Lista de Poemas
Dia de chuva
Quatro gatinhos na janela
olham a rua muito atentos,
mas a menina tagarela
não quer conversa com ninguém;
hoje choveu e não há jeito
de ela fazer o seu passeio,
pois vem a enxurrada e traz lama,
e a garotinha fica triste,
por não poder correr na grama:
lá fora chove em profusão
e a tal menina chora em vão.
Nilza Azzi #retranca
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Revisão
Além da lembrança, nos tempos antigos,
a Terra e a Lua girando no espaço,
as águas ferventes, o ar inda escasso,
momentos repletos de tantos perigos...
Nos ovos dos mundos, estranhos umbigos
gestavam as formas, ainda sem lar.
O ventre da Mãe concebia, sem par,
futuras belezas, nas formas mais várias,
enquanto no globo, grupavam-se os párias
marcavam galope na beira do mar.
Depois, o intervalo de calma aparente;
ajustes, encaixes surgiram, sem pressa,
e foi olvidada essa fúria pregressa.
Aos poucos a vida mudou o ambiente
e soube fazê-lo de forma eficiente;
criou condições pra poder respirar,
ganhou as lonjuras, sonhou viajar...
Assim espalhou as sementes dos povos
que foram seguidos por outros mais novos,
migrando, em galope, da beira do mar.
A curta memória criou a ilusão
de certo conforto e até mesmo, de paz;
chegou o progresso com tudo que traz.
Na forma sem freios, ausente a razão,
perdeu-se o controle. Problemas, então,
tomaram de vez a atenção secular;
a terra a tremer e, nas ondas do mar,
perigos, tsunamis, tragédias e dor.
No mundo presente, essa cena de horror:
– fugir, em galope, da beira do mar.
Ao homem, pequeno, perante o universo,
compete rever os caminhos que trilha,
deixar de criar sua própria armadilha,
pois toda medalha contém seu reverso.
Mister, é conter esse estrago disperso
que altera a paisagem e faz duvidar
do nosso futuro; é preciso buscar
mais formas viáveis ao meio ambiente,
dar chance a uma vida que, em festa, apresente,
feliz, um galope na beira do mar.
Nilza Azzi
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Despojos
As sensações deixei atrás de mim
e já não sou quem quer a plenitude.
Se toda vida, um dia, chega ao fim,
não sei por que buscar tudo que ilude.
Na Terra não há bom, nem há ruim:
apenas acontece que, amiúde,
queremos retornar e crer, assim,
que pode, o que passou, ter amplitude.
Porém qualquer sentir é doloroso,
já que resume a perda posterior
e junto da chegada, está a partida.
Andei, por este mundo, comovida,
mas hoje já não penso num amor;
não mais eu creio que me traga o gozo.
Nilza Azzi
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Viagens da Luíza
Conheço muita gente que gosta de frio,
conheço muito mais que prefere o calor;
é muito bom viver nas praias do Brasil,
mas prefiro São Paulo e um bom cobertor.
Espalhou-se a notícia de alguém que sumiu,
alguém que não estava ao inteiro dispor,
na hora da filmagem, que o público viu,
e assim tornou-se um ícone revelador...
Cada qual seleciona um lugar pra viver
todos podem saber, se dá pé, se não dá,
menos a Luíza que voltou para cá.
Acabou-se o passeio, o que se há de fazer?
Sabemos que o inverno anda brabo no norte,
menos a Luíza que não teve essa sorte...
Nilza Azzi
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Lusco-fusco
Na luz da sala havia escuridão,
mas não por zelo. Era o comedimento
que novas gerações jamais verão;
a vida já foi longa, o tempo, lento.
Memória celular, já não acaso,
notícia de jornal, cheia de acento,
a voz, a vez e a volta ao poço raso;
as noites sem dormir um sono isento.
Nos ciclos e nas eras, queimo, abraso,
alheia ao mundo externo. A alma presa
transita entre o avanço e o atraso;
o homem se adianta à natureza.
Se é o calor mundano que seduz,
a vida é muito escuro e pouca luz.
Nilza Azzi
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Mein schatz
Eu contemplei um pôr de sol à beira-mar
e vi a chuva a escorrer pela vidraça;
olhei a Lua e entendi o que é o luar,
pisei na grama e senti tudo que ela passa.
Achei a fonte e compreendi o que é doar
e de um filhote admirei encanto e graça;
ler um bom livro me rendeu prazer sem par
e um vinho seco eu degustei em linda taça.
Ouvi Beethoven, no meu canto, bem quieta
e caminhei no fim da tarde pela areia;
senti o perfume de uma rosa... quase aberta!
Deixei de lado tudo aquilo que me enleia
e do que eu amo essa é a amostra mais seleta,
só pra dizer do amor por ti, que me rodeia.
Nilza Azzi
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Percurso
Fui deixando pra trás os sonhos meus
e assim troquei os passos, fui adiante,
nas escolhas que fiz a cada instante,
nas várias formas de dizer adeus.
E quanto mais sonhei, mais relevante
– ó devaneios pálidos e ateus –
foi a vontade de saber de um deus
que desse a mão ao ser itinerante.
Mas nunca o meu caminho ele cruzou,
para sustar minhas andanças ou
para ajustar meu passo ao paraíso,
ao desapego simples e eficaz,
que o desencanto desta vida traz,
ao despertar mais rápido e preciso.
Nilza Azzi
👁️ 40
Quitanda
São vinte e quatro salgados
congelados e assados
por apenas dez reais,
freguesia, e inda tem mais:
tem sorvete de palito,
pacote com quatro tipos,
pão de queijo congelado
e nhoque resfriado...
Essa turma salva o dia,
pois vende até poesia!
Nilza Azzi
👁️ 20
Canto de arte
Quando às margens da poesia me detenho
e me espelho nessas águas cintilantes,
posso ver que, entre o carvão e o diamante,
sabe ao pó o meu pretenso desempenho.
Sei então que em meu delírio de aspirante,
canto em verso a vida, sem franzir o cenho...
Tal labor requer de mim o mais ferrenho
dos esforços, por querer ir sempre adiante.
E se à arte eu presto enorme desserviço,
quando insisto em escrever, sem que me farte,
por castigo, aceito em paz a minha parte:
– Que se cale à minha volta o tom mortiço
desta verve e seja o bardo rechaçado
e nem mesmo deixe à margem um recado.
Nilza Azzi
👁️ 25
Esforço inútil
Essa minh’alma fraca, tola e revoltada,
e o coração que desconhece o seu lugar,
jamais terão a paz, porque nenhuma estrada
chega ao destino, se o destino é só vagar...
Um dia, eu sei que a solidão fará morada;
descobrirei que não existe nenhum lar
e na poeira de algum vento, serei nada,
apenas grão que às vezes muda, sem cansar,
porque entendeu o imponderável da quimera.
E nesse vácuo explodirá, já sem espanto,
aquela lágrima nos olhos, bem no canto,
logo enxugada pelo ar, tão ressequido;
esforço inútil, sem função, pois que duvido
que fosse mesmo um sentimento... Ai, quem me dera!
Nilza Azzi
👁️ 24
Comentários (4)
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petrillipoesia
2020-03-23
Belos sonetos!
sergios
2020-01-23
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
filipemalaia
2019-12-31
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
2019-08-02
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!
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