Escritas

Lista de Poemas

AOS QUE TANTO AMAM

Não vos invejo porque amam tanto
Tanto amam que às vezes odeiam
Pois o cego amor causa desespero
Quando queda se parte ao meio
Mesmo sendo o ódio passageiro
E o amor infindo e verdadeiro
Estilhaçam e doem pelo exagero

Receio que a alguns o amor desmedido
Seja sobre-humano constante exercício
Esteja o amor acima dos limites
Onde apenas os sonhos existem
Ou persistem além dos encantos
Pois resistem mesmo sendo atraídos
Aos inócuos convites do precipício

Gosto mesmo é de quem se acomete
Aos lascivos caprichos das paixões
Estes sim amam desproporcionalmente
Mesmo cientes dos riscos das incertezas
Amam desamam e novamente enamoram-se
Das excentricidades das ilusões e aventuras
Dos insuperáveis e eternos amores

Entremeio as desventuras e devaneios
Jamais saberemos se amamos por inteiro
👁️ 77

PUDERA

Caminhamos por esse labirinto tosco
Entre riso e pranto
A leveza e o peso
O banal e a realeza
A tristeza intensa 
Ou o contentamento exposto
Mas a beleza é o que mais pesa
No cômputo final da efemeridade

Na teia do tempo o tempo fala
Mesmo nas sombras do imprevisível
A existência assiste os fios que se entrelaçam 

Pudera
Quem traz a alma inquieta
Mora num jardim de eterno retorno
E se torna mais feliz porque escuta o outro

É
Isso faz a diferença
E a vida bela
👁️ 88

DEBAIXO DA PELE

Ainda trago sangue fervente na veia
Goteja esguicha escorre da artéria
E se depois estanca acalma coagula
Continua feliz seu curso fugaz 
Debaixo da pele

Já foi mais voraz mais feroz mais vermelho 
Fez-me mais veloz disposto corado 
Menos amarelo diante do costume
Da repulsa do atropelo

Já tive transparente a vitalidade das células
Aquecidos os pulsos
Os sentidos mais vivos inflamados
Irrigada a chama do cerebelo 

O que externa de mim agora ainda jorra
Porém flui sereno pelo íntimo da aorta
E se por poemas até você me transporta
Reacende me inflama e me encanta
👁️ 102

URBE

Quanto maior a cidade mais gente ao relento
Mais forte a dor o sofrimento
Mais intensa a solidão danoso o tormento
Mais triste a sina grave o lamento
Maior o descaso o desalento
Mais se gasta sem ter maior o endividamento
Mais profundo o corte mais sangramento
Maior a teimosia menor o argumento

Quanto mais rica a nação maior desigualdade 
Mais alta a ambição frágil a moralidade 
Mais violenta a guerra dolosa a humanidade 
Mais escura a ignorância difícil ter caridade 
Maior a opressão menor liberdade 
Mais falso o sorriso menos verdade 
Maior o preconceito menor igualdade 
Infecundo o diálogo menor razoabilidade

Convivemos nesta fervura em transição 
De insolúveis dualidades 
Cada um a seu modo e jeito 

Somente o amor transcende realidades 
Mas onde há coração?
Em qual ritmo bate em seu peito?
👁️ 70

ACENOS

Gosto dos sinais das tuas mãos
Chamando para junto do mar
Quando nas entrelinhas arranham a lua
Fazendo desenhos displicentes no ar
Quando na madrugada tateiam o breu
Como fosse o sol no íntimo do céu
Quando tingem teus lábios de batom
Ou te aspergem perfume pela nuca
Quando serpenteiam em teus cabelos
E desfiam os fios por entre as unhas
Quando te vestem o corpo 
Na intenção de estar desnuda

Eu contorno teus dedos e punhos
Como desenhasse na folha a loucura 
Com a ponta do lápis inexistente
 
Mas o que mais gosto em tuas mãos
É que mesmo cheias de segredos
Viajam abertas expressando ternura
 
Gosto dos gestos das tuas mãos
Ainda que seja por um aceno apenas
👁️ 74

QUALQUER DIA

Eu viajava nos bancos verdes ímpares, com o nariz colado aos vidros das janelas dos vagões marrons da classe dois da NOB. Via o capim deitar-se na curva íngreme da linha, com o vento das rodas de ferro zoando alto no entremeio da cancela. Eram madrugadas frias e tardes ensolaradas, viagens por onde os sonhos seguiam ou vinham nas bagagens arranjadas. Sempre aguardava por alguém chegando de longe. Sonhava com quem a me esperar na plataforma dos trens que partiam e arremessavam apressados. No compasso dos trilhos no aço o coração se debatia, embalado pelo ritmo da serpente da locomotiva, e na ansiedade a espera se esvanecia. Eram histórias que se entrelaçavam. Em cada estação um encontro imprevisto, onde destinos certamente se cruzariam. Na plataforma, olhares se encontravam em meio ao calor que escapava da máquina, e o tempo suspendia, os segundos paravam. Nos bancos verdes ímpares, eu me perdia nas paisagens que se desdobravam pelas janelas, e na magia que o caminho era capaz de trazer. Via campos vastos e cidades que dormiam, rios serpenteando entre o mato nas matas, e na viagem eu por inteiro corria. Às vezes o sol se punha o céu tingia, e a cantiga do apito ecoava como súplicas que a natureza da gente ouvia. No vai e vem dos trens histórias se escreviam. Eu era apenas um passageiro a contemplar a dança das estações, os destinos que seguiam. Na imensidão dos trilhos eu me encontrava viajando não apenas pelos cerrados, mas no tempo, nas lembranças onde a recordação me embalava. E hoje mesmo distante desse ensejo vivido guardo com carinho cada momento cada instante sentado nos bancos verdes ímpares que me conduziam. Em minhas memórias as viagens são eternas, e a poesia dos trens da NOB continuam a ecoar na alma de viajante que sempre será verdadeira. 

Um último trem virá me apanhar, qualquer dia.
👁️ 115

INSPIRAÇÃO

Hoje saí procurando vocábulos
Que personificassem um poema
Verbos que devessem movimentos
A sujeitos e adjetivos diversos
Substantivos

Vasculhei longos espaços
E não achei palavras

Eu não sei onde estavam guardados
Mas apareceram derivados
Quando segui os teus passos
👁️ 75

PROIBIDO

Proíbe-se o amor
Mas o que faria um ser sem amar

Seria um envelope vazio
Um livro sem folhas e escritas
Uma tela sem qualquer rabisco
Espelho que não soubesse refletir
Ou refletisse porem tardio

Eu mesmo amo até as minhas falhas
Porque é nos desacertos inoportunos
Onde a emoção farfalha
Que renovo e reencontro a crença
Entremeio aos enganos
De que o amor sempre há de ser
Soberano

Ah faça-me o favor
Não se proíba de amar meu amor
👁️ 190

OS RISOS DA CHUVA

Pela melodia das gotas dançando lá fora
Pelo coração que anseia possibilidades
Mesmo não estando tua alma tão serena
Faz da manhã chuvosa 
Mais amena encantada e plena

Vê as gotas translúcidas enfeitando as flores
Cada pingo que cai se mistura e rola
Reflete a libido da pouca luz que aflora
Sobre os ombros da ternura se encontram
Transfiguram preguiçosamente a aurora

Nossos rios escorrem como risos da chuva
As águas despencam se misturam em bolhas
Compõe em sintonia a própria trilha sonora

Sei que estás sedenta e recoberta
Ainda deitada a essa hora
Não te ocupes com a palidez das cores
As nuvens já se fazem ralas
A manhã gelada esvai
Vem
O sol desponta agora
👁️ 118

A FLÂMULA

Diante da baderna
O vento se deu ao direito
De enrolar a bandeira ao mastro

Foi a sutil maneira
Que encontrou para tomar no peito
As dores da pátria

Após a tempestade
Que devassou o planalto
Foi soltando o pano devagar

Desgastes à parte
Tudo a seu tempo foi se revelando
Foi voltando ao lugar

E a flâmula silenciosa
Baila de novo solta
A nos olhar
👁️ 82

Comentários (2)

Iniciar sessão ToPostComment
ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!