Lista de Poemas
TATEAR
Que conduzem os dedos
Ou as mãos acostumadas sozinhas
Aos intensos dos carinhos caminheiras
Certo é que os tatos se desprendem
Despindo dos segredos
Por singelas ruas do corpo
Explorando seus caminhos
Olha as calejadas palmas desse peão
Tem a mesma ranhura do casco da boiada
A pele dura rude enrugada
Queimada no laço de sal
Do suor da tarde ensolarada
Essa mesma textura tem o coração
Cheio de saudade apertada
Compacta no peito
Enfurnada na alma
Feito bicho na toca dentro da agua
Rodeado de destino sem morada
Mas quando ama e trata o amor
Imaginando-me na penumbra enluarada
A minha mão meu bem cheia de viço
Tão nua e certa é a tua namorada
DESLUMBRE
Paulo Sérgio Rosseto
Quando duas línguas se tocam
O mundo de quem deseja o beijo
Torna-se oração perfeita
Sabores ardem sedentos
Nesse encontro de saliva e espasmos
Extraindo dos molhados lábios
Aceites inaudíveis das vozes dos hálitos
Da ternura única e efervescente
Todo perfume tateia o momento
Assistindo espargir pela sala do anseio
A dissimulada fome engolindo as palavras
Dado ser afoito intenso e místico
O espírito aguarda que o corpo entreveja
Pelos olhos fechados em êxtase
O deslumbre da língua quando beija
@psrosseto
A DOÇURA DA TUA VOZ
É feitiço colado em mim
Canção que tanto desejo
Tempestade em minha veia
Suor denso da libido
Vendaval de vermelha areia
Remoinho no deserto
Do coração em devaneio
Eu sou destemido andarilho
Incerto andejo sem eira
Sertanejo inseparável
Da seara do teu encanto
Matuto das velhas minas
Lavrador desse rochedo
Tangido na insistência
De colher esse teu beijo
A ternura fez de mim
Poliglota destas letras
Intérprete dos teus sonhos
Cancioneiro dos teus versos
Aprendi teu idioma
Falando em teus ouvidos
Decifrando teus anseios
E beijando a tua língua
Assim me tornei poeta
***Do Livro EM ESTADO DE POESIA - 1ª Ed. - 2019
FURTIVO
Delicadamente redondos assombreados
Prontos para o brilho e para o choro
De repente para a lástima do instante
Encharcados de fina lágrima
Lacrimejados de enciumada doçura
De repente para o riso delirante
Quando os lábios escancaram
Recolhem-se de extrema candura
Olhos soltos pelo rosto desenhados
Pousados sobre o fuso horizonte
Intensos abertos despertos calmos
Olhos teus por onde meu olhar resvala
Furtivamente rio despretensioso
Ousadamente tímido e de soslaio
***Do Livro EM ESTADO DE POESIA - 1ª Ed. - 2019
INCAUTO
Que jamais permita com teus poderes
Carcomer as pétalas das tuas flores
Depois fingir infinitamente apiedado
Chorar copioso as tuas dores
Deixar borrar os aventais de giz
Mofar os rituais dentro do peito
Decompor as ferramentas de aprendiz
Tornar impuras as brandas mãos
Obsoletas inférteis comprometidas
As ideias discorridas dos ideais
Por negar-me a mim diante do espelho
Trincado de ingratidão
CANTA
Quando não há fantasia
Vira roupa suja num canto
Brinquedo arrebentado de parque
Plataforma de embarque
Sabendo que ninguém vem
Linhas sobre dormentes sem trem
Vento que não mais areja
Fruto que não se deseja
O encanto sem poesia
Não subsiste nem tem memória
Seria um falso desejo
Que o próprio fato ignora
Triste de inveja esquecido
Ferida adormecida sem lógica
Ah mas o meu poema é esse canto
Encantado de azul esperando
A melodia nascida na doçura da tua voz
Por isso canta canta incansável
Canta com infinita ternura
Todo encanto que verseja em nós
***Do Livro EM ESTADO DE POESIA - 1ª Ed. - 2019***
SOZINHA
Onde desenho de manhazinha
Junto às desapegadas ondas
Meu caminho de areia molhada
Sentindo o vento inquieto sorrindo
Ziguezaguear em paralelo
Por entre as mechas do meu cabelo
E os pés mansamente lambidos
Entre os lábios da água morninha
Quando esse mistério natural se acende
É tão fácil contemplar no instante
O desafio tamanho de cada sede
Ainda que o mundo esteja opaco
A vida torna-se transparente
E todo sorriso mais instigante
À TUA ESPERA
Desmanchaste entre as cores delicadas
No meio do céu na boca da tarde
Então recolhi os pedaços de inverno
Que ainda restavam congelados
E fiz a minha própria primavera
Olha agora as viçosas pétalas como se espalham
Trazem elas a maciez da tua pele
O mesmo perfume que te enevoa
O mesmo sorriso que te revela
Florescem junto a esta saudade
Úmidas de encanto à tua espera
***Do Livro EM ESTADO DE POESIA - 1ª Ed. - 2019***
EVIDENCIA
Tua experiência de Deus
Preciso conceber a humildade
Tanto quanto a enxergo em tuas mãos
A forma de entender a benevolência
Idêntica à magnanimidade
Que se derrama das tuas ações
A expressão da caridade
Tal qual a que se transpõe
No sumo das tuas transigências
E a sobriedade em discernir
Naquilo que tua complacência evidencia
Que se empreenda a providência divina
Em cada raio que teu sol me irradia
***Do Livro EM ESTADO DE POESIA - 1ª Ed. - 2019***
ENAMORADA
Enquanto renasce o corpo
E quando fenece o físico
E o corpo se degringola
Para onde ela vai-se embora?
Há quem diga que paire
Outros dizem que se esvai
Pelos rumos do nada
Em que o vazio a atrai
De onde idêntica veio
Cumprindo sua jornada
No entanto eu creio
Que antes dessa morada
A minha alma inquilina
Em outra plataforma de vida
Era tua enamorada
Desde então desmedia as ausências
Desde então persistia sensata
Desde ali entendeu de anuências
Desde lá me amou tão menina
Que hoje dorme tão pequenina
Nos meus braços de poeta
***Do Livro EM ESTADO DE POESIA - 1ª Ed. - 2019***
Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
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