia
 
Mantem por fim alertas um punhado de estrelas
Por sentinelas, pois caso ela venha saberá
Onde me achar apesar de qualquer escuridão
Que me tome nos braços por ser ainda noite

Ensinou-me que a vida sem ousadias
Por vezes fica ilegítima e sem graça
 
Logo após faz manhã e entendo por fim
Que nada é à toa
👁️ 154

EM CADA GOTA

E se ao findar o dia me der um cálice ao meio
E mais meio e meio outro e outro mais meio
Serão deliciosos goles com inigualáveis aromas
Desse tânico raro e violáceo vermelho
A morder meu paladar e a língua a sorvê-lo
Intimamente inebriando-me inteiro

Provar da taça do vinho é um ritual nobre
De frescor frutado, ervas finas, floral, tostado
Um íntimo exercício privilégio de poucos
Ao brindar a loucura no translucido cristal
Que antepara o buque em cada gota que baila
Entre o brinde e o lábio que se entreabre matreiro

Ao bolero, às meias, aos saltos e ao cheiro
Que instigam o devaneio e a paixão sem pudor
Vivencio o diálogo dos sussurros do amor
Às uvas, à vinha e aos sonhos de Baco
Eu, irrequieto poeta provoco, sinto e provo sozinho
Do frescor da lua e sua malícia e final de boca
👁️ 208

POR TODOS OS LADOS

O cheiro da tua lembrança
Perfuma minha solidão
Seu bailar de um lado a outro na sala
Petarda meu sono
Dilata minhas veias
Farfalha e espalha
A vontade de investir todo o meu tempo em você

Parece ser incrível mágica
Viver entre a vontade
E o disfarce em saber nada
Pedir ou querer estar tão próximo
E a um só tempo enormemente distante
Como um veleiro na agua e longe do cais
Que surfa sem leme em mar revolto
Sem ventos para voltar

Há por todos os lados
Sempre um repetido e novo engano
Entre acertos e riscos de errar
👁️ 180

CHUVINHA

O dia que criei pra ti
Tem flores e altar
Adocicado manjar
Violão e seresta

Tem as fases todas da lua
Em uma só nave
Estrelas que saem do sol
E viram pingos de mel
Vento transatlântico e terral
Aurora boreal e arrebol

A qualquer hora
Tem chuvinha fria
Fingindo ser amena garoa
Alguns raiozinhos teimosos
Provocando estalinhos de festa
Folhas molhadas
Cheirinho de terra
E preguiça à beça
Como o diabo queria

Já a noite que me dei pra mim
Tem somente você e poesia
👁️ 241

ARREPIAR DE AMOR

Cada um tem seu jeito
Há quem escandalosamente grite
Há quem silencie
Há quem apenas deleite
Há quem estremece e palpita
Há quem ache tudo perfeito
Há quem se arrasta na cama
Há quem reclama
Há quem finge que ama
Há quem pensa que goza
Há quem fala de tudo
Há quem se cala e dorme
Há quem se obrigue por isso
Há quem agradece e reza
Há quem nem se suja
Há quem sua vertiginosamente
Há quem remoça
Há quem intenso e lerda
Há quem seja precoce

De toda maneira
Arrepiar de amor é coisa bela
👁️ 194

BORBOLETA

Ela me tomou pelas asas
E repousou-me no indicador em riste

Eu que estava triste
Fitei os olhos dela me observando
Deliciei-me em seu riso brando
Li seus lábios conversando
Gesticulando, contemplando
Comentando minha frágil pequenez

Sorvi o fresco suor de seu dedo
Matei minha sede
Repus energias

Senti que tornei seu dia mais feliz
Rocei as antenas num furtivo adeus
E voei
Voei
Voei
👁️ 169

Comentários (2)

Iniciar sessão ToPostComment
ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!