Lista de Poemas
TRANSFIGURAR-SE
Ande tão disforme que precises
A sensação do apodrecer
Do definhar
Do inexistir
Do empobrecer a própria pele
Não finjas que a beleza está
Somente onde há luz iluminando-a
Nem mais sábio e leve sejas
Ao tentar omitir e ocultar de ti
Os sentidos dos teus próprios males
Apiede silenciosamente às tuas entranhas
As tuas dores
Para que vejas em outros olhos
Quando prazerosamente sorrirem fitando-te
Ainda que destemperados
Da vida todos os sabores
Santifique teu presente
Fartando-te das tuas verdades
INVOLUNTÁRIOS
Sair da rua
Cair no teu quintal
Enfrentar tuas sombras correndo atrás dos meus dilemas
Você também poderia
Vir agora em meu pomar
Trazer mais flores para o jardim
Recolher as roupas estendidas no varal ou despi-las
Poderíamos nos encontrar em qualquer um dos portões
Da minha casa ou da sua
Conversar pelo interfone
Dizer se chove ou faz frio se tem sol ou noite ou lua
Combinar um pernoite
Qualquer café num perfume
Mas continuamos involuntários
Certos de que as vontades passam
Bastando ignora-las como fazemos com as ousadias
Enquanto isso a noite morre o dia
O QUE DIGO QUE DIGO
São máximas ditas para que reflitas
E se acreditas também a outros repitas
Mas se não dizes e omites refletir
Como posso mais eu convencer-te
De que o que te é explícito ao ouvir-me
Deixa de estar nítido e implícito
E deverá servir-te e aos teus?
Confesso-te que se dissesses
Essas mesmas verdades nuas assim
Conhecendo-me como sei de mim
Por certo não te iria acreditar
Posto que duvidar é muito mais insano
Que qualquer outro item a crer
Mas ainda que apregoemos em vão
Sabemos que o mísero humano em cada um
Suplanta a imensidão no vazio
Ante a oculta face do infinito ao que é
A isto chamam verdades
Em nós denominamos fé
SUSTENTAÇÃO
Vou em voo em pleno movimento
Nessa indefinida avenida de vento
Com o dinheiro que não ganho
Não logro, adquiro, almejo ou possuo
Descontinuado do que apago e apego
Dos males que não causo
Descanso a consciência em descaso
Não me culpando por não lhes ser dono
Aos valores que me dizem amar-me
Desarmo e fraciono o querer de pronto
Repartindo a alma por resposta
Entre as dádivas que me cabem
Quito-as à medida que posso
Para que me saiam mais caras
Mas ao tempo que me resta
Que não sei ser longo ou mínimo
Silencia a morte minha orquestra
Que este incondicional amor me siga
Em sua interativa sustentação
Mas não me cegue
DESAFIO
Paulo Sérgio Rosseto
Percebe como a música é a mesma
Perfeita a melodia
Eterna porque encanta
Canta-a
Entoa
Mas também desconfia
Da tua fala incerta
Que tua voz não mais acerta alguns acordes
Que tuas cordas não vibram como deveriam
Que teu sopro antes tão forte quase não assobia
Que teu peito não vibra apenas chia
Que tua memoria esquece o refrão
Que os ouvidos apagam esse teu som
Que viver é esse perpétuo desafio
@psrosseto
NENHUM
Nem é imenso nem inquebrantável
A ponto de vergar junto às palmeiras ao vento
Nem denso posto que passa
Ao menor sorriso que se assemelha
Esse excedente que por vezes me toma
Jamais fora suficiente para dilacerar as entranhas
Pois fosse medir pela quantidade de areia seria uma praia
Se pela aridez do sol seria o ápice da luz
E se pelo frio da noite talvez um oásis de frescor
Esse recolhido personagem é mais grato que triste
Infinitamente mais humano que ateu
E prova sabores ainda que esses sabores
Se estranhem no profundo amargor da mente
Tento aprender a cada dia a ser bom –
Não preciso ser melhor
E dentro dessa mínima bondade
Ensino a ser intenso mesmo sendo nenhum
A vida é feita sobre a soma de palavras
Igualzinho a um poema
Mesmo muito breve
OBSCURO
Porque a luz do sol ao fundo ali congela
Escura também é uma face da lua amarela
Escuro o firmamento
Escuro o ventre onde não lembramos ter estado
Escurecida a noite indecisa de olhos fechados
Imprecisas vão às cegas germinar o sono escorraçadas
No seio das covas preservando o sonho das raízes nas sementes
Iluminamos a banda escura da terra
No fogo das ideias descansamos as lanternas
Incineramos o desejo ardente pelo nascer fugidio da morte
Mas o mundo debela cruel diariamente apesar da fé
O clarear solitário do obscuro lado grotesco da gente
POÉTICOS
Paulo Sérgio Rosseto
A minha boca
É um velho copo pedindo água
Para um lodoso pote pela metade
De um surrado corpo cheio de sede
Tua generosidade
Oferta-me em taça de cristal fino
O verde extrato das uvas raras
Jovial chianti servido em jarras
Inebriante néctar divino
Somos o contraponto
Entre o ébrio e o equilíbrio
Líquidos porém éticos
Herméticos ainda que sóbrios
Absolutamente líricos
Hoje também é dia de vinho
@psrosseto
@taperapua_editora
ITINERÁRIOS
Alguns caminhos já percorridos
Deixo-os dobrados, organizados
Dentro de envelopes recolhidos
E quando os quero refaze-los
Desdobro-os e volto a seguir
Pelos mesmos itinerários
A cada reinicio de caminhada
Percebo tacitamente
Como os meus pés tornaram-se íntimos
De certos chãos das estradas
Pois foi andando de ida ou retorno
Que recolhi essa identidade
Pisando por solos estranhos
Passando refém pelos sonhos
Incólume às agruras do nada
Dentro destas gavetas de curvas
Retas, ladeiras e revezes
Tantas vezes apreendi minha sorte
Questionando os rumos vorazes
Que me tangeram de um lado a outro
Levado por certos mandos
Enfim percebo já um tanto abastado
Que o prêmio muito além da procura
Em cada trilha foi haver te encontrado
HAIKAI III
DISTANTE
Metade de mim
Falta-me por inteira
Se você não vem
SEM CONTEXTO
Não ler teu riso
Seria estar ensimesmado
Fora de um livro
AUSTERA
O espetáculo
Jamais tira o brilho da rosa.
Ela é quem chama
LIBERDADE
Abro a janela.
Amo enxergar as cores
Nos olhos dela
Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
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