Lista de Poemas
O CASCO DESSE NAVIO
Que a mesma vela que nos levará para outra quimera
Navegasse sob a intensa luz de um só pavio
Esperando derreter a cera sob um sol de primavera
Imerso nas aguas de qualquer um lago
Por onde deslizasse o grosso casco desse navio
Seguíssemos talvez
Ainda que seguidas vezes diluídos em rios
Ao invés de consumirmos em cinzas nossos pedaços
Soldássemos as fendas desse calado
Equilibrando o corpo à sombra do círio
Revestíssemos de coragem abóboda e lastro
E simplesmente de novo partisse
E se lá na frente assoreasse
Ou se tombasse o mastro sobre delírios toscos
Enxergássemos ainda que febris desastres
Por vieses e enroscos
A fugaz serenidade face a face
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ENQUANTO EU IA
Aprendi desde cedo a sair
Doía mas o clamor do destino me aquecia a ida
Via num lampejo
Os rios que riscavam os rostos
Dos que ainda assim me vendo ir sorriam
As lágrimas se desenhavam em curvas e retas
Das estradas que eu seguia
Procuravam os próprios espaços
Escorriam e pingavam de saudade dos idos
Seguia o contrassenso que me esperava
Aguardava-me a sequência dos dias
Então me confortava de que a qualquer tempo viria
Hoje por fim permaneço
Já não saio porque os caminhos não me cabem
Tenho agora o mesmo clamor de vazio entre os dedos
Que tremiam nas mãos dos que ficavam
Enquanto eu ia
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COSTURAS
Os rastros e trilhas da linha no pano
A agulha apenas perfura e cirze
Quem borda são os olhos
Quem cinge seus sonhos
Quem dobra é seu tempo
Que apara os seus desejos
Desdenhando a costura
Essa moça faz do tecido sua alma acesa
Que despe o que precisa e mostra o que a esconde
Onde somente a imagem alinhava a emenda
E cola uniforme as cores sobre a pele
Ilumina-se do brilho da seda no corpo
Como a sede sacia o lábio pelo copo
Assim a moça traja o que ela mesma tece
Enquanto desnuda qualquer aceno em silêncio
Como um furo ao pano que espera o fio
Da linha profana que o perfure e cose
Essa túnica de versos
Que se transmuta em veste
Reveste recobre e deixa toda palavra vaga
E a minha alma muda
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FINGE
Omitir um brilho no olhar
Dissimular se fizer menos sofrer
Olha a abelha comumente nas auréolas da flor
Esvoaça, faz zumbido com as asas
Tão leviana e causa medo às nossas orelhas
Ouça o pio da coruja no breu
Traz o pecado arteiro das fibras
E acreditamos venha ser o presságio no cio
Morda o caqui e vê como amarra
Adormecida língua lambendo o lábio
Que somente arrepia por estar verde
Cheira a translucida escama do peixe
Que se deixa fisgar pela gula esguia
Da farta e arisca suicida isca
Tateia, passa as mãos pelas costas
De cada uma das estrelas tortas
Com a intensa luminosa saciedade falsa da lua
Mente, pode não ser tão ruim fingir piedade
Quando corre o espírito desconfiado da hora
Propícia de sair ao encalço das certezas
De que tudo nasce e pela mesma porta morre
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O OUTRO
Nada fora desperdiçado
Até mesmo as sombras recolhidas e armazenadas
Para serem usadas como lembranças de luz
Guardados também as peles trocadas
Os dentes de leite e os podres
As unhas cortadas, cutículas
Os pelos, os cílios, as lágrimas rizadas
Os calos, as cáries, suores
Caspas, acnes, espirros, tosses, odores
As dores, pesares, e o gozo nos prazeres
Tudo ficará assim vestido de poeira
Por questões dispostas na caixa de digitais
A infância que se fora, juventude
O que assoprei ou me assombrou
Só restarei maduro onde houver o outro
Porque ali sempre haverá respostas
As coisas mais insignificantes
Usará como vestígios de mim
Ele, o tempo, é tudo que soçobra
Ou o resumo que ressurge do que me sobra
Enquanto ainda penso que virá
Bem sabe que passei
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PRANTO
Desespero de semente
Quando não consegue parir
O fruto, a flor, a muda
Romper-se, explodir, nascer
Pensar em ser fértil, planta
Encantar-se do porvir
Negro desespero
Claro desencontro
No íntimo trazemos todos
Esse desafio em ser próximos
Prósperos de felicidade vasta
E deixar tudo pronto para o outro
Quando os anos pelo tempo
Sejam ásperos pela pressa
Infinita que não sacia nem nos basta
Ainda que os apelos e os dias
Brandos de nós nos façam outros
Rompemos aos gritos o esforço
Em fazer do choro um ligeiro dilema
E do riso um cruel compromisso
Pois nem sempre é possível ser dóceis
E às vezes necessários difíceis
Em soluço ou aos prantos
A vida só nos quer ávidos no esboço
Do viço de ser simples para ser plena
Sem a indumentária áurea de ser santos
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XADREZ
Paulo Sérgio Rosseto
Cada peça na avenida
Trafega no entorno da casa
Umas na volta
Outras de ida
Forçando a estratégia
Nem sempre tomba a mais frágil
E sim a mais distraída
A torre queda sobre a asa
Do casco do absorto cavalo
Cujo peão apeara
Para uma prosa com o bispo
Metido a ser soberano
No reinado do engano
Onde o tudo acontecia
Sob o nariz da rainha
Que temia o oponente
Mas desprezava seu reino
Usurpando rei e súditos
Deliberando sozinha
O logro é essa disputa
Entre servos e servidos
Na hora ensimesmada
Da labuta atrevida
Luta-se a todo custo
Pelo cego custo do espaço
Nesse tabuleiro molhado
Feito de suor e lágrima
Sobra de luz no ocaso
Sombra do corpo no opaco
Vence quem tem melhor tino
Suporta quem tem melhor casco
Assim refaz-se o jogo
E assim renova-se a vida
E eu me fazendo de sonso
Ziguezagueio entre todos
Empurrando com a barriga
@psrosseto
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ZURRAR
Que pudemos entender a fala dos dragões
Tão altos gritos dissimulados
Que os ventos ignoraram os uivos
Tão raros brados improducentes
Que as bocas preferiram calar-se
Ouvindo a TV zurrar sobre o armário
Assim a maré se aquietou
E pudemos discernir a similaridade
Entre o zunido da cidade grande
De cada homem atribulado
Ao silêncio de um peixe sem oxigênio
Afogando num canto do próprio aquário
Ali do lado
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ZEN
Risos que acalmam as líricas falas que silenciosas
Tua desprendida alma e os sentidos aclaram
Advento, novidade de bem
Mágico poema que reacende a procura pelo mistério
De estar entre as vias que te arremedam seguras
Nesta cegueira que me segue involuntária
Enxergar-te é uma conquista
Desvendar-te aventura
Busco na figura do teu jeito zen
Confortáveis instrumentos onde a nudez da minha ânsia
E o encantamento da tua luz se acomodem
Mas ah, tola fantasia de assim entre olhares e vieses estar
Tudo é tão simples, livre e de invejável nitidez como se dissesses
Calma, felicidade é só um fim de tarde olhando o mar
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ZARPAR
Vamos para o oceano
Passear no meio das águas
Salgar o lábio, os olhos, a pele
Surfar por entre velas
Veleiros, caravelas, saveiros
E os demais abcessos que a onda apara
Vamos
Vem ensinar a vida marinha
A fugir da linha, ignorar a isca
Esconder da armadilha do pescador
Discernir a evidência arisca do absurdo
Avivar a expectativa que se apresta
Em não frustrar-se por não pescar
Para que haja fartura e não apenas fomento
Exista salvaguarda e não somente caos
Consciência quando enxergar que desperdiço
Expectativa para alguma manhã futura menos densa
Sigamos o barco
Copiosos de esperança
De que algo irá mudar
Nem só o homem tem direito ao alimento e à vida
Vive-se muito bem no interior do mar
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Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
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