Lista de Poemas
CAMINHOS
Que a madrugada me traduz nos carinhos da arrebentação
E o pensamento me salga o sono de alga e areia
Depois quando nasce a luz na leveza do dia
Os sonhos fazem tanto alvoroço entorno das coisas
Que até os caminhos aquietam para ouvir a sinfonia
Quanta certeza teria eu para estar aqui
Pareço um enorme rio que repousa em seu leito
Afagando um afluente recém chegado a seu ninho
Mas sou inconstante como plumas ao vento
Mergulho e desassossego do sono profundo
E voo pelo mar afoito sem qualquer apego
Levando-te nas asas pelo gosto de andar sozinho
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O HÁBITO DA ESCRITA
Sempre tive esse mesmo problema ao saber que devia sair de casa para um passeio ou nova viagem qualquer. O que levar, para quantos dias, como estará o tempo, quem irá comigo ou encontrarei, e o que fazer.
Essa expectativa é quem sempre remexe as emoções. Porem depois que se ganha estrada e velocidade, o traslado se torna felicidade, e aí é aproveitar o deleite e toda a magia que a escrita impõe. Porque após quilômetros, parágrafos ou estrofes e frases, reler e dar-se à leitura é a mais prazerosa das conquistas. Veja você, então, como nascem os textos, por mais simples que venham a ser, mas na mais pura das vontades e intenções.
Quando ainda criança, o maior conforto que recebia antes da partida, eram os olhos de minha mãe vigiando as minhas tralhas. Seu olhar me acompanhava por todo o trajeto. Aquelas pupilas cabiam certas cuidadosamente dentro das minhas malas, e preenchiam todos os cantinhos. E até hoje tem o peso exato do que minhas forças suportam carregar.
Por isso sempre achei oportuno e necessário fazer de cada paragrafo uma necessidade particular. Assim, tanto estou pronto para um novo destino como para outra redação, desde que me permita voar.
Foi assim que conheci o mundo e passei a criar as minhas próprias historias. E é assim que arranco de mim as mais doces emoções que a arte propicia, sem sequer sair do lugar.
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ESPELHO
Vãs tentativas desconexas
Fizeram o planeta sentir a perversidade
De tanta gente errônea desenformar a terra
Agora de conversa em conversa
Tentam reestruturá-la porque a visão é outra
Mas o homem reflete essa desestrutura
E se enquadra e depara sem argumentos
Com a própria cara fora do espelho
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DEUS TRISTE
Que ao mesmo tempo em que clama por piedade
Faz da liberdade um descalabro homicida
Ele persiste em contemplar os desacertos de seu povo
E chora aflito em cada alma que perde o corpo à morte
A cada alma que a morte leva sórdida a vida
Desta vez não teve animo para abandonar o tumulo
Não ressuscitou – preferiu estar dentre os abatidos
Quedou-se deprimido ante tanta aflição
Deus triste permanece deitado recolhido em seu nicho
Pasmo sem ação ante a feracidade dos ladrões e algozes
Que desmantelam os princípios básicos do viver
Deveria estar feliz por receber essa urbe em seu reino
Mas não faz sentido tanta gente ao mesmo tempo fenecer
Deus chora triste e solitário - por mim e por você
RESSURREIÇÃO
A minha permanecerá
Não irei a lugares
Nem subirei patamares
Estarei retilíneo sepulto com meu corpo
Onde dele dependo para viver a mostra do que penso
Dormirei por séculos entre os pecados cometidos
E os deslizes perdoados pela mera bondade do acaso
Assim sobreviverei atemporal ainda que a carne debulhe
Mesmo que esfarinhem os ossos
Sobreviverei porque o íntimo permanecerá
Desde que tua generosidade
Comigo se apense e a piedade partilhe
Onde os nomes descansam dado o privilégio de amar
Mas ao raiar do décimo milênio despertarei
E ai quem sabe poderei por fim descansar
LÁBIOS
O sopro no vento
A onda no mar
Um voa meus sonhos
Outro afaga os ais
E todos se encontram
Num único porto
No limbo dos dentes
Nem longe nem perto
No abismo do olfato
Batendo nas bordas
Onde os lábios margeiam
E a úmida língua
Bailando na boca sentindo sabores
Sacia a alma
Alimenta o corpo
Respira em poesia
Inspira depois
Acaricia
Repousa
E a alma desposa-me
O SANTO TORRÃO
Pois nenhum palmo desse abençoado solo sequer me pertence
Não se lavrou em meu nome nenhuma escritura pública
Em que me ateste a posse de qualquer morada ou cerca
Não grilei gleba alguma no radar da noite nem a herdei
E nem de ti o mundo tomei para que desolasses sem chão
Plantei sim árvores inúmeras nas beiras das plagas
Semeei o verde ainda que tuas mãos devastassem as eiras
Ajudei-te a recolher os grãos e preservei tuas sombras
Transmutando as poças em riachos viçosos diversos
Que seguem o curso no entorno da orla de versos
Juntando as fronteiras longínquas desta nação
Sou eu agente dessa massa que se orgulha e se ampara
Se te envergonhas não seja de mim ou da raça
E sim da oculta imagem que te reflete o espelho
Pois a terra que é tua é o lugar que me abraça
Ainda que seja eu indigente e não comungue dessa hóstia
Prossigo forte país feliz altaneiro – sou eu povo tua pátria
LÁBIOS
O sopro no vento
A onda no mar
Um voa meus sonhos
Outro afaga os ais
E todos se encontram
Num único porto
No limbo dos dentes
Nem longe nem perto
No abismo do olfato
Batendo nas bordas
Onde os lábios margeiam
E a úmida língua
Bailando na boca sentindo sabores
Sacia a alma
Alimenta o corpo
Respira em poesia
Inspira depois
Acaricia
Repousa
E a alma desposa-me
SOBRE AS CAMAS
Estica o varal até a altura do sol
Para que o lençol seque e quare
Um pouco mais alvo debaixo do céu
Permanecendo hasteado no alto do pau
Livra os arrastos da límpida barra no chão
E preserva o mundo exposto de cada um
A moça contempla o acinte do vento que acorda
Esvoaça o tecido e embandeira o quintal
Então penso que todos os dias lavam-se roupas
Onde se apagam os rastos deixados de suor e amores
Apenas para estender as cores e enfeitar o portal
Por onde transitam prazeres e dores
Vestígios dos nossos sonhos e dramas
O mundo é esse circo irreal
Enquanto descortina o próximo segundo
Achamos que o envelhecer amarrota as camas
Mas na verdade revive as fibras e o ideal
E renovam-se os panos enviesados
Enternecidos por vivas chamas
INDIGENTE
Pois nenhum palmo desse abençoado solo sequer me pertence
Não se lavrou em meu nome nenhuma escritura pública
Em que me ateste a posse de qualquer morada ou cerca
Não grilei gleba alguma no radar da noite nem a herdei
E nem de ti o mundo tomei para que desolasses sem chão
Plantei sim árvores inúmeras nas beiras das plagas
Semeei o verde ainda que tuas mãos devastassem as eiras
Ajudei-te a recolher os grãos e preservei tuas sombras
Transmutando as poças em riachos viçosos diversos
Que seguem o curso no entorno da orla de versos
Juntando as fronteiras longínquas desta nação
Sou eu agente dessa massa que se orgulha e se ampara
Se te envergonhas não seja de mim ou da raça
E sim da oculta imagem que te reflete no espelho
Pois a terra que é tua é o lugar que me abraça
Ainda que seja eu indigente e não comungue dessa hóstia
Prossigo forte país feliz altaneiro – sou o povo tua pátria
Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
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