Escritas

Lista de Poemas

Tristeza III


Ela passou por mim na rua estreita;
tinha um chapéu caído sobre o rosto.
O céu turbou-se em nuvens indisposto...
Acreditei fosse ela a minha eleita!

Distraída, afastou-se e um tal desgosto
tomou conta de mim, fez-me desfeita,
e sem dar trégua, sempre à minha espreita,
largou-me a alma assim, como um sol posto.

O tempo, que a mantém longe de mim,
é o mesmo a me fazer sentir meu fim,
porque sem ela sou qualquer ninguém...

A tristeza que eu tive, e não me tem,
escorreu-me das mãos qual fosse areia
e fez da rua estreita, a estrada alheia.

Nilza Azzi

 

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Busca


A palavra que procuro

e vive a fugir de mim
é feita do som mais puro;
tem perfumes de jardim.

Cintila, às vezes, no escuro
das noites longas, sem fim,
mas se apaga quando juro
que não és nada pra mim.

Nilza Azzi
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Campos e florestas



É tanto verde, e tão junto,

num espaço até pequeno,
que ficamos sem assunto,
na verdura do terreno.

Nilza Azzi
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Tristeza


Encontrei a tristeza numa esquina;
não lhe dei confiança e, mesmo assim,
com seu jeito sem fé, sorriu pra mim;
essa tristeza é coisa das mais finas!

Muito quis evitá-la, mas por fim,
quando enfrentei a lida matutina
e tive que cuidar da minha sina,
achei por bem trazê-la junto a mim.

Hoje não erro em lhe pedir ajuda
e, embora a minha fala seja muda,
ela mantém comigo um compromisso!

E, se me afunda em longa nostalgia,
logo, já se arrepende e se esvazia...
– Será que nunca mais vai fazer isso?

Nilza Azzi
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Um dia

Escreverás poemas sobre mim,
quando passar por ti qualquer lembrança,
presente de um amor, quiçá, que avança
desde os começos, sempre rumo ao fim...

Acordarás feliz a cada dia
a perseguir o tempo – ele não para.
Evocarás a flor que te foi cara
e a ânsia de viver – que consumia.

Quando cair o sol, junto ao poente,
e aquela angústia súplice da tarde
mostrar-te, nas entranhas, quanto arde,

fingindo ser-te um fato indiferente,
com as imagens soltas das quimeras,
sonharás esse amor que não quiseras.

Nilza Azzi
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Ia a Lua


Ia a lua, num passeio com seus raios,
ria solta e leve além da noite azul;
altaneira pelo céu, nos seus ensaios,
enviava doce luz... No extremo sul,

já dormia o velho sol, além de outeiros...
Se na veste branca usava uma estrelinha,
ao reinar, a soberana dos celeiros,
era o sonho do poeta, que detinha.

Se as estrelas lhe serviam de transporte,
do cetim azul das vestes, belas fadas
escolhiam, entre as luzes, quais dispor.

E, no céu, a coalizão tornava forte,
na unidade das matérias coaguladas,
a existência deste mundo multicor...

Nilza Azzi
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Amarelos


Um tiquinho da cor, um retalho singelo,

a ilusão vem do Sol, dos segredos velados.
Aspirado da luz, nos diversos estados,
com filetes de mel, desenhar um castelo.
 
É nas copas do ipê, essa joia dos prados,
e nos lírios que estão, no mais puro amarelo,
as belezas em flor, explodindo... Tão belos,
os detalhes sutis, esses tons aureolados.
 
Num pedaço de céu, faz-se um elo perfeito,
amarelo e azul —  um suave, outro forte—
junto aos mares do sul, os narcisos do norte.
 
Mas nos campos de anis, se fizeres teu leito,
e souberes de amar, quais os elos se fazem,
deixarás, no lugar, ambas, seda e aniagem.

Nilza Azzi
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Sede


Que tentação esse teu corpo varonil,
delineado por firmezas musculares.
O torso nu e a atração do teu quadril,
o cheiro certo que me deixas pelos ares;
 
cheiro de  vida, que a mãe Terra conferiu
e que me atiça, sem cessar, sem que repares...
A natureza feminina, mais sutil,
nota detalhes, mesmo os mais irregulares,
 
não deixa claro o interesse pelo macho.
Mas o princípio não difere muito (eu acho!)
assaz idêntico, o caminho do desejo.
 
Limita, a pele, superfície e precipício
e tudo arde, quando o fogo é mais propício,
na secreção que se prepara para o beijo.
 
Nilza Azzi
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Astúcia


A força de um felino na mulher
escapa pelo olhar que chora arguto.
Controle e persuasão, a voz requer,
pois nela a intensidade do minuto
reboa no silêncio que é mister...
 
O negro da pupila é apenas luto;
espanto pelas grades, sem qualquer
sentido menos claro  –,  resoluto! ­
É mágico, o futuro que ela quer...
 
A fera, confinada numa cela
jamais, de seu saber, algo revela
e a luz só faz brilhar negra pelagem.
 
De fato, o coração palpita rubro
e se consegue a paz, não sei. Descubro
 
que os olhos de pantera não reagem.

Nilza Azzi

N

 

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Veleidade


Nada me importa na aparência de um mancebo,
quer seja belo, seja calvo ou tenha encantos;
que seus trabalhos sejam doze ou outros tantos...
Não me cativa o vate pelo que recebo,
se enxerga luz numa palavra meio torta;
faz ressoar seus ecos sem nenhum arrego
e deixa flores sem bilhete à minha porta;
destila essências de uma fonte que não bebo!
Porém não sei se tal razão é meu direito...
Se falta verve à maioria — o tempo é cedo —
se não se arrisca, segue as linhas meio a medo,
pois meu soneto não difere, contrafeito:
 
— Tem versos fortes;  guarda um ar de bom menino,
mas não fascina, pois não é um alexandrino...
 
 Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!