Escritas

Lista de Poemas

TUA BELEZA

Do lado de fora às vezes penso 
Ser mais fácil ver lá de dentro
Entro e vejo como piora

Vendo a visão do centro
A vista da borda deteriora
O que pensei ter visto de fora

Consigo enxergar um ponto
Argumento de um novo jeito
Depois vejo de outra forma

Deve ser o pensamento
Que muda a cada conceito
E a opinião deforma

Tem horas que piamente creio
Que a realidade verdadeira
Mora dentro de um espelho

E de tanto espelhar-me
Torno rala e feia a imagem
Que julgava ser tão bela

E de tanto espelhar-se
Torna bela a feia imagem
Que julgara ser tão rala

E de tanto espelhar-te
Tornas rara e bela a imagem
Que julguei ser rala e feia

Porque tua beleza expande
O que meus olhos sentem
Ainda que não te veem


www.psrosseto.webnode.com
👁️ 97

SÚPLICA

Devagar o Buranhém estica a língua
Na intenção de provar do sal do mar

Primeiro lambe a Ponta do Apaga-Fogo
Depois sorve o sabor de Itacimirim
Ainda molha os lábios em Mundaí
E tem sede de Taperapuan

Já não coubera em seu leito
Hoje rasteja as sujas águas 
Num cortejo suplicando piedade

Chora não meu rio
Outros podres choverão


www.psrosseto.webnode.com
👁️ 55

NOSSOS PÉS

Nossos pés mostram as curvas das estradas
E traçam as linhas rotas dos caminhos
Quando descalços imprimem rastros
Quando calçados demarcam caminhadas
Com saltos entrelaçam-se aos compassados passos
Quando saltitam balançam-nos sedutores os braços
Apressados sombreiam leves o corpo pelo espaço
Mesmo cansados sustentam-nos apenas
Quando calmos elevam além do solo
Quando alegres desfilam e dançam nos palcos 
Quando choramos flanam emocionados
Se em êxtase comprimem as pernas
Quando relaxam entreabrem-nos os lábios
E ainda que em desavenças seguem-se calmos
Quando doloridos imploram descanso
Quando exigidos afloram os calos
Perseguidos tatuam sobressaltos
Saltitantes aprofundam as pegadas
Quando nos trazem é porque já nos levaram
E no ir e vir abundante as solas calejaram
Quando empoeirados relatam andanças
Se vestidos suam se nus resfriam pele e ossos
Quando inchados denunciam cansaços
E se parados ou novamente prontos a partir
Nossos pés seguem as linhas das estradas
Pouco importando se juntos repousam separados




www.psrosseto.webnode.com
👁️ 86

NUS NA REDE

Entre um gancho e outro que seguram essa rede
Presos às pilastras que sustentam a parede
Da casa em que vives as tuas doces horas
E moras e convives com teus sonhos acesos
Penduramos também nossos desejos

Até que a tênue noite dê lugar à aurora
Deixa que deleite então contigo agora

Balancemos nesse pêndulo enquanto aquietem
Os sons murmurados da noite ardente
Os movimentos ritmados de vai-e-vem
E a gente durma plenamente satisfeitos
Sentindo o roçar da brisa em nossos pelos

Deixa que me deite então contigo agora
Até que nus acordemos no advir da aurora



www.psrosseto.webnode.com
👁️ 57

DEBULHA

Tira com cuidado o bago da palha
Rasga com a unha a folha dourada da espiga
Um a um surgirão grãos macios do trigo
Em processo da espera da maturação

Esfarela
Esmiúça
Mói
Esmói
Rumina
Tritura
Esfarinha
Mistura com o fermento da emoção

Faz isso com sentimento
Sem intriga no coração

Convida o amor para a debulha
Depois partilha o pão da vida



www.psrosseto.webnode.com
👁️ 67

A FLOR

Se estiver ante aos teus olhos
Próxima ao teu coração
Quando puder me regue com olhares
Molha-me com sorrisos de relances
Canções de apego que realcem
Sussurros de pensamentos bons

Te darei lembranças de momentos
Conforto nas saudades 
Desejos entre respingos de silêncio e sons

E se estiver próxima às mãos
Ao tocar-me a maciez das pétalas
Será como pôr os lábios na flor
Da minha cor champanhe
Do meu caule marrom
Das minhas folhas verdes
Do vaso de veludo carmim
Que te despiu na hora incerta
Quando cheguei aos teus braços
No abraço do primeiro encontro
Vendo-te em meu novo jardim

Mas dessa visão efêmera acordarás desatenta
E te porás sozinha a gargalhar de mim


www.psrosseto.webnode.com
👁️ 80

DEGREDOS

Quando ouvíamos comedidos
Os avós contarem macabros degredos
Andávamos por escuros imaginando a dor

Estou agora na antessala da mesma casa imaginária
Revisitando imagens e apelando aos meus credos
Vencendo insanas guerras que submetem ao horror

Estão comigo somente fantasmas ao redor
Que me fazem comover tanto nestes tempos
Diferentes de quando irrequieto a astúcia sobrepunha

Deveria sabê-lo pois a idade calejou sentimentos
Os anos andaram minhas pernas por mundos intensos
Por onde partilhei confiança e recolhi meus medos

Apesar das lutas acostumei às batalhas rivais
A observar o quão são frágeis os argumentos
Que põem à margem nossos dilemas

Não trago as moribundas sentenças do passado
Somente prezo para que haja mais esperança
E prevaleça entre o meu e o seu mundo a paz


www.psrosseto.webnode.com
👁️ 85

SOBERANOS

Andam por esse corredor resilientes
Trazem os ouvidos surdos a quaisquer sons
Olhos rebaixados tentando ver as passadas

Não conseguem enxergar nada
Além do rosco umbigo
Na altura de um ventre protuberante
Debaixo do queixo diante do chão

Para qual imã segue essa gente?

Para onde vão maus e bons
Para onde correm tantos incessantes

Para algum fosso delirante denominado amanhã


www.psrosseto.webnode.com
👁️ 104

A LUZ QUE ADVÉM DA TUA FACE

Descansar à sombra das tuas sobrancelhas
Sob a calma vaga dos teus belos cílios
Entre íris e pupilas imerso e absorto
À beira da imensidão nítida dos teus olhos
Contemplando teus traços ainda que numa foto
É um privilégio poético para poucos

Igual fazem anjos e arcanjos em suas dimensões
Ao tocarem nosso rosto com suave sopro
Ainda que num pensamento mais remoto
Apaixonam-nos tanto e de tal maneira nos encantam
Que divinos tornam-se também insanos
Esmorecem feito bichos aloprados feito loucos

E o que nos prende à imaculada beleza da face
Senão o retrato nítido da alma em transe
Clarividentes olhares entre pálpebras acesas
Dimensionando ao longe ainda que em sono
Durmam nalgum mundo dos sonhos da gente
Por humanos apaixonados tão ávidos deuses

Toda vívida imagem contemplada se completa
Repleta da vertigem de quem ardente observa
Torno-me viandante astronauta da infinita mente
Enclausurado em meu nicho ardo resiliente
Recolher tua imagem e nela divisar tua fronte
É alimentar meu impreciso coração de poeta


www.psrosseto.webnode.com
👁️ 62

CAEM BOMBAS

As bombas caem

Por que caem?
A gravidade as derruba
Detonam
Retornam para esta mesma terra
Explodem
E estilhaçam os jardins de Deus
Em nome do inferno dos homens

Caem porque foram içadas
Jogadas
Soerguidas
Aquém da vontade de quem as fizera
Além da maldade de quem as jogara

Mas por que são lançadas?
Ignora-se
Poucos sabem
Ninguem as espera

Caem
Caem
Caem


www.psrosseto.webnode.com
👁️ 77

Comentários (2)

Iniciar sessão ToPostComment
ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!