Escritas

Lista de Poemas

Alheia

Querido, cujo nome eu esqueci,
nas dobras da memória envelhecida,
sem ti, já não suporto a longa vida,
pois custa-me viver, sem tê-lo aqui,

a segurar-me as mãos com frenesi,
na ânsia que uma vida consolida
e deixa a alma lânguida e aquecida,
e dá-me a plenitude que aprendi.

Evoco a tua face,mas não lembro;
ainda é primavera e já setembro
colore os meus sentidos com perfumes...

Não sei, ó meu amor, por onde andas
e as asas das lembranças, hoje implumes,
circulam pelo campo, entre as lavandas.

Nilza Azzi

 

 

 

 

 

 

 

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Escolhas

Entre as dobras do lençol, a olhar pra mim,
Contemplei-te, plenamente satisfeito...
– Qual um anjo, repousando no meu leito,
Como é bom, ó meu amado, ver-te assim!

Num amor predestinado a não ter fim,
Eram,Tétis e Peleu, o par perfeito,
Conciliados pelos deuses por direito,
Pois o mortal a quisera, até que enfim, 

Quíron contou-lhe o segredo da conquista:
– Tétis, faça o que fizer, jamais desista,
Pois a nereida é esquiva aos pretendentes.

O que Peleu não sabia era que, apenas,
Cederam-lhe a vez, os deuses, complacentes,
Porque almejavam ter vidas mais amenas.

Nilza Azzi

 

 

 

 

 

 

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Transponder


Uma formiga andava pela rua
tão solitária carregando a folha
e procurava na calçada nua
uma passagem – mas não via escolha

Minha passagem não conduz à Lua
no céu tão dupla, resplendente bolha
se a belonave pelo mar recua
longe do fim – que a terra me recolha

Vê-se a respeito desse fabulário
que os animais sugerem prontidão
saber lidar com nosso adversário

De astronomia sei lições em vão
num universo ainda embrionário
vivo dos truques da imaginação.

Nilza Azzi

 

 

 

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Correntes


A voz calada alheia ao meu encanto
pressente as correntezas subterrâneas
por onde viajam todos os pensamentos
... e o mar se agita
o sal por fim afoga a minha sede

Longe de alcance vagam à deriva
então confesso
estranha e companheira 
possuir esse tesouro será sempre
minha quimera 

Nilza Azzi

 

 

 

 

 

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Perfumes e doçuras


A cena era real, idílica e perfeita...

Num banco de jardim, o encontro dos amantes,
e as frases que ele diz, jamais dissera antes,
pois fala ao coração da jovem, sua eleita.

O mundo esmaeceu, quedou-se por instantes,
silente e sem vigor, a pulsação desfeita.
Porém, logo em seguida, o dia se endireita;
e a brisa espalha ao léu, odores intrigantes.

Jamais vivera o deus bonança igual àquela;
podia adivinhar prazeres e venturas,
por ter a jovem flor surgido em sua vida.

Sedento, ele tocou seus lábios – em seguida,
sorveu do doce mel, bebeu da água mais pura,
e Leda então abriu a concha e deu-lhe a pérola.

Nilza Azzi

👁️ 467

Era vidro...


Por ti, esperei à porta do cinema

– o encontro então marcado para as seis –
e sei que esperaria ainda outra vez,
porém isso me causa angústia extrema.

A tarde anoiteceu  e assim desfez
a tola confusão do meu dilema;
sobrou-me, da aflição, a dor suprema,
porque me foste assim tão descortês.

Jamais  tu me explicaste o teu motivo,
nem mesmo uma palavra me disseste,
alheio ao sofrimento que eu revivo.

Conservo essa lição, mas, inconteste,
o meu comportamento é instintivo:
– Não uso mais o anel que tu me deste!

Nilza Azzi

 

 

 

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Prestidigitação

 

 

Na tola insensatez da juventude,  

acreditei no amor e muito amei...  

Amei até demais, o quanto pude;  

amei e fiz de amar a minha lei.  

 

E quem disser: – O Amor jamais ilude! –  

dirá contrário àquilo que mais sei,  

porque meu sofrimento foi tão rude,  

tão rude, que de amar desesperei.  

 

Aquela, a quem dei meu coração,  

levou embora a paz e o meu juízo!  

Embora entenda bem o que é preciso,  

 

jamais lhe sou capaz de dizer: – Não!  

Assim, eis-me vencido, não por mim,  

– a bela é que me arranca sempre um sim.  

 

Nilza Azzi

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Choque

Não há túneis, não há luzes, nem saídas!
Tudo é maia, tudo é falso, é só ilusão.
Coisas passam, como sempre passarão,
intocáveis, persistentes, descabidas.

Entretanto, quando ponho os pés no chão,
como é duro! – E como custam as subidas
que não levam às alturas pretendidas,
sempre ocultam os percalços que virão.

Mas na vida é tão comum que venha um choque,
tão intenso, tão profundo e tão cruel,
que nos roube da apatia e nos desloque,

nos desperte da dormência e de seu fel.
Age assim, nossa existência e, toque a toque,
vai tirando, da ilusão, o espesso véu.

Nilza Azzi
👁️ 390

A chuva e o poema

Chove na madrugada e o sono foi embora,
enquanto a voz do céu escorre pela calha
e a água derretida, um som mais claro espalha
e um galo canta ao longe e diz que está na hora...

Que o dia já começa e a chuva que atrapalha
as lidas da manhã, já está mais fraca agora;
o sol pode varar as nuvens campo afora
e o povo que desperta, esperto se agasalha.

Depois da chuva o ar ecoa ainda mais limpo!
Ruídos de motor mais outros sons garimpo,
enquanto recomeça a chuva mais pesada

e bate no telhado e escorre em enxurrada.
Se, sob o cobertor, meu corpo é um peso morto,
o verso que escrevi é apenas mais um porto.

Nilza Azzi
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Sonho

"It kills me that when you pull up FB
that it asks you what's on your mind."  (E. H.)
Ela habitava os sonhos de um poeta
envolta em seda, o branco do vestido
emoldurava o corpo bem brunido
e vinha a ele andando em linha reta.

Juntos buscaram, longe do alarido,
na rua calma, a forma predileta
de conseguir, do amor, cumprir a meta
e levitar, num mundo evanescido.

E fosse o sonho escolha de quem dorme,
e não o mundo onírico, disforme,
ele a teria nua eternamente,

nos braços seus, no amor que, embora ardente,
fosse assim branco, a nuvem solta e leve,
não a ilusão que a vida nos prescreve.

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!