Escritas

Lista de Poemas

NA DOÇURA DAS UVAS

E por estarem juntas umas às outras
Roçam-se deliciosamente intensas
E por estarem pensas pelo cacho
Traduzem-se pelo facho da serpente

Versejam justas dentre as folhas
Roxas e quietas aguardam pacientes
Encantando soltas entre os talos
Que a boca as exploda entre os dentes

Se casca gotejam ao corpo sereno frescor 
Se pele exalam na língua intenso perfume 
Cabem-se da densa polpa ao macio sabor

Na sedução ambígua do veludo das luvas  
Degustamos no vinho o suor das mãos
E perdemo-nos ébrios na doçura das uvas


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IAZUL

As noites escuras de azul clareiam mais
São menos falhas de incertezas e mais reais
Noites azuis trazem lâmpadas de fuscos pungentes
Mas não apagam o indizível apesar da cor maldar

Nas escuras noites de azul a dor até dorme
As estrelas cintilam complacentes no derredor
Noites assim azulam as vozes incandescentes
E a solidão aplaca o peito que já nem quer chorar

Aprendi a transcrever os apelos destas vívidas noites
Quando o breu abre a escotilha do navio do céu
E dali brota o farol do esplendor da lua cintilante

Sobre a face âmbar e inquieta de quem a pressente
As noites assim são vivas cordilheiras brandas
Onde jorra abundante a poesia que o poeta sente



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DESEJOS

Quem te permite voar não são as tuas asas
Quem te impulsiona seguir não é tua vontade
Quem te faz retornar não são as incertezas
Quem leva a permanecer não são convicções

Porque asas são causas e não méritos
E vontades tens tanto de ir quanto de ficar
Incertezas existem aos montes
E convicções às vezes não resistem

Quem te admite a vida são os teus desejos
Estes sim são os verdadeiros donos das decisões
Os desejos são paralelos que pavimentam a alma
Porém tão intrínsecos que os mudamos de lugar

Mas se eu tivesse asas voaria até tua loucura
Ali seria o lugar perfeito para aprender amar
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EPITÁFIO

As três últimas palavras de qualquer poema
Deixo-as a quem pressentir que houvera arte no que compus
Outras três rimas a quem leu do que fiz
Três estrofes aos que souberem que escrevi
E três poemas àqueles que desejarem de algum modo
Entender que existi

Aos amigos
Suplico que semeiem
Todos os versos escritos nas entrelinhas das minhas mãos



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FALO

Falo da fenda de bordas molhadas
Ligeiramente longa lisa e estreita
Onde o sol lentamente a tarde se deita 
Falo da fenda recoberta por nuvens rosadas
Para onde convergem todos os voos
As trilhas avenidas olhares e estradas
Falo da fenda da pedra úmida
Que aberta espera o plantio da semente
E que pela fértil semente suplica
Falo da fenda da terra sonhada
Entre macias alças entreabertas
Despojadamente excitadas
Falo da fenda que fisga a fresta
Onde a inspiração vertente adentra
Na ranhura insigne do poeta
Falo da fenda por onde brota
A luz que emerge vida e brilha
Uma eternidade enquanto dura
Falo da fenda que o tempo perfura
Da fenda que perfuma a flor
Sobreposta no batente da janela
Falo da fenda de onde surge o vento
Abilolado informando que do outro lado
Nalguma greta do mundo alguém sonha

Assim pensado nada mais falo



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SONO

Estiquei as horas do sono
Fiquei maior tempo ausente
Despertei como alguém acorda do coma
Sem saber em qual momento está

 
Notei que num canto da varanda
Surgira uma casa de abelhas
Que três novas rosas haviam desabrochado
Que na parede do banheiro fez-se uma trinca
Que sobre o móvel da sala havia poeira

Não fosse a travessa de madeira do alpendre
Apoiada sobre a pilastra
Cuja lateral abriga o jardim 
E a estante estarem habituadas 
À casa num mesmo lugar onde durmo
Nem teria notado

Dormir é o prenúncio da morte
Eu continuarei dormindo
Até que não mais acorde e nem note


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SIMBIOSE

Há instantes em que num relance
A areia da praia sente-se farta
Dos tantos pés descalços calcando-lhe o chão

Há momentos entretanto
Em que a areia da praia sente profunda solidão
E molha-se de saudade dos mesmos pés descalços
Cujas ondas apagaram as pegadas dos passos
Cravados nos grãos

Nessa intermitente simbiose
Ao pisarmos, a areia acaricia suave os nossos pés
Depois se refaz plena
Nos carinhos profundos das marés



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HÁ QUE SER ASSIM ESSE BEIJO

Há que ser delicado
Fugaz qual pluma ao vento
Circundando em volta
Vagando num sutil espaço
Infindo do firmamento

Há que ser anárquico e preciso
De extrema lerdeza e lentidão
Absurda leveza da lâmina do lábio
Lambendo cada poro da pele
Transmudando o juízo

Há que ser vívido e mágico
Majestoso e de tal forma singular
Que as palavras servidas na boca
Após esse instável anseio
Não sejam silenciadas jamais

Há que ser assim esse beijo
Na sustenida volúpia da língua
Do jeito que o mar abraça um rio
E abrasa o doce sal das margens
Sorvendo o sabor das salivas


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NO MEIO DA TARDE

Encaixo a minha mão
Debaixo do teu vestido
Mas se me dizes estar despida
Imagina-la vestida
Já não faz nenhum sentido
Rogar excentricidades

O sonhar tem dessas baldas
Cada qual com seu capricho
E mania e desvario

O sentir de qualquer sonho
Devemos às singularidades

Perdoa se a nua palavra arde
E o verbo rumina o dicionário
No meio da tarde



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NOSSOS PÉS

Nossos pés mostram as curvas das estradas
E traçam as linhas rotas dos caminhos
Quando descalços imprimem rastros
Quando calçados demarcam caminhadas
Com saltos entrelaçam-se aos compassados passos
Quando saltitam balançam-nos sedutores os braços
Apressados sombreiam leves o corpo pelo espaço
Mesmo cansados sustentam-nos apenas
Quando calmos elevam além do solo
Quando alegres desfilam e dançam nos palcos 
Quando choramos flanam emocionados
Se em êxtase comprimem as pernas
Quando relaxam entreabrem-nos os lábios
E ainda que em desavenças seguem-se calmos
Quando doloridos imploram descanso
Quando exigidos afloram os calos
Perseguidos tatuam sobressaltos
Saltitantes aprofundam as pegadas
Quando nos trazem é porque já nos levaram
E no ir e vir abundante as solas calejaram
Quando empoeirados relatam andanças
Se vestidos suam se nus resfriam pele e ossos
Quando inchados denunciam cansaços
E se parados ou novamente prontos a partir
Nossos pés seguem as linhas das estradas
Pouco importando se juntos repousam separados




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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!