Escritas

Lista de Poemas


Novamente só me encontro,
Numa solidão triste e duradoura,
à que persistir para por fim,
Talvez não desistir em pranto,
Vencido por uma sociedade enganadora,
Simplesmente à espera dum sim pronto,
Todos os dias continua a chover só para mim,
Todas as noites recolho ao meu antro,
Onde afogo as mágoas já gastas,
Chega de carências inclementes, basta.

Lx, 23-2-1996
👁️ 617

Monte Estremunhado


Tão branca como as salinas,
A névoa embala as colinas,
Transpiram algo mais que a vida,
Muito para além da já tida,
Contam ao vento as mágoas,
Tão sentidas e choradas pelas lagoas.

O dia estremunhou devagar,
Levantam-se as trevas a bradar,
Escondem-se os espíritos ociosos,
Diluem-se pelos montes tortuosos,
As sombras imperam ao norte,
Ouvem-se sussurros de morte.

Lx, 10-1-2001
👁️ 591

Sentirei falta Um dia


As montanhas desaparecidas,
As noites de Verão esquecidas,
O pão nosso de cada dia,
Conversas até hora tardia.

Os ribeiros nascem dos rios,
Dos pardais ouvem-se os pios,
Da fonte jorra água pura,
O Sol põe-se, o céu perdura.

Campos verdes ao relento,
Ensombrados por nuvens ao vento,
Árvores esquecidas ao centro,
Com troncos ocos por dentro.

Vales húmidos lacrimejantes,
Geram terras ricas e pujantes,
O luar reflecte-se no orvalho,
A noite acaba mais um dia de trabalho.

Abrupta a falésia precipita-se no mar,
Azul tingido pelo céu a estrelar,
As ondas afagam a areia doirada,
Chamam ofegantes pela alvorada.


Lx, 23-3-1998
👁️ 611

Esvoaçar



Asas anseiam abrir-se ao vento,
Partilhando com ele a vida,
Voam sob grande tormento,
E a Lua reflecte-se impávida.

Voam por montes e campanários,
Por riachos, vales e feiras,
Matam a sede em fontanários,
De exaustão caiem nas beiras.

Voam ao sabor das correntes,
Ascendentes e descendentes pelo ar,
Asas planam transcendentes,
A tempestade murmura ao chegar.

Asas batem leve levemente,
A chuva não tarda enfim,
A enxurrada cai livremente,
A minha Alma poisa por fim.

Lx. 12-9-1999
👁️ 616

Ser Poeta Pode Ser



Nascer todos os dias e morrer sempre à noitinha,
Uma cabrinha a pastar com os lobos a deambular,
Vaguear todo o dia mas voltar sempre à tardinha,
Montar um cavalo selvagem sem nunca o amansar.


Amar ardentemente sem o fogo conseguir apagar,
Naufragar na tempestade para vir morrer na praia,
A tristeza triste duma criança órfã a soluçar,
Quando uma pobre catraia no mar se espraia.


Uma garrafa vazia à tona com a maré,
Uma caixa de música com a corda partida,
Uma mulher bonita no meio da ralé,
Um teólogo velho e de alma perdida.


O segredo dos Deuses à solta no manicómio,
Mil prisões e toda a fúria nelas contida,
Um adolescente carente à beira do promontório,
Uma fonte do caminho de água esquecida.


A solidão atroz das multidões em corrupio,
Lamentos e consolos sofridos afim,
As andorinhas na Primavera morrerem ao frio,
Esperar pacientemente a Morte ao fim.

Lx, 12-9-2001
👁️ 600

Mundos

Terra, és o nosso Lar imenso,
Quem me dera guardar teus segredos,
Na minha biblioteca de bom senso,
E desfolhá-los ao sabor dos meus dedos.

Gostava de a trazer arrumada,
Na sua anarquia devastadora,
Não deixá-la para sempre abandonada,
A uma praga humana assustadora.

Terra, sufocas na tua atmosfera envolvente,
Só falta proibirem-te a translação celestial,
És trespassada por ultravioletas em torrente,
Eu sei, sentes-te perdida neste Universo sideral.

Terra, és um paraíso perdido,
Viste partir os Deuses do Olimpo,
Por biliões de parasitas és agora varrido,
Só te resta a Lua fiel como um pirilampo.

Terra bendita,
Tão ultrajada,
Acredita,
Serás ajudada.
Lx, 25-7-1995
👁️ 654

Horas Certas



Que bom saber,
Ter o Sol hora marcada,
Para nascer.

Que bom saber,
Ter eu hora marcada,
Para morrer.

Que bom saber,
Não ter o vento hora certa,
Para soprar.

Que bom saber,
Não ter o vento direcção certa,
A tomar.

Que bom saber,
A alvorada preceder o dia nascer,
Tão quente.

Que bom saber,
A noite preceder a minha alma padecer,
Tão demente.

Que bom não saber,
Nada de nada,
E vaguear na estrada.

Que bom não saber,
Onde nos vai levar,
Nem quando lá chegar.

Que bom não saber,
Haver alguém a acenar,
A vir-me esperar.

Que bom não saber,
O caminho da entrada,
Nem ter mapa de chegada.

Que bom não saber,
A rudeza da caminhada,
E de nunca ser lembrada.

Que bom não saber,
Nada de nada,
Só ver o dia nascer por nascer,
Só ver o anoitecer por anoitecer,
E o vento soprar por tudo e por nada.

Lx, 8-8-1999
👁️ 762

Seara


Uma seara me sorriu,
Foi hoje de manhazinha,
Ondulava ao vento que partiu,
Ficou tão sozinha,

Tão triste ela ficou,
Pelo vento abandonada,
Pisquei-lhe um olho e ela corou,
Ficou por mim enamorada.

Lx, 21-9-2000
👁️ 632

Cena de Ódio 2


Odeio quando abro a janela ao acordar,
E deparo com um mar de gente a trotar,
Pela rua abaixo, pela rua acima,
Cientes da sua bestialidade ouvem-se zurrar,
São esgoto a céu aberto a caminho do mar,
Uns em baixo, outros por cima,
Como odeio ter a eles de me juntar,
Como é possível com eles ainda me desapontar,
Odeio a plebe porque é acéfala,
Odeio os doutores porque andam de mala,
Odeio os drogados porque cheiram mal,
Odeio a novela porque não é semanal,
Odeio horários de partida e chegada,
Odeio os filhos da madrugada,
Odeio mulheres brutas e sensuais,
Odeio os filhos delas como tais,
Odeio a velhice senil,
Odeio a juventude febril,
Odeio uma criança com uma pomba branca na mão,
Odeio comemorar os laços eternos de união,
Odeio as montras da vossa tentação,
Odeio as vossas conversas de café e perversão,
O vosso pecado original foi não terem todos morrido ao nascer.


Lx, 8-12-1996
👁️ 635

Morte Amiga


Morte fiel e amiga de ar fraterno,
Geraste-me no teu ventre materno,
Assim já tão provecto cansado de sofrer,
Deste-me uma morte lenta a viver,
Anseias por me ver na cova a jazer,
Sigo os teus chamamentos de dor e tormentos,
Embalo nos teus braços a soluçar lamentos,
Dás-me de beber o sangue de doentes,
Preteres-me à custa de crianças inocentes,
Porque sustentas minhas aflições lancinantes,
Pela noites incestuosas da minha dor,
Leva-me de vez contigo como prova de amor.

Lx, 27-10-1996
👁️ 583

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António Azevedo - Vila do Conde
António Azevedo - Vila do Conde
2024-05-28

Escreveu no jornal ou revista Alma Nova de Espinho em 1919 e 1920 com José Maria dos Reis Pereira que depois iria adoptar o pseudónimo José Régio.