Lista de Poemas
INSTIGANTE
Em nenhum momento a ninguém
Não somos donos das coisas
Nada em absoluto nos pertence
Matéria alguma que nos seja dada
A define como nossa
Ainda que tomemos posse
Ou que ilusoriamente finja
Em algum momento nos pertencer
No entanto aprendemos
Que somente as verdades são próprias
E com elas os anseios
As certezas e as ilusões
Que nos alegram ou afligem
E dentre as coisas tão certas e vivas da alma
Está o veneno do pensamento instigante
Esse que nos faz crescer intimamente
Desvendar os mistérios e alimentar as paixões
Justamente pelo incessante desejo de viver
EQUILIBRIO
Por onde destemido passeio
Cruzando as linhas das fronteiras
Entre as tuas cordilheiras
Nas curvas destas estradas
Salpicadas de estrelas
Voando por sobre rodas
Rondando batendo asas
Pensando sentir teu cheiro
Banhando nas tuas fontes
Seguindo os teus conselhos
Teus pilares sustentam a ponte
Entre meu coração e a mente
Adornas minha morada
Meu peito é a tua casa
Teu lar os meus sentimentos
Da fé que me alimenta
Enfrento os meus tormentos
Sobre as aguas te equilibro
Sou o barco que te navega
A força que te carrega
O alento que nos conforma
Sou teu deus e semelhante
Envelhecemos nas mesmas horas
Num mesmo instante renascemos
Somos o tempo que nos transforma
INSIGNIFICANTE
Ou transparente
Depende da natureza do ser
Há quem transcende os limites
Outros ficam aquém
Interessante é que ninguém
Por assim ser ou ser assim
Se torne mais
Ou menos
Insignificante
Ainda que sugue a luz
Ou seja intensamente
Brilhante
Aos olhos do amor
Todos e tudo
É absoluto e importante
CONFISSÕES
De tocar nos teus cabelos
Roçar a boca em tua nuca
Sussurrando lentamente
Que tu és minha loucura
De fato tenho sede do teu beijo
Desejo de tua língua
Qual sabor de tua boca
Degustar tua saliva
Mordiscando os meus lábios
Quisera carinhar as tuas costas
Num abraço em que teus seios
Recostassem no meu peito
Onde as mãos despetalassem
Arrepios tão verdadeiros
Descobrir se entre as pernas
Há pelinhos tão macios
Quanto estes que margeiam
As curvas do teu pescoço
Bem juntinho das orelhas
Lamber logo acima dos joelhos
Por entre tuas firmes coxas
Entre os lábios marejados
Do visgo das profundezas
De desejos tão inchados
Ouvir estes teus loucos gemidos
E o pedido adocicado
Que complete nosso gozo
Por um instante ainda que seja
Sem limite e sem pecado
RABISCOS
O contorno liso do teu rosto
O esguio desenho do teu corpo
Oblíquos segmentos que aos poucos
Dão a dimensão da tua imagem
Viva e evidente na memória
Então essa transparente miragem
Procura esconderijo e calma
Aqui dentro de mim
Redimensiona e extasia
Condensa a saudade que aflora
Como misturasse arabescos traços
Borrando ariscos matizes
Em vãos rabiscos
E o coração em mil pedaços
SOBRE A FACE DELA
No salgado milagre da lágrima
Esse inusitado poder que tem o choro
Tão forte quanto um fio de cabelo
Algum verso perdido num livro fechado
Danificado por um temporal
Por nenhum olho conseguir enxerga-lo
Maturou num vinho velho
Tornou-se reservado e melhor
Choro que pede lembrança
Choro que de pura alegria
Completa os momentos bons
Pelas tristezas do mundo
Chora-se sempre e todo dia
Com a cara de assustada
Há ainda quem chore de rir
Das mazelas acontecidas
Intensamente pela terra
Eu choro porque à flor da pele
Qualquer sentimento arrepia
A lágrima pensa sobre a face dela
ESPERA
Para que outra nota o som suceda
Espera a próxima letra da palavra
Para que a frase se forme completa
Espera na largada da corrida
O início da chegada ao fim da jornada
Espera pela hora do descanso
Espera o ponto certo da comida
Espera terminar a noite que virá o dia
Para reformar a casa e retomar a lida
Espera terminar o monólogo e dialogue
Espera intuir as energias
Se precisar volte a religar ou desligue
Espera por maior alegria
Espera as estações cumprirem as sinas
Dos ciclos indizíveis sem lacunas
Espera baixarem as espumas
Decantarem os teores da calma ou da ira
Espera caminhando se preciso
Ou à sombra de um jardim à beira da janela
Aprenda e saiba esperar a espera
DA SUCESSÃO DOS DIAS
Quando aparentemente diz ir embora dormir
Finge pôr-se atrás do horizonte de cada um
Tingindo o céu de inacreditável dourado
Mas ah, não é ele quem se vai, eu quem fico
Sentado ao pé da cama contemplando
Esse paraíso nesse espetáculo particular
Inacreditável e absolutamente mágico
Seu eloquente abismo não é queda ou declínio
E sim unicamente do dia um louvável estagio
Que nos toma de lampejo, poesia e fascínio
Então se dá esse tempo de absoluta escuridão
Enquanto o planeta gira em seu eixo completo
Conduzindo-nos experientes para um novo clarão
CHORO
Acreditei que passaste solta na penumbra
Ganhando o vazio das solitárias ruas
Também vaguei por essas mesmas vias
Assim tentado a ir ao teu encontro
Já não estavas lá
Nem a tua voz nem teus olhos negros
Vencemos as distâncias
Mas a vida mais e mais nos distancia
Choramos sem ter nexo
Enfrentando complexos dilemas
Que nos desafiam
Choro em segredo mas sem medo
De chorar
Nos vemos ao menos
Nas instâncias inexatas da poesia
MINHA OUTRA PARTE
Ao sul
Pelo meio e pelos vértices
Onde os olhos descansam
Ou displicentes passeiam
Nas planícies montanhas e dunas
Embarcados nas escunas
Por mares navegantes
Antes ou após a tempestade
Sou besouro levado por correntes
Viajando sempre de oeste a leste
Ou por onde nasce o sol ao seu poente
Para onde sopra o terral
Com cheiro de alecrim e sal
Zunindo e temperando esse anil
Em volta dos seus cabelos
Que é pra ver se você olha pra mim
Tudo o que deixa de ser azul
Torna-me metade
Procurando em ti algo que
Complete minha outra parte
Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
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