Escritas

Lista de Poemas

Desconcerto


Ah, se magia eu fizesse,
condensaria o azul puro do céu
em um único par de safiras

Com fios de teia invisível
as conservaria suspensas
no horizonte do olhar

Do mar poderia extrair
a combinação mais perfeita
dos pigmentos, o verde cristalizado
duas esmeraldas esplêndidas

Com fios de teia invisível
as manteria plantadas
terra fértil são teus olhos

E em perfeita sanidade
eu suspensa no horizonte
a tela por mim tecida
escolhendo as duas luas
enlouqueço céu e mar

Nilza Azzi
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Fecho de ouro


Fiz um colar usando muitas contas,
contas de pedra, unidas por um fio.
E desse fio juntei as duas pontas;
as pedras todas eram do Brasil.

As escolhi às cegas, meio às tontas,
tal quem navega sobre um mar bravio
e vem a onda e a teu barco remonta,
deixando o convés escorregadio...

Faltava entanto completar a obra,
deixá-la pronta e certa para o uso,
fugindo à forma, para meu desdouro.

Colar perfeito, sem nenhuma sobra,
bem acabado, ainda preso ao fuso:
como arremate, usei um fecho de ouro!

Nilza Azzi
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O estranho


Não te conheço, nunca nos falamos,
mas hoje entramos pela mesma porta...
Atrás de nós florescem muitos ramos
e a floração em cores nos conforta.

Se a natureza esteve um tempo morta,
refloresceu, porque hoje nos amamos...
Já o que passou é vago e não importa;
cantam pra nós, gentis, os gaturamos.

Mas dize, estranho, como pude amar-te
e te entregar meu corpo nesse ardor,
fazer de ti, meu guia e baluarte?

Por ser o afeto um bem que se reparte,
fingiste bem sentir um grande amor
e desse amor soubeste engenho e arte.

Nilza Azzi

 
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Queda


era refratária
ao espanto e à dor
mas diante de si
a parede neutra
era algo maior
a vida sem vontade
a morte sem razão
e o intervalo triste

nilza azzi
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Atirei um cravo n'água


Ando com mania de escrever versos para crianças
mas aquela linguagem simples e inocente me faz falta
ainda que um dia eu tenha sido a menininha que declamava versos
nas datas cívicas e em outras ocasiões
ainda que tantas vezes tenha subido ao palco de vestido branco
falta um "tantinho assim..." para que eu consiga tocar a pureza...
nunca chego até ela e sei que me escapou
ou terei me afastado dela porque tive o sonho de crescer
de fazer parte do mundo adulto onde há grandes pensadores
engodo traiçoeiro que atrai almas ingênuas
depois de ter cruzado o limiar que acolhe gente grande
escorrego na ilusão da nobreza e do altruísmo
sem jamais poder tocar os poderosos
ainda que não resvale no chão cheio de limbo
ainda assim, não quero chegar a descrever
as dores do eu aviltado
cresci, mas não sou grande o suficiente para isso
e os meus versos, ah!, os meus versos são arremedos inúteis
que não ganham prêmios, não recebem aplausos
porque trago na voz o azedume de um adulto
e a falsa educação de não dizer mais o que penso
sem meias palavras
sustentada apenas por cabelos cacheados
e um brilho nos olhos que mal descortinaram o mundo

Não sou mais uma criança e também não sou adulto
a alma veio das alturas, mas anda presa numa carcaça velha
embalagem que a desclassifica para as prateleiras da frente
para a verdade necessária e contundente
de que esse mundo ainda não foi bem sacudido
por tsunamis, terremotos e erupções vulcânicas
ainda não foi bastante ameaçado por asteroides
e cometas vindos do espaço exterior
pelas explosões solares
e pelos desmandos dos homens sobre a Terra
por guerras atômicas e crianças famintas
pela desordem que melhor exporia a nossa pequenez

Então vago perdida pelos sentidos das palavras
sem encontrar um nexo e uma exatidão simples
o sentido da esperança para mim está perdido
na forma extrema de dolorosa e inexorável descrença

Salve, mestre Fernando Pessoa

Nilza Azzi
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A Lua...


A Lua andou escondida
em paragens bem distantes,
mas no céu minha vida
brilha como nunca antes.

Nilza Azzi
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Depressão


Meu soneto desbotou, perdeu a cor
e me conta que jamais falar de amor,
ele irá, pois não consegue ter mais força
e por mais que ele torça ou se retorça,

fica preso numa forma inconsequente,
na aspereza de uma rima repelente.
Como fosse um marginal posto de lado,
já não tem a mesma glória do passado.

Diz que vai fazer as malas e partir;
procurar por novos ares, vai fugir,
pois não quer saber de dor de sofrimento.

Eu lhe digo que isso é coisa do momento,
mas o pobre diz que não e, decidido,
parte mesmo e me deixa deprimido.

Nilza Azzi

 
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Bela


brota uma orquídea amarela
iluminando o xaxim
contrapondo-se ao marrom
explode e confunde o verde
como um pedaço de Sol
solta faíscas de cor
e um odor adocicado.

nilza azzi
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Falsete


As aves em bando, as asinhas brancas...
Partida da tarde e nuvens cinzentas.
As manchas nos campos, já não são tantas;
os homens procuram sua querença.

Viver solitários nos é difícil,
nos vastos rincões, nos ermos perdidos,
coubessem na tarde, os sons; quanto ouvissem
poetas e musas, sábios, peritos.

E lá do outro lado, o mundo desperta,
em oposição ao tanto dormente;
de um lado se dorme, de outro se acorda.

A minha tristeza, a dor, é aquela,
que chega num susto, qual um falsete;
é apenas um erro e a vida é remota.

Nilza Azzi
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Urano


Ó meu amado, o quanto espero ver teu rosto,
bem junto ao meu com terna sombra protetora;
ir por caminhos aos quais dantes nunca fora,
teu coração junto do meu e, justaposto,

de forma tal, que eu não me sinta pecadora,
pelo compasso irregular e tão oposto,
à tua calma compressão, ao antegosto
de passear-te pelos prados, tal pastora.

És para sempre a plenitude em minha vida,
longe de ti o mundo não ganha sentido;
a tua ausência faz de mim um ser disperso.

O beijo doce que conheço e não se olvida,
não encontrei em outra boca; é o preferido
e o meu prazer é do tamanho do Universo.

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!