Lista de Poemas
MEIAS
Caso ela viesse
Pudesse vir transparente
Despida sem estar nua
Desnuda e ainda assim trajada
Revestida porém descalça
Delineada envolta em neblina
Com a luz de uma estrela branca
Que chegasse acalorada com sede
Aveludada em fina névoa macia
Embrulhada e ao mesmo tempo solta
Suando e umedecendo a seda
Sem ser tecido nem renda
Arrepiada mas não de frio
Então ela me veio linda
Meio ousada meio ousadia
Vestindo meias por segunda pele
Exibindo escritos no alto da coxa
Tatuados os riscos desse poema
Cada verso lido desta poesia
MUNDO INCERTO
Achei que fosse somente poesia
Achei ter aprendido isso com o tempo
Nas andanças por caminhos longos e pertos:
Quando se acha, desvencilha.
Mas quem rechaça um coração depois que alucina
Depois que a alma afina as cordas
Pelo diapasão da rotina;
Quem persiste achando-se acima da grandeza
Da flor das paixões
Sem espinhar-se nos cactos dos desertos da bem querência?
Louvo então os acervos que o meu poema
Com sua aquiescência sobrepôs-se aos meus medos
E à graça em conceder-me confessar meus segredos
Contigo sou mais leve, mais humano e belo
Apesar das incertezas do universo
Mas que importam as avarezas desse mundo perverso e incerto
Se tu plenamente completas meu verso!
RECORRENTE
Pensamentos fartos
Férteis
Livres
Pertinentes
Estes que nos tomam
Fervem
Tremem
Inquietam sutilmente
Se soubesse
Não estaria entre a gente
Distante fazes falta
Tanto que choro de repente
E repentinamente também rio
Inconveniente
Como riem as pedras
Das cócegas que lhes fazem
As águas correntes
Recorrente vertigem
De estar tão perto
E ausente
DOÇURA
E eu apenas barco atracado
Já nem mais quase navio
Singrei outros mares
Em tua alva companhia
Enquanto na candura levavas-me
Pela rampa e pela fonte a passeio
Eu, velho lobo então cansado escafandro
Reavivei meus zelos
Em tua moça energia
Agora não importa mais
Nem parque, nem bosque
Nem porto e nem mar
Somente o êxtase do teu jardim
E a doçura do teu cais
CERTEZAS
Enquanto nos monastérios rezam breviários
O solitário poeta compõe piedosas poesias
Enquanto a vida acorda e se movimenta
Freneticamente para o lazer ou trabalho
O atabalhoado poeta traça desejosas poesias
Assim que o tempo passa e a fome sacia
O que as panelas fritam e assanham na fumaça
O abnegado poeta entorna insatisfeitas poesias
E à hora da sesta nas primeiras vibes da tarde
Enquanto alguns dormem e outros ao sol ardem
O ardiloso poeta escreve irrequietas poesias
Já no lusco-fusco do meio termo das horas
Quando as Marias avem declamando ladainhas
O descuidado poeta arquiteta saborosas poesias
Pelo final da noite no profundo da madrugada
Onde a cidade e rincões saciam as fantasias
O inebriado poeta desperta insones poesias
E desde a manhã cedo até o ocaso do dia
Pelo meio das certezas que a vida se apropria
Eu poeta fecundando orgasmos nasço tolas poesias
ALMA FEMININA
Minha alma acalma e canta
Porque eu todo ando encantado de você
Aos poucos vai despojando a soberba
Sentindo perder-se a evidente vaidade
Decantar todas as razões que fazem descrer
Eu rio como quem sorri um mar
Estrondo como faz o céu com seus trovões
E silencio igual ao beija-flor diante das pétalas
Essa feminina parte segue-me apropriada
Liberta os meus medos já toscos
Dissolve as lágrimas que me chovem
Acalmo pois diante de ti tudo se aclara
E por ser clara e calma e evidente encanta
Tanto que torna minha poesia rara
LENTAMENTE ME AMAS
Escolhemos a que nos torna onipresentes
Onde eu sou amor amando-me estás
Porque onde estás amando
Achas-me amante sem procuras
Ouço-te nos prováveis silêncios
Me encontras nas plausíveis loucuras
Estamos no cerne de todas as células
Nas gramáticas absurdas
Em todas as grafias
De todos os idiomas
Se perdida e cegamente a venero
Doce e lentamente me amas
ARDENTE
Olhos no chão
Os pés flutuam na solidão escura
Vontade de um banho quente
O corpo envolto pela toalha macia
Feito abraço no entorno da cintura
Há sede além do lábio e da mente
Da fervura do analgésico
Anestésico que não sossega nem cura
A noite carente perfuma fria
Toda espuma da cerveja
Se dissolvera
Pela garganta que chama o poeta ausente
Sozinha a chama contínua
Continua ardente
MINHA BOCA
Sem importar-se se o beijo sente a boca
Porque às vezes o alvo do beijo são os teus olhos
E por outras certezas a concha das orelhas
Tem momentos em que quer beijar-te as pernas
Outras vezes teus pés por sobre as meias
Às vezes contenta-se em beijar o verso das mãos
Outras necessita perder-se engolindo teus dedos
Minha boca pede beijo e beija e deixa louca
Tua nuca pescoço o dorso e as auréolas dos seios
Quando a língua chupa vigorosa teus lábios
Por entre as coxas onde alcança sorrateira
Minha boca pede beijo e rodeia e beija e passeia
Por onde sabe que você pede espera e anseia
INSTANTE
E os leio em êxtase ao imaginar-te
Assim enevoado pela arte
Sinto que me tomas docemente
Ainda que distante declamo-te
Descrevo-te inteira em cada verso
O verbo que da alma se reveste
Em teu atrevido purpuro instante
Atrevo-me assim a traduzir-te
Através do universo da estrofe
O que te alegra ou comove
Atenho-me ao que me contenta
Dedicar-te cada palavra que me surge
Para que nossa poesia nos renove
Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
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