Lista de Poemas
ENTRE LETRAS
A exegese da verve como indumento
Arauta semântica de doce papila
Analise portanto as tuas sentenças
Cada qual carrega a necessidade da crença
O objeto da justa balança
A audácia da reza
A peleja da avença
Palavra alguma se desgasta por má influência
Nem degenera por desuso ou excesso em usa-la
Ainda que represente ou signifique
Sinônimo de síntese em insistentes sentimentos
Instigue o que te fora dito mesmo silenciosamente
Amigo, ame tanto a língua quanto a pátria tua
Suficiente que jamais baste
Para que satisfaça e não enjoe
Renasça sem que desmanche
Revigore sem que vicie
E te fale sem que aquebrante os significados
De qualquer suspeita de pensamento em contrição
Ainda que falho todo texto atesta e santifica
Pelos ensaios, as causas, entre letras e tons
Calar-se é prudência, a palavra é dom
BREVE
Boa parte das pálpebras se abre com o sol
Desperta mesmo quem mantem cerradas as janelas
São os compromissos do organismo
Em naturalmente recompor movimentos
Sair do mérito horizontal
Encarar de olhos abertos as luzes do mundo
Eu ainda no breu do ventre
Piso o chão à espera do dia
Não por temer que não venha ou clareie
E sim por reconhecer
Que adentre meu vagabundo sonho
Acostume complacente descompor-se em endemia
E me fazer dormir eternamente
Nesse dia leve
Nada de mim mais restará poemas
Unicamente a fantasia de que fora um sono breve
CONSTÂNCIA
Não se topam infinitos
Fazem curvas entre matas
Ah! contornam pelas pedras
Circundam barrancas
Às vezes tornam-se menos nítidos
Mas não sei se mais rasos ou profundos
Mansos e bonitos e disciplinados
E se acabam assoreados
Ou no colo de outras águas
Às margens em voltas e vindas
Alguns rechaçam
Aquele necessário momento de introspecção
E trocam a correnteza da foz
Por passeios na praça
Derramam-se entre as ruas
Espreguiçam rebeldes nos quintais
Até invadem casas
Encharcam fogões e camas
Depois dormem enlameados
Da fúria represa de suas mágoas
O bote de minha vida segue seu curso
Apesar da inconstância e dos temporais
Eu é quem não sei ser sereno
Abrupto riacho e tão pequeno
TREM DAS ALMAS
Desde a tenra juventude até poucos dias
Seguirem calcadas nos mesmos dormentes
Longitudinais estendidos mundo afora
Cada parada e partida ao longo das estações
Transpunham os embates das aragens
E tornavam-se inesperados passageiros
Repletos de encantadas aventuras
As torrentes de soslaios, no entanto
Descolaram as madeiras desses solos
Desunindo no entrelaço o aço dos trilhos
Desde esse dia todo amor desavisado
Que assusta, desviaja e nem desafia
Fechando as paralelas, descarrila
COSTUMES
Reconforta esse peito descuidado
Aproxima-te da minha terra impura
Revive meu jardim já desbotado
Tomando aflições por bons costumes
Somos parte intrínseca que partilha e ama
Sentimentos diversos sob efeitos divergentes
- Se tua luz me aclara minha lua te chama
Todo o todo em nós é pragmático infinito
Universo muito aquém de simples mundos
Descabendo as retrações dos próprios polos
Há quem denomine ilógico destino
A teimosia eclodir densa ternura
Das nossas unhas roçando os mesmos poros
SIGNIFICADOS
Meia porção de poema ainda que breve
Descreve infindos predicados
Para quem o ame ou despreze
Mesmo que esdruxulo ou sereno
Severo ou eterno como um brilho no infinito
Por isso todo verso
Ainda que no apelo do amor farfalhe
Sempre é bonito em qualquer idioma
Se consegue dos sentidos avizinhar-se
Pela emoção de quem o separe
Independente de quem lhe reserve
Ao poeta apenas cabe o exercício da escrita
Nos poros da alma suada
De alguém que o leia ou declame
AUSÊNCIAS
Presente quando pude
Isto significa ao certo
Um considerável percentual
De ausências
Pois mesmo presente estando
Em até não podendo estar
Foi como estivesse
Estado semi-ausente
Porem uma vez estado onde nem fui
Fora plenamente
Estou agora revendo possibilidades
Em ir ou não novamente
Caso permita irem
Essas ambíguas partes pertinentes
A que possivelmente não vai
Junto à que pretende
Continuarei onde estou
Às vezes ido inteiro
Outras reticente
SEDE
O líquido que se desmancha em porção necessária
Anda pelo interno do copo aparentemente lerdo e lento
Por demais devagar e manso abrasa estar cheio
Tanto que a língua cansa dessa espera e ainda mais amarga
Arde no sal da saliva rala parecendo lágrima
Impaciente na garganta molhando o esôfago do sedento
E suado corpo que chora e implora e deseja a benfazeja
Gota que ao longe calmamente orgulhosa sai pelo olho
No cristal do vidro transparente e olha e aguarda o momento
De ser imediatamente sorvida junto às tantas outras moléculas de agua
Também minha boca tem essa mesma precisão quando anseia seu beijo
E qualquer virgula que se interponha entre essa vontade e o desejo
Torna-se mais insensata que o tempo do mais sutil e absurdo pensamento
Como se o ardor do carinho e o amor não fossem os mesmos enigmáticos
E não ocupassem céleres um único espaço dentro de um jarro com gelo
Esperando ser um gole de agua de um copo escolhido a esmo
Idêntica reciprocidade de alguém também por ti sedento
INQUIETO
Disciplinadas que vem e se perdem
Não se ocupam de outro afazer
Senão sucederem-se intermináveis
Independente das marés
Somente cumprem vontades dos ventos
Ou então de seus pequenos mares
Pergunto-me por onde andam os propósitos
Que tantas e tantas vezes rogado jurei
Passaram enfurnados pela mesma janela azul
Por dias enfileirando essas horas cruas
Repletos de tanta poesia explicando as agruras
Correntes vermelhas internas em mim.
Presos à pele por dentro dos vasos e veias
Entrevendo diferenças entre espirito e matéria.
Tão vulnerável, leviana e desconexa
É minha alma concreta fatiando mantas nas carnes
Penduradas sobrepostas sobre mantos de areia
Podre é o submundo do mundo que julga
O improprio preconceito de todo azedo
Recolhido para investigativas biopsias
Analisadas pelas lentes toscas da miopia
Que assolam a criação dos conceitos
Preconizados robotizantes me guiando
Para onde não fossem meus versos jamais saberia.
O fim que me espera nos braços da determinação
É o que me sustenta inquieto sobre a terra
UMA SÓ LETRA
Exaltam sorrideiros pensamentos
Branqueiam o alvejado esmalte
Enquanto mordem a carne dos lábios
Emolduram os dentes
Refinam o hálito prazerosamente
Mastigam, deglutem, engolem, ruminam
Cospem ou vomitam toda verborreia excedente
As boas palavras escovam amigdalas e vísceras
Lapidam a língua, burilam vocábulos, babam sílabas
Separam, pontuam, pausam ou encerram contendas
Afetas a qualquer diálogo contundente
Descongelam a mente e plantam saborosas pronúncias
Docemente salivam e irrigam e enlevam a verve da gente
As boas palavras harmonizam o silêncio e o discurso
De quem fala, de quem ouve, descreve e as soletra
As semeia e as escreve peregrinas, fortes e singelas
A quem se atreve a dize-las ou busca-las certas
Sapientíssimas e perpétuas ainda que ditas erroneamente
Sem que se proclame, perceba ou se ouça
De si mesmas sequer uma só letra
Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
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