Escritas

Lista de Poemas

EFEMERIDADE

Dia desses era bela flor aquele fruto
Na floração o galho já não se reconhecia
E foi tornando-se adulto com o passar dos dias
Até alçar ao ponto da total maturidade

Era ele igual aos demais: inexorável
Tinha a mesma idade sabor formato
E apesar de único idêntica identidade
Doce

Vieram então os pássaros
Passaram as formigas
Resistiu às tempestades
E ao colheitador 

Como nada perdura
Partiram todos embalados
Aos mercados e bocados
Menos ele o fruto daquela mera flor
Que apodreceu no pé
E despencou estatelado 
Feito jaca madura
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ASTRONAUTA

A minha alma astronauta
Viaja por esse universo particular de mim
Tentando entender-me ou saber quem sou

Eu acompanho esse trajeto desbravador
Que sempre vai aonde nada sei
Mas na certeza da total liberdade em buscar

Um mínimo revela-me no que disse e digo
Outra parcela naquilo que faço e fiz
Além doutro pouco que imputo segredo

De resto é a incapacidade em vencer o medo
Sem penitenciar-me pelo que não apreendo
Ou alardear daquilo que encontrei

A minha alma viajante 
Continuamente se espanta com a jornada
Mas não me para para levar-me além
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DA NATUREZA

Sabedor da terra e seus chãos férteis
De húmus afins e estrumes
Nasce a planta de fruta viçosa
A diversidade das cores
Refolha a flor e perfumes

Ciente de que do arenoso solo
O absurdo milagre acontece 
A natureza repleta de olhos e lágrimas
De sorrisos cheiros riachos e chuvas
De bocas e braços e mãos deitadas
Espreguiça transforma desperta acolhe

Dá-me o místico sabor de ser raiz
De alguma árvore inexplicável 
Nalguma cova inda que rasa
Em qualquer canto do quintal do mundo

Se pouco plantei do que alimenta
Deixa clarear daquilo que o mundo me sustenta
A vida regenera pela metamorfose
Pois nada finda se renova encanta
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SERENA

Amo essa indefinida cor do teu olhar
Mais que amo os teus cílios morenos
Feitos do amendoado da noite
De inquietude e sossego
Da plenitude da alma
De devaneio e apego
Donde as sensações advêm
Pois tão bem te delineiam 

Se te vejo aficciono
Quando te vais enxergo-te além
Se te percebo que estás desassossego
Se te ausentas adivinho-te
Quando vens endoideço

Nesse exercício de te olhar perco-me
Nada mais sou senão pássaro preso
Ou vela inflada do vento que não tem
Buscado rumo e endereço

E por amar o teu jeito coeso de ser
Do equilíbrio que te preserva serena
Evidencia-me todo o óbvio
Clareia em mim tuas íris
E dá-me de beber dos teus olhos
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RASURAS SOCIAIS

Por onde passamos deixamos sinais
Manias pregadas 
Lacunas
Rasuras moduladas em papéis

Passamos largando pegadas digitais 
Soltas vincadas
Rastos e restos
Vísceras viscerais

A presença incita
Do prolixo ao excesso 
Parece-nos sinistro
Mas acostumamo-nos ao lixo 

Tomba transborda
Tromba nas beiras e bordas
Derrama deteriora mancha
Desmancha-se e não desaparece fácil
Perdura

Depois reclamamos
Que a vida é dura!
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COM A LÍNGUA

Damos todos com a língua no céu
Quando a boca está fechada

Ali no palato onde ela roça
Trisca bolina esfrega se apoia
E descansa depois da risada
Do assobio quando canta
Ou após a dança contínua da fala
É que ela mora habilidosa
Às vezes ousada libidinosa
Às vezes silenciosa 

A língua tem na boca a sua casa
Passeia pelos lábios
Resmunga sussurra declara
Depois repousa na saliva mucosa 
Ainda que a cara esteja irada
E ela ressequida cuspindo ou pedindo água
E se dê com a faca nos dentes

A minha língua materna
É o instrumento da mente
Vive encantada e escancara
Poemas prosas cantigas clamores
Essa língua portuguesa
Enamora-me de amores por minha gente
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EMBRIAGUEZ

De quando em quando
Dai-vos à embriaguez constante da arte

Bebei da doçura icônica das inspirações
Fartai-vos dos ardores das expressões artísticas
Tomai dos gargalos das cultas leituras
Da boa prosa das novelas da poesia
Das cores dos riscos e rabiscos das telas
Dos teatros das óperas da fotografia

Inebriai-vos de espetáculos e alegorias
Sonhai com a cantilena avulta dos instrumentos
Brindai com os sonhos e a utopia das folias
Embebedai-vos nos palcos de talentos e fantasias

Sedes felizes nos momentos da prosa
Por sentimentos nos cantos nas vozes nas danças
Pela eternidade dos conceitos e significados
Por um dia de risos de quadros e livros
Nos museus nas praças nos circos nas escolas nas ruas

E se possível for por mais algum deleite
Embriagai-vos finalmente 
Nos dons da generosa solidão e ousadia 
Dos artistas
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DOCES

Os expressos repousam
Envoltos em aroma e chamas
À espera das bocas

As espumas esfumaçam
E os sentidos despertam
Íntimos encantamentos

Aquele líquido inquieto
Reflete aveludado
Revolve-se nas xícaras e se completa

Os dedos colam nas asas das louças
E as lançam aos lábios
Entre risos e falas

Do amargo nasce o doce nas línguas
Como se equilibrasse a flor
Uma por uma das suas pétalas

Cada um em sua xícara:
Nos suaves gestos da moça
Sorvem raros os versos do poeta
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SINAIS

Achei algumas fotos descoloridas
Em nada diferentes de agora

Os mesmos pensamentos
As mesmas ideias
Os mesmos conceitos
De quando tudo era distante daqui

Apenas o papel meio envelhecido
E as formas de outrora perdidas
Deram sinais em não resistir

Creio ter sido 
As sutilezas da vida
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CONFIDENTE

Quando falas
Calam-se as outras vozes
E as vezes que te calas
A mim ninguém mais fala
Apenas o silêncio propala
O que disseras

Não espalha for favor
Que meu coração te segreda
Pois quando te escuta
Acelera dilacera falha 

Será que te ouço
Ou seria mero encantamento
O entendimento 
Que em meus ouvidos formara

Creio que apaixonara
Se deixar de ouvir-te
Todo discurso será triste
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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!