Escritas

Lista de Poemas

Ressaca


Quando a saudade bate à minha porta
e os dias decrescentes, outonais,
são sucessivamente desiguais,
nenhuma distração me reconforta.

Indiscutivelmente não sei mais
porque já nesta vida pouco importa
se a linha do destino é reta ou torta;
viver na desventura é não ter paz.

As aves silenciam bem mais cedo
e mesmo quem, do escuro, não tem medo,
vacila quando o sol declina e some.

Se, à dor desse vazio, falta um nome,
o sentimento agudo que me ataca
semelha os vagalhões de uma ressaca.

Nilza Azzi
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Em tiras


Enchem os cestos
de tentativas desastradas
os papéis rasgados

Estímulos externos
conduzem a certezas
acredito que consigo
um bom trato com a palavra
mas não sigo nesse trilho
sei que é falta de juízo

A alma dilacerada
reconhece suas tiras
na lixeira insuficiente

Nilza Azzi
👁️ 22

Noturno


Estrelas desse céu que, sobre mim,
derramam influências tão sutis,
valei-me pelas preces que não fiz,
poupai-me de viver tão triste assim.

Se tudo sobre a terra tem um fim,
(e nada que eu conheça o contradiz)
livrai-me do impossível, outrossim.

Estrelas merencórias do meu sonho,
não posso confessar que me envergonho
de amar com tal paixão – não por enquanto!

E o céu, que a tudo abarca em sua luz,
conclama a não querer o amor – não tanto –
mas ele é o vencedor que me seduz...

Nilza Azzi
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História pequena


Os olhos da velha chinesa,
nos campos de arroz, ancestrais,
têm alma que à terra está presa,
além dos limites da paz...

Atrás do horizonte dos olhos,
nascido de um Sol emergente,
encontram-se, dobram-se os polos
– a vida – calvário dos crentes.

O mundo contido no espaço,
alcance interior da visão,
estende as cortinas – colapso –
o escuro, onde as dores não são.

Os olhos da velha chinesa
esticam as cordas dos sonhos.
Constroem a cena indefesa;
são tela de filmes tristonhos.

Nilza Azzi
👁️ 24

Cantilena campestre


toda vestida de azul ela caminha no sonho
não sei de quando desperta
nem do portal que transponho
na névoa desse luar, na poeira das estrelas
a palha do milho maduro, a terra cheirando a chuva
quem sabe de tal sonhar supõe que consegue vê-las
as promessas do futuro
a colheita de candeias
uma pequena andorinha, ao seu lado revoava
e nas mãos comer, lhe vinha
não! não era sua escrava
naqueles campos de milho, a luz da lua se espalha
nos caminhos por que trilho
todo o milharal farfalha
com o brilho das estrelas, por onde o sonho se escoa
polvilha as luzes mais belas e talha o céu de garoa
para ali os reis já vêm
buscando a presença atávica
a noite sabe a Belém
distante, mas sempre mágica

nilza azzi
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A força


Ela é a força forte que penetra,
com seu falo de luz, serpente alada ,
a caverna matriz, fonte secreta:
luz e sombra são senha nessa entrada.

No mistério do caos, da vida asceta,
brilha a luz, um prenúncio da alvorada;
o princípio de tudo que decreta:
a criação jamais virá do nada.

Mas que não seja a luz jamais direta
e  sua força, a força de uma espada,
não se evada naquilo que secreta
da  fonte escura, em luz escalonada.

Tal disciplina exige a dura estrada
e no saber, contido nesta meta,
não seja o orgulho a busca malfadada,
e  sim a vida, a escolha predileta.

Nilza Azzi


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A um professor


Quando eu crescer, quero ser professor,
como você, de uma classe repleta...
Pelas crianças, fazer o que for,
pois através da esperança e da meta,

elevaremos o nosso futuro.
Melhores rumos daremos ao mundo,
quando encontrarmos um meio seguro
de formação, de um saber mais profundo.

Quando eu crescer, também quero ensinar,
essa é a frase que espero ecoar
nos corredores de nossas escolas.

Com alegria, os alunos, gabolas,
seguindo exemplo concreto e cabal,
tomar seus mestres por seu Ideal.

Nilza Azzi
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Reserva especial


A vindima perfumada
de estrutura poderosa
faz lembrar meu namorado
vindo das terras vulcânicas
a um tempo ácido e seco
com seus toques sensoriais 
vinho claro mas seguro
que sabe à uva e ao mar

Nilza Azzi
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Nas bolhas desse vácuo


Há calma. E se nenhuma ave canta
e morre na garganta o canto meu,
as folhas não se mexem por espanto:
perdeu-se a voz do amor. Que então se grave,

nas bolhas que esse vácuo emudeceu,
a ausência e a condição não desejada
e nada, nada mesmo, eu sei que nada,
da atroz separação trará consolo.

Se o dolo de uma espera sem resposta,
não pode a mim trazer mais nenhum mal,
quisera o bom silêncio da quimera...

Sacode a minha alma em sobressalto
aquela voz, que incauto inda procuro,
no silêncio, tão escuro, de minh’alma.

Nilza Azzi
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O exercício...


O exercício de amar é cansativo;
incansável, o mar conduz-se em ondas...
As verdades da vida são redondas,
morrer é meu destino, mas eu vivo!

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!