Lista de Poemas
Iniciação
És tu mulher, a guardiã desse portal invisível,
aquele que há tanto tempo procuro nos cantos,
nas ruelas, nas travessas e alamedas, sem mesmo
refletir sobre o cansaço dos meus verbos,
a deusa metamórfica do sentido latente.
Sem ter a permissão, invado o átrio e peco
contra a tua intimidade, a vasculhar além
dos teus segredos, nas dobras paralelas.
A ousadia é armadilha, veja o espelho de Hércules
que aponta para a Medusa vencida. A conclusão das formas,
o poema a exasperar a instável perfeição,
segues correta, enquanto o ávido, inábil ser que sou,
escapa pelas linhas pontuadas de todos os sentidos do teu ser.
Nilza Azzi
👁️ 36
Atraso
Não morro de amores por fogo em floresta,
por ave em gaiola, por tudo que agrida
e, menos ainda, por tudo que empesta
o mundo animal destruindo-lhe a vida.
Não morro de amores por fato homicida,
por ignorância, por tudo que gesta
ausência de paz e esperança na vida;
por tudo que é guerra, essa coisa funesta.
Porém o que dói, em minh’alma, bem fundo,
decerto é tortura, em qualquer situação,
fazendo morrer o sorriso em meus lábios.
Provoca revolta, esse horror oriundo
de seres brutais que atrasados estão
bem longe da luz elevada dos sábios.
Nilza Azzi
👁️ 15
Simulação
Falar de amor, sem estar apaixonada;
de dor atroz, quando a vida me sorri...
Buscar certezas nos verbos de outra estrada;
ter sonhos maus, acordar feito um zumbi!
Viver os dias, saber que a alvorada
conduz à noite, ao crepúsculo rubi
e ao esvair-se, a visão atordoada,
reconhecer ter falhado... Não previ
que o meu fingir era falso. Ter assim,
a dor maior, esse espanto permanente,
sem compreender a razão de ser poeta...
E a uma só vez, nessa força que me afeta
tornar vazios os momentos do presente,
fazer chorar pelo amor longe de mim.
Nilza Azzi
👁️ 30
Vácuo
Momentos em que alma vive estranha,
aqueles sem o som de um mar de rosas,
distante de outras horas venturosas;
momentos em que luta, perde, apanha.
Desastres naturais – porque curiosas
são sempre as situações em que se acanha,
enquanto o vergonhoso da façanha,
resvala da poesia para a prosa.
É vácuo, tão feroz em seu abalo,
a força deste embate, enquanto calo
o espanto de viver sem esperança.
É, sim, um vento frio. Ele resseca
os olhos que se voltam para Meca.
A alma, mesmo morta, não descansa.
Nilza Azzi
👁️ 19
Intensa
Eu sou assim, alguma coisa incerta:
a luz bruxuleante em alvoradas,
farol que em mar revolto a nau alerta
e tenho a intrepidez que desagrada.
Quisera ser mais sábia e mais esperta,
porém me sei um pouco desvairada;
nenhuma tentativa me conserta...
Sou floco de algodão, ou quase nada.
Sou peça que faz falta no teu mundo,
contudo, não me encaixo como queres.
Restaram-me as arestas barulhentas,
assim, minha presença, não aguentas!
Desejo nivelar-me a mais mulheres,
mas quanto mais eu subo, mais me afundo.
Nilza Azzi
👁️ 22
Pé de couve
Fiz um plano de amor para nós dois,
mas depois percebi que houvera engano;
decidi que plantar um pé de couve
ia dar algum lucro e tive fé...
Mas não é que ele vive bem viçoso
e formoso nas folhas verdejantes?
Dá-me instantes de ação, enquanto cuido
de evitar os pulgões co’a água de fumo.
E consumo uma folha aqui e ali,
pra manter essa planta vigorosa,
já que rosa não serve de alimento.
No momento, conservo a minha escolha!
Fico aqui e, se tanta é minha dor,
meu amor, ao olhar-me, ri feliz...
Nilza Azzi
👁️ 30
sons da noite
As notas soam claras
a noite vai errante
a musica preenche
a mente em seu vazio
A dor e a solidão
são pretextos falsos
escorrem livremente
as lágrimas guardadas
A realidade avança
e zumbe nos ouvidos
perfeita expressão
de isolamento extenso
Se o mundo é só espanto
a próxima estação
vai ser uma parada
difícil de encarar
Nilza Azzi
👁️ 35
Ave migratória
Deixando os ares congelados lá do norte,
seguindo em busca de alimento e de calor,
pequenas aves voam contra o vento forte;
vão para o sul, onde farão ninhos de amor.
Chegado o inverno há que partir, buscar a sorte,
e assim precisam viajar com destemor,
deixando os ares congelados lá do norte,
seguindo em busca de alimento e de calor.
A avezinha solitária, quase à morte,
encontra forças pra voar como um condor!
Talvez a busca de um destino nem lhe importe,
mas bate as asas com vontade e com vigor,
deixando os ares congelados lá do norte...
Nilza Azzi
👁️ 44
Poesia, ah! que te quero!
Poesia assim me escapa
e me deixa triste e só...
Se a vida me desse um mapa
e todo esse rococó
tirasse do meu caminho,
quem sabe, minha Poesia,
eu soubesse o que é carinho;
m sabe a velha alegria
surgisse à frente primeiro,
nesse espaço em que me esgueiro...
Quando chega o desespero,
fujo às pressas, sem parar.
Mas às vezes o exagero
faz com que nos falte o ar;
Poesia, ah! que te quero,
nos sonhos de um mundo aberto!
Por ti eu falo e exagero
e luto por ti decerto.
Doce és tu, viva no sonho,
não nos versos que componho.
Há flores no teu caminho,
que não crescem para mim!
Por certo eu não adivinho
a direção do jardim,
onde vivem, sempre belas,
as ideias e as palavras;
onde não causem querelas;
já não sejam de outras lavras...
Poesia, ah! que te quero!
nesse meu verso sincero.
Nilza Azzi
👁️ 31
Alternâncias
A vida não é pausa, é movimento –
veja a dança de Shiva, a respiração de Bhraman...
E quando um ser se esquiva do compasso,
estaciona.
O sucesso dos que amam
é saber recomeçar.
A cada abraço, a cada beijo,
um novo ensejo; não um fim,
mas recomeço.
A vida não é pausa, é movimento –
seja de sóis, planetas, ventos, águas...
E quando um ser se esquiva, perde o laço,
desmorona.
O fracasso de um viver
é não saber que a vida é essa.
A cada passo, a cada tombo,
não um fim, um novo avesso
pra desvirar.
A vida se renova em sucessão –
veja a dança de Shiva,
de Bhraman, a respiração.
Nilza Azzi
👁️ 41
Comentários (4)
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petrillipoesia
2020-03-23
Belos sonetos!
sergios
2020-01-23
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
filipemalaia
2019-12-31
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
2019-08-02
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!
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