Escritas

Lista de Poemas

Haikai I

O câncer que me devora
Carcome aonde meu demônio mora.
As sobras anjos levarão embora

 

Peixes estirados na rede.
Se fora do rio padecem sede
Um copo d´agua lhes seria deleite



De verão em verão
Viver juntos simplesmente deveria
Avivar o coração

 

Todo avaro ri
Da festa que viraliza
A testa da avareza

 

Rezo o quanto posso
O terço que a natureza
Ora sobre meu berço

 

Se tem café pronto
Alguém colheu lá por trás
O fruto que a flor deu

 

Notícia boa
Purifica o coração
De qualquer pessoa

 

Calmaria no mar
Deveria também acalmar
Os anseios da proa
👁️ 232

HAIKAI II

SEGUNDA JUSTIÇA

Quando falta o senso
Apela-se absurdo
A qualquer instância



VIAGEM

Sob o sol galopa o vento.
Teu cabelo emaranhado
Pontuado de amarelo



TOQUE

 Novembro estaciona
Tão intimamente azul.
Intensa essa zona



OLHOS

Olhos pelo mar
- Nas profundezas ou à flor
Óleos por todo lugar!
👁️ 238

UM LEVE DESPERTAR

Mesmo antes de abrir os olhos ainda na cama, ouvi seu assobio. Inconfundível. Tentava ele, a todo custo, imitar os pássaros que ziguezagueavam serelepes pelos pés de laranja pertinho da janela do quarto, piando todas as felicidades possíveis dos primeiros raios do sol.
         E ficava naquela sucessão de silvos breves e longos, longos e intercalados, achando que estava sendo ouvido e mais que isso, compreendido e correspondido, interagindo como fazemos nós hoje nas mídias sociais, certamente imaginando-se em uma fazenda do interior paulista ou no topo de uma serra azulada repleta da fria neblina do lago nos meados de um mês de Abril.
         A princípio eu achava engraçado, depois, com o passar dos dias, essa singela graça tornara-se um pensamento interessante. Quase um século de vida para acabar assim, imitando passarinhos!
         Mas era o que se podia fazer. Nunca aprendeu a voar obviamente – coisa de nós, humanos, e com os passos agora atravancados e lerdos e os movimentos todos já bastante parcos, sobrava-lhe encher os pulmões dos frescos ares da matina e chilrear intensamente junto às aves.
         Todo aquele piado de sabiás e pardais somava-se à felicidade dele. Sim, o significado daquela barulheira nada mais seria senão o insigne sinal e a mais sublime forma de dizer: acordei feliz! Que mais importa ao mundo senão isso? Despertar assim é para poucos, afinal há quem nem se levante da cama, quem a muito custo mal abre os olhos, quem desperte sob  severos xingamentos, e quem apenas desperta insalubre como um pedaço de cana plantada na beirada do mar.
          Porem, hoje entendo que meu pai e os passarinhos tem muito em comum: são de livre pensar e donos do próprio mundo, inteligível para um poeta de boca torda que nunca nem mesmo soube assoviar.
👁️ 132

PIRATA

Arrebataria meu barco em alto mar
De encontro a um vagalhão inesperado

Alquebrada, a proa soçobraria a estibordo
E suas partes desencontrariam por esse velho casco

Assim esfacelando blocos inteiros
Afundariam docemente entre as salgadas lágrimas
De olhares brejeiros

Entenderíamos que a solidão do mar
Seria bem menor que a de não amar
E que a dor de amar nada seria
Ante a ávida gula desse voraz veleiro
Inundado de saudade navegada e navegante
Por um qualquer timoneiro
Apartado de ansiedade retida sem serventia

Quisera atirar nesse oceano toneladas de poemas
E vê-los manchando as encostas
Escritos nas areias meladas de poesia
👁️ 135

A BOCA E AS MÃOS

De repente minha boca anseia
Conversar com tua pele

Surfar pelo labirinto de poros
Entreabertos pelo desejo inerente
Desse preconizado diálogo

E tudo é tão raro belo e recíproco
Que todo o universo se cala
Enquanto nossos sonhos se buscam
E os úmidos lábios passeiam e se falam
Partícipes desse colosso mistério

Tão puro que é bom esse advinho
Sem limites de gemidos e sons
Insignes sedentos e prontos

Feitos do morango maduro entre os dentes
E uma taça cúmplice nas mãos lambidas
Lambuzadas do amor pelo vinho
👁️ 175

HUMANO AMOR

Do amor que te falo
Não é o infinito e sim
Esse que descuidado
Desmancha-se num grito
Desmesurado de dor

Não é o divino por não ser absoluto
Mas sim humano pois caso desvela
Gera desengano onde não caiba estar

Nem abstrato nem concreto
Por não ser secreto entre a gente
E estar ocluso por fina camada de cera

Esse feito de retalhos de pano
Que o tempo acostuma com a costura
E se não se atenta nem ciúma
Termina quando maltrata incontido ao passar

Do amor que te acho incomoda
Exige que provemos do amargo e o azedo faça acordar
Não por haver medo no amor
Mas que intimide e renasça e reacenda
Pela simples cisma de se vir deixar de amar
👁️ 322

UM POUCO MAIS DE HOJE

                Paulo Sérgio Rosseto

Ainda tem um pouco mais de hoje
Antes que a manhã volte e amanheça 

São as artes das horas ocultas
Que se mostram em partes

Assim se torna mais precioso o que se aprecia
Intenso e evidente seu claro
Mansa e macia essa espera arredia

E ainda que soubesse que partisse
Passaria a vida nessa plataforma imensa
Seguindo essa roda sem freio e sem guia
 
Contemplando-a por nada e não quisesse
Minha teimosa tolice insana e insistente 
A esperaria

@psrosseto

👁️ 147

PROCURA

Passo por tantas portas durante o dia
Entro e saio vou e venho nada me segura
De um cômodo a outro buscando o futuro

Penso que nada me surpreende
Porem insatisfeito com a estrutura
Desse indescritível labirinto
Reclamo tua ausência
A essa troça que arde o peito e angustia

Necessito-te ávido
Acima de todo escrúpulo
Desprendido de alicerces
Longe dos parâmetros
Apesar do acúmulo dissimulado
Dessa tosca aventura

Andarei a eternidade
Indecifrável à tua procura
👁️ 196

SEM NINGUÉM SABER

Não gosto de fazer poemas que remetam à morte
Porque detesto que os meus amigos lembrem-se
Que um dia também poderão morrer

Prefiro que cantem as melodias alegres
E leiam sobre amores e saboreiem as dádivas da vida

Instigo para que brindem as alegorias
Mergulhem na fantasia de que são todos eternos
Infinitamente abençoados pela eternidade
Em resposta ao zelo existente que para comigo têm

Os meus amigos e a fraterna amizade que nos convêm
Não tem tamanho nem cabem dentro de covas
Por isso jamais extirpa nem deteriora
 
E na minha hora em que sozinho eu partir
Sairei à francesa em silêncio enquanto festejam
Para que ninguém note a minha dor por ir sem querer

Partirei calado sem ninguém saber
👁️ 194

TEMPORAIS

Toda vez que perco o horizonte
Creio haver um mar a minha frente
Tão longe de mim equidistante
Como as rosas de um jardim
Ou uma nuvem passante
Que se desmancha insana
Por entre respingos de lama
Ou alvas fronhas de algodão

São aguas verdes revoltas
Remexidas pelos mesmos ventos
Que soltos conduzem minhas barcas
Serenas cada uma a seu porto
E as nuvens aos seus tantos
Destinos e encantos
Revestindo travesseiros
Sobre as camas da paixão

Todos esses travessos romances
Atravessam-me intensos
Ainda que de mim jamais saibam
Porque nunca mais retornam
Porque se tornarão propensos
A viajar outros céus e mares
Esculpindo suas torres imensas
Apesar dos temporais
👁️ 145

Comentários (2)

Iniciar sessão ToPostComment
ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!