Paulo Sérgio Rosseto

Paulo Sérgio Rosseto

n. 1960 BR BR

Porto Seguro/BA. Escritor e Poeta. Livros Publicados: 24Livros no Prelo: 04Biografia completa: psrosseto.webnode.comLivros à venda: clubedeautores.com.brInstagram: @psrosseto

n. 1960-04-11, Guaraçai - SP

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FAXINA

Introspecto queimo todo o lixo que deparo:
O bem do mau, o luxo e amorfo
O sórdido e prolixo da boa intenção
Sob a desculpa da fala, das justificativas
No refluxo prévio da arrebentação

Limpo as gavetas, os arquivos do córtex
Varro o chão da memória, rastelo vértices
Arestas e faces que gramam minhas vontades
As mais sujas e obscuras possíveis
Por meio século sem razão recolhidas

Uso da palavra como ferramenta de mão
Que escava intenções, remexe pensamentos
Remodela a arte transformadora do sentir
Para erguer-se altivo e predisposto
Reforçando colunas e produzir gentilezas

Eis a forma como decompõe-se a cera que me arde
Mínima chama no escuro da morte
Porem transparente e útil como lâmpada e luz
Limpa, livre, solta feito flocos do sal
Que depuram lagrimas de silêncio no porvir da idade

Sigo, por fim, andejo pelos polos de um imã
Que desperto e involuntário reverte meu leque
Provocando por sinais longas tempestades
Cujos ventos internos de sua doma reformam a manhã
Por onde diuturno construo sadias as minhas tardes
Ler poema completo

Poemas

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VULNERÁVEL

A morte e a vida colidem seus rumos
Tão prontas quanto se beijam
Assustadas causam em meio às ventanas tortas
E a calmarias
Ambas resistem, insistem, e se entregam
Fiéis, copiosas e fortes
Ao pó das pedras das soleiras das portas dos destinos
E estes sorriem da sorte vulnerável de todos nós

Por isso todo esse mundo em moto-constante
De poeira e lama, massa e gosma
Flores, canções, poesia, luz e benesses
Se torna cuspe do infinito
Ainda que açodado e perverso
Cisto debaixo da língua amálgama do universo
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ISTO ASSIM É VIVER

Prepara tua sala
Os anos sucessivamente virão visita-lo
Um a um, na fria sucessão dos dias.
Hoje denodam demora em chegar
Depois deverão arguir-te em maior intensidade
Quando por fim passarão carregados pelas
Asas dos arcanjos que nem irás notar.

Mantenha tua casa à parte do entrevero
Limpa das impiedades, forjada à sombra
Dos arvoredos dos bons costumes
Sob a lâmina da razão.
Entretenha-te com as iguarias
Produzidas pela sorte que te merece
Saciando-te os teus anseios
Pelos corredores das paixões.

Faça o que há de belo
Que a tua alma denode o bem
E o teu espirito em equilíbrio ilumine
As conjecturas dos propósitos e das boas respostas.
Viva o teu presente
Por todos os motivos das
Assertivas de estares vivo
Entre os homens de bem.

Nada terminará, apenas o tempo
Será então tua mobília
Irá decorar os teus cômodos
Permitirá as tuas portas
Delimitará os espaços teus
Entre o risível e o que sois.

Isto assim é viver!
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SÓRDIDA MÃO

Sórdida mão esta, que assegura o lucro
Que apara a lente, sulca os sentimentos
Redireciona o ar, reendireita a vértice
Reapruma o leme, estribilha o mote
Mata a pastilha exangue, enxagua o molde
Se deita vaga, vagamente boia
Copula lerda entre as pernas tortas
Das tardes martas, corpulentas bolhas

Algas magras, estas brandas nesgas
Endiabradas, aferidas, federadas
Quando ajoelham pedem resolutas
Absolutamente anoitecidas, reclusas
Repletas de calos que incomodam
As incoincidências, e discriminam
Adoidadas tudo que de lúcido enseja
E rasteiramente rastreia e arrasa

Convexa aurora, então desconecta da noite
Adiciona o dia intersol sob as asas puas
E se não voa, cavalga ao menos no longo apelo da lua
Fazendo chegar inteira a satisfação da mera escolha
Nos labirintos arcanos, desformados, sem cheiros,
Sem gruas e nexos, ceifando as falsas hipóteses
De se encontrarem as duas, nos momentos
Raros e rarefeitos no afio laminado da navalha
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AGORA E NA HORA

Agora e na hora e às claras,
Os sóis alarmam cicatrizes
Que o breu da noite nivela
- Amantes degustam lares
Chacinas aos montes afloram
A sorte nos morros expõem subúrbios
Rimas vitimam e denodam cóleras
Que em nada diferem aos sofrimentos palatais
Dessa moldura de amores e caras

Agora e na hora da fome
Todos entretanto sobrepomos
Mordidos aos pés das mesas e nas carnes
Devoramos pesos e nos sentimos úteis e bons
Porque gozamos aos jorros
E copulamos necessidades racionais
Contínuas e macias como pétalas
Entre espinhos, betumes e cores

Em meio à miséria e à discórdia
Entendemos que o mundo
É apenas uma pausa ausente de casa
Agora e na hora da causa
Entre corredores e palhas
Agora colhendo flores
E na hora das bobagens acobertas
Rogamos aos misericordiosos deveres
Penitenciando-nos das imprevistas falas

Revigoram-se os desejos
Na hora e agora afinal
Exibimos a convenção das mazelas
Tudo é perfeito, inclusive as falhas
Das enormes e densas e espessas lacunas
Onde se enlevam as laureadas almas
Aos céus das desfeitas favelas
E nas quintas de nossas loucuras

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TERNURA

O poro abre
Eriça o pelo
Espreme o suor

A pele
Como se em gozo,
Insana, explodisse
Pelos raros pelos

Úmida alma
Na penugem enovela
Em dose única!

Unem-se os polos,
O sonho aquece
Sob a língua, passeia
E o desejo abraça

O cheiro exala
Abrasa a calma
A mama espuma
Onde o anjo esbanja

É esta a prece
Da terra quando seca
Sua chuva veste
E a ternura fala!

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A POESIA DAS IDADES

Cresci afiando o fio da navalha
Batendo na palha o aço bruto
De cabo de pedra no couro encerado
Os lados convexo e côncavo
A foice tangendo, umidificada
Para enfim com mãos suaves
Raspar os pelos das caras

Nasci desbastando cabelos
Sobre toalhas nos dorsos
Com pentes de osso em meio às falhas
Debulhando fios entre os dentes
Ouvindo os estrondos das mechas
No chão frio e sem graça
Remodelando os rostos

Segui perfumando faces
Desenhando cortes, alisando têmperas
Dissolvendo salientes penugens
Protuberantes bigodes
Renovando as expectativas
Reinventando os inefáveis anos
Desmontando que se pensa que o tempo pode

Brinquei assim por toda uma vida
Conspirando com atrozes vaidades
Deixando os espelhos mais belos
As ideias mais novas
Os sorrisos mais brandos
Os rostos mais leves talhando
Amiúde a poesia das idades

1 575

ATRÁS DAS PORTAS

Seria simples entender as dores
Armazenadas em pastas passadas
Na memória dos soldados
Que em repouso dormem

Lembranças que pesam seus tiros
Alardeados em forma de conceitos
Defendendo preceitos básicos
Junto às situações sempre amorfas

Parte da rua recolhe as armas
Outra revive suas histórias reunidas
Dispostas nos acervos e desacertos
Como varrer a sala, os cômodos

Sem desprezar a sujeira nos quintais
Os neurônios advogam sob a causa
Insistindo que felicidade é o cumprimento
Dos riscos das suas esperanças

Salve comigo homem da labuta
Compartilha manjares sem sofrer
Nas manhãs em que os sóis esquecem
Suas presas derretidas atrás das portas

1 538

MAIS UM DIA

Não fosse o contínuo dormir
(Essa pequena morte do sentido)
O nascer de mais um ciclo jamais seria assíduo

Ninguém despertaria do abraço inescapável do sono
Não mais teríamos onde fugir os excessos
Enfim antes não teríamos em vigília partido
Reparando tortos erros para nenhuma jornada
Afinal não se viveria
Pois o calendário de nada serviria
E medir o tempo que urge desnecessaria

Por isso o sol acorda
E enquanto surge nos desperta imperfeitos
Noutro dia
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VESTIDO

                 Paulo Sérgio Rosseto

Me leve pra passear
Sai por aí vestida de liberdade
Estarei leve sobre teus ombros
Suave roçando teu colo
Colado em teu dorso cheiroso
Solto sobre tua pele nua

Serei a roupa que quiseres
Da cor que teu tecido pedir
Luz no entorno dos seios
Cinza no balanço das pernas
Para que te sintas coberta
Inda que a libido se insinue

Estarás solta matreira linda
Dama mulher deusa
Dona de si recoberta de flores
E quando despida de mim
Amarrota-me num canto singelo
Que ficarei à espera
Pronto para novos passeios

@psrosseto

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RELÓGIO DE PAREDE

Ele enamorava os olhos da gente
Encantando as horas evasivas e cheias
Por cima das cabeças que entravam e saiam
Por vezes repletas e às vezes vazias

Fora o senhor do cansaço e da fome
Do quando vir ou ir embora
Dos acertos e atrasos
De todo espaço cravado ligeiro
Ou daquele que se demoraria

Traduzia em segundos o mundo que remexia
Dos passos que entravam
Da vida que seguia pelo portal aberto
Ou pela grade que prendia               

Agora dependurado
Deve estar deitado insignificante
Nalguma caixa vazia
No porão entre alicerces da torre
Desmedindo o mesmo tempo a que media
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Comentários (2)

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Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!