Lista de Poemas
SONETO DE SAUDADE
Retirando a sujeira jogada na praia
Rastelando retalhos de algas sargaços
Pedaços de plástico e madeira
Às vezes não se podia esvaziar a lixeira
Havia tralhas que não queriam ser desfeitas
Restos de tudo abandonado sem dó
Mas que serviam de alguma maneira
Como se estivesse abanando sentimentos
Limpo agora as saudades do coração
Rastreio palavras renasço esperanças
De no árduo deserto da árida inspiração
Voando no passado mil pensamentos
Ver fluir em versos tão doces lembranças
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LEOA
Encerar no couro a raiz dos pelos
Mantra denso de fino aroma pelos dedos
Mexendo levemente a mente e o cerebelo
Enxergar nos sonhos vivos devaneios
Como se tatuasse orquídeas pelo dorso afora
Passeando cínico pelo hemisfério do pescoço
Pudesse desvendar misteriosos sóis de aurora
Esquiar na vertigem tênue o arrepio da nuca
Ainda que nunca tenha estado em tuas costas
Encontrar entre a vasta juba o mel das respostas
Ah que me mostras o que tenha posto
A perder-me na figura esguia entre as coxas
Enquanto finjo na esfinge rubra ver teu rosto
NÓS
E ia confortando um a um com saciedade
Quando não havia mais nada a ser comido
Dava-se um breve período de intenso fastio
Levantavam-se e cada um a seu modo partia
Ficávamos nós por algum tempo descartando restos
Lavando copos panelas talheres pratos e cozinhando
Depois voltava a fome com cara de outra gente
E igualmente dava-se o mesmo abastamento
Levantavam-se e cada um a seu modo partia
Foram assim anos e anos a fio entre salão e cozinha
Lavando copos panelas talheres pratos e cozinhando
Até que um dia a nosso modo também partimos
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A QUALQUER HORA
Não foi ontem nem outrora
Hoje não se está disposto
Não fui eu ou poderá ser outro
Quem ardentemente peça
Pode nem ir tão cedo
A qualquer hora
Ou nem sonhe e nem queira
Espera-se não seja amanhã
Mas não se iluda
Não será nunca
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LEIA
Não canso eu em mergulhar
Meu poema no codinome do teu olhar
Leia linha a linha de cada onda
Leia entre o balanço que elas têm
Leia sobre as pedras e as espumas
Leia as entrelinhas que se reescrevem
Leia as letras da tábua rasa e cheia
Leia para que ao lê-las se revezem
Na superfície nas profundezas
Leia no tênue brilho das estrelas
Tu que não te cansas de ler navios
Não canso eu em navegar
No raso rio do teu sonhar
Leia enquanto chamo as embarcações
Leia por rumos que se revezam
Leia mesmo que os olhos jamais alcancem
Leia para que se sintam cais
Leia quando o verbo não ventar mais
Leia enquanto há rumores de ventanias
Nas profundezas e superfícies
Leia sob a tênue luz de algum luar
Mas se te cansas ao ler meus versos
Verte tuas águas densas por outras fontes
Deixa que te leia eu nos horizontes
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ALMA POETIZADA
Se ouvir o íntimo será refúgio
Se enxergar o ilógico seja delírio
Se adivinhar o mágico cabem segredos
Se tiver gosto virá do incógnito
Se cheirar ávida haverá promessa
Conecta tua alma à cantiga
Se existir solfejos criará folias
Se encontrar abrigo será santuário
Caso haja lógica rirá da alegria
Se houver vazio sentirá repleta
Se buscar razões achará respostas
Mas se a saudade não deixa calar
E se os sentidos se perdem no ar
Ou se a inconstância escorre na lágrima
Não deixa que a tristeza seja imã
Sê passarinho e apenas confia
Conecta tua alma à poesia
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A POESIA QUE EM MIM FAZ FARRA
Apara o que transborda
Mesmo antes das bordas
Retira restos e arestas
Que evidentes restam
Das marras e amarras
Onde acho que ausenta jorra
Quando penso que farta carece
Se suficiente falta
Caso retenha extrapola
No desprezo consola
Perto do desespero ignora
A poesia já não tem jeito
Eu elogio ela farfalha
Tudo o que ajeito escangalha
Feito vento que espalha
As tormentas dos sentimentos
Pelos quatro cantos do peito
Perdoa se assim atrevo-me
No descaso que se desgarra
Do terço do tempo que resta
Retratar-te na teimosia do verso
Sob a insensatez do poema
A poesia que em mim faz farra
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MOTES
Vive dos segredos que contém
E só o sabe quem os tem
Transporta em sigilo
O que as palavras não contam
Aos olhos nus o que dizem
O poeta tergiversa
Tornando-se mestre em esconder
Cada verso que arquiteta
Faz sentido se ao ler
Desaperceber que a luz
Dá-se na opacidade inversa
Enquanto a ilusão deflete
Poema e poeta se despem
Do que a paixão pensa
Porém é do amor irrestrito
Irrealidade inverossímil
Que ambos subsistem
Deixarei de ser poeta o dia
Em que não borbulharem poemas
Em minha fantasia
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AMENOS
Por malditas ou não ditas a contento
Feito beira de unha que arranha e fere
Enquanto a polpa do dedo com suavidade
Reconecta a tempo a carícia da pele
Mas a unha se usada com destreza
Roça o dorso em face à coceira
Carinha o poro da farta canseira
Quando da ferida elimina a sujeira
Cicatrizando a aspereza da vida
O toque do dedo às vezes arde
O risco da unha talvez amenize
Ações detém o poder de inferir
Ou num só concurso fazer sarar
Nessa incrível dualidade dividida
Enfim dependemos do acaso e da escolha
De cada silaba em cada verbo e momento
Daquele dedo em riste com veneno
Da unha polida com exímia sedução
Do grito ou sussurro a seu modo e jeito
Viver exige significados próprios
Coexistir ensina-nos a ser amenos
Perdoem-nos os fascínios exacerbados
Relevem-se a falta de domínio das paixões
Sejamos humanos – amemo-nos
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A LUZ SEM COR
Brilha intensa mas ninguém
A olho nu pode vê-la
Ainda que tenha o poder
De um incandescente farol
Ou a sinuosidade do pavio
Aceso na cera de uma vela
A luz sem cor nos norteia
Para horizontes azuis
Para noites com auroras
Para as tardes de ocasos
Desafiando as esperas
De que novos sóis acendam
As sobras das estrelas
A sombra da luz sem cor
Apesar da rara beleza
Assombra por não ser vista
Apavora quem não tem fé
Intimida por ser infinita
E somente quem nela crê
Percebe o quanto é bonita
Essa luz é a perfeição da alma
Que mora plena no mistério
Muito além da natureza
Muito aquém dos nossos olhos
Que se nos faz reconhecer frágeis
De tão insigne e mágica
Toma-nos por imortais
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Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
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