Escritas

Lista de Poemas

LEVANTE

            Paulo Sérgio Rosseto

Se tua arma mata
Talvez tua alma esteja morta
E nada mais importa

Nem a vida abala
Nem mesmo a bala da arma que atinge
Qualquer figura intacta

Beirando a morte
Mate – eis o mote
Avante! brada o bravo comandante

Depois alguém despetalará flores
Rosas pelas mesmas ignóbeis mãos
Em algum túmulo simbólico ornarão tuas dores

A ao menos um ignorado do front
Bandido ou soldado morto nalgum levante
Hão de lembrar-te

@psrosseto
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POEMA RESSENTIDO

Após sete dias de árdua guerra
Ou invasão de um País encravado nalgum lugar do globo
Faz silêncio total de quem por si só
Evocaria e apregoa liberdade igualdade fraternidade
E outras tríades diversas – ainda que não fosse nesta mesma ordem

Nada!

Ninguém se pronuncia
Não questiona
Ninguém faz uma nota de repúdio ao terror ao horror aos sofrimentos da terra
Não se comovem não se posicionam...
Continua tudo irrelevante como qualquer outro fim de carnaval
Quando a ressaca sobrepõe-se a toda e qualquer ideia
Ainda que mais tosca depois da folia

Mas afinal ainda não é nem meia noite nem meio dia

Ainda!
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APELO

Cerro os olhos
Aspiro todo o frescor da brisa
Então displicente respiro
Sinto teu hálito vívido pela sala
Teu cheiro a perfumar a noite
Ânsia minha que precisa imaginar-te

Manda teus olhos nalgum sopro
Teus lábios por uma nuvem
Tua voz em única frase
Que acolherei teu riso leve
Junto a qualquer bobagem que perpasse
Por um pensamento breve

Vê que teu poeta apela
Porque tudo de ti me inspira
E apesar desse atrevimento desconexo
Te revido mil poemas
De alguma forma dizendo
Da tua cumplicidade clara
Que ouvistes meu apelo


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O TEMPO QUE DURAR

Frágeis corpos envoltos por membranas
Películas
Pelancas
Em tudo há pele e casca
A capa da casa são paredes
Um muro o couro cabeludo delimitando o quintal
Somos sementes da fruta além da carne intacta
Em volta há pelos
Fina relva de erva doce e suor de sal
Leves formas de areia

Vez em quando é preciso arrancar tijolos
Fazer buracos apesar das portas e janelas
Furar a veia
Buscar
Mesmo que dure o quanto sangre
E se saiba olhar no olho e ouvir
O que o amanhã tem a dizer
Até que o tempo pare de escorrer
Ainda que doa o tempo que durar



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ARROUBOS

A saudade é feita de arroubos
Rouba o silêncio do espírito
Enquanto extasia a alma
Arromba e silencia estranhos sentimentos

Estranha-se com os próprios tormentos
Atormenta as entranhas e aflora
Torna de si mesma companheira

Minha saudade brinca num pátio imenso
De esconder-se entre a hora falsa e a derradeira
E retorna-me num feliz menino arteiro
Lambuzando as mãos na hora do recreio


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O QUERER BEM

Aprende-se a gostar
A sentir saudades

Se os dedos pedem
Ainda que os olhos privem
Dá-se o merecido prazer
De enxergar o que está além
Da capacidade remota de ver

Dá-lhes possibilidades
De superar o que esteve aquém
Da própria vontade

Vale imaginar
De quão bom e suave
É o querer bem



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CONTINUAMOS

Sinuosas nuvens pairam vagas
Sobre dunas desertas entre céus e mares
Intensas ondas remontam a esfera
Revolvem tudo o que navega
Entre fossos de rochas e areias
À mercê do vento que apela às folhas e reverbera
Nos seus devaneios nos derredores

Invejosos de vontades alheias
Águas sonham ser gelo
Neve pensa derreter-se
Ao não suportar o próprio apelo
Que o cálido sol leva-as ao desespero

Enquanto o ardor assoprar calores
O coração expulsa o ventre
Um tanto o sangue repulsa
Outra porção tripudia e pulsa entre

Mas o meu irreverente sopro valsa
Porque se o tempo acaba as vísceras
O pensamento renasce e perpetua esperas
Esse não passa

O amor refará a baila dos oceanos
E sinto que nas severas tempestades
Há o acalanto
Ainda que se vão os dias
Encerram-se em mim os anos

Se a isto assistindo até então não morro
Natureza e eu resistimos
Ainda que breves continuamos


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ANSIOSA

Fosse eu um vento arteiro
Remexia os teus cabelos
Esvoaçava teu vestido rosa

Fosse então ansiosa pétala
Perfumava-me em teu largo sorriso
Dessa flor que te põe cheirosa

Fosse simples gota da água
Inundávamos os jardins soltos
De felicidade imensa e calmaria

Fosse uma canção singela
Por tua voz suave e única viria
Embalar a tudo de amor constante

Fosse um beija-flor ligeiro
Sugaria destes úmidos instantes
Tudo o que faz ser singular

Que nos veem além dos olhos
Submersos rios distantes
Represando o ardor do mar

E porque a hora é sonho
Deito-me com meus poemas
Enamorando-te agora

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TECIDO

Relativa é a cor desde que contenha:
A maciez da paina e a leveza da pena
A transparência do pano com frescor de relva
O raro brilho da joia e a candura de pétala
A sensação da polpa na aveludada pele
A consistência da lã a tudo o que apela

Que envolva o mínimo e acaricie as margens
Ou se perca entre apelos de lisas paisagens
E absorva orvalhos e acolha olhares
E exale cheiros que se eternizem
Na ponta dos dedos por entre os vales

Que espante os medos e atraia a língua
Revele segredos sob a renda fina
Sem desvendar mistérios nos fios da seda
Trançados na esteira de tendões macios
Por volúveis nós refilando senhas
Por suaves trilhas envolvendo a ambas
Linha e costura misturando as duas
Escondendo-se mas tornando acesas
Divinas histórias que se tornam nuas
Ávidas e vívidas paixões e certezas

São assim tecidas as vestes e os planos
Embrulhando a vida ou tornando nus
Os encantos em cada um dos nossos sonhos

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EXPLICAÇÃO

A mais velha presunção de todas as eras
Desde que surgira o mundo e o verbo fizera
Insiste o artista em perpetuar sua arte
Ao contar em fatos tantos cantos diversos
Entre a lucidez e o sonho de uma conversa
Tornando em poema qualquer insana ideia
Surgira o poeta perseguindo a poesia

Se todo aquele que o lê lhe devora
Acomodando no espírito um único verso
Recontaria o tempo imortalizando o texto
Vivendo aos berros sem um único grito
Dar-se-ia a junção da palavra à voz concreta
Quando a canção entender-se mais verdadeira
Seguirá a poesia devorando o poeta

Tantos versos se reprimem pelo deserto
Incertos ao vento naufragando em mar alto
Outros sentimentos aforados tomam de assalto
Saborosos néctares de benfazejas chamas
Tão singelos diálogos que segredos componham:
Se insistem ao poeta em descrever tais encantos
Sussurram poemas que em silêncio te sonham


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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!