Escritas

Lista de Poemas

Entrelaços


Entre laços de amor me embaracei
e não fiz fita – fui demais sincera.
Como se o mundo não tivesse lei,
nesse entrelace, eu esqueci quem era.

Teci laços de flores, primaveras
deixei pelos caminhos que passei
e, quando o som de passos reverbera,
a alma pronta espera por seu rei.

Risquei os corações entrelaçados,
os nomes desenhados com espinho,
num tronco, bem à beira do caminho.

Deixei tudo que prende no passado:
Os laços sejam belos  e perfeitos,
mas possam desmanchar, com certo jeito.

Nilza Azzi
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Soneto do verde imoderado

"Então pintei de azul os meus sapatos" 
Carlos Pena Filho

Então pintei de verde os meus cabelos,
sem saber se acertava em tal emprego;
se na guerra e no amor não há sossego,
que morra verde o fruto e sem desvelos...

E o verde mar profundo a que me achego,
levanta, em verdes ondas, pesadelos
que o verde das palmeiras rasga em zelos
e tudo se transforma em desapego...

E na verdura insana da floresta,
vasculho sem saber se ali inda resta
uma esperança, ao menos, a brilhar.

Um vaga-lume o vago verde pisca
e, esverdeada, deixa uma faísca
e se a loucura é verde eu já não sei.

Nilza Azzi
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A dança cósmica


Convém entrar na dança criativa
deste momento, o único presente,
e na roda lembrar que assim faz Shiva
em movimento eterno, permanente.

E enquanto dança e a natureza aviva,
em seu cabelo a forma de um crescente,
já  conduz outra força, a destrutiva,
e tudo volta ao caos de anteriormente.

O mestre, que é senhor do espaço e tempo,
e vive em reclusão nos Himalaias,
dançando sobre a neve é que ele ensaia

o antigo ritual; nesse entretempo,
logo o gelo derrete e um fio esguio
d‘água alimenta a vida – e forma um rio.

Nilza Azzi
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Livro das horas


O outono retornou. De Vésper, às completas,
cintila já uma luz, no vasto escuro, ao passo
que a noite, protetora, acolhe num abraço,
abrigo encantador das obras insurretas.

À terça, à sexta, à nona, ouvir a homilia,
ao frágil coração, dita os sagrados hinos.
Fiz votos de louvor e aceitação divinos,
meu elevado amor, que a mim reconcilia.

Horas em sucessão, quais contas peroladas,
passam por minhas mãos, desde o primeiro raio
da aurora que as transforma em verdes esmeraldas.

A veste faiscante, a chama, o alvorar
e o Salmo que ressoa, das matinas às laudas,
correm da fonte ao rio, sem nunca desviar. 

Nilza Azzi

(tradução do Soneto Mestre)
Livre d'heures - Couronne de sonets
Luce Bühler - Péclard
e-mail: dieter-o-buhler@bluewin.ch
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Lapso


Quando seu coração cansou do sobressalto  
e a voz da sua mente ousou falar mais alto,  
o Amor sentiu a dor infame da ousadia:  
murchou de uma só vez, os sonhos que floria.  

Cupido recolheu as flechas, pois tomara,  
quisera para si a pétala mais cara,  
da rosa ainda fresca, incólume perfume.  
– Depois quedou no ninho, a pobre ave implume!  

Passou um tempo assim, nas asas da crisálida,  
mas, da transformação, cingiu a forma válida,  
no afã de reviver a intrépida aventura;  

a vida sem amor é triste, vaga, escura...  
– Desperta, ó bel Cupido e atira as tuas setas,  
destina a criatura às núpcias seletas.  

Nilza Azzi
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Abandono


Hoje abandono o canto da poesia;
escolho uma palavra e vou pra farra,
ajunto-lhe a segunda, que me esbarra,
e uma terceira, ah, quase me fugia...

Em cada esquina, alguma se desgarra
atrás de si estende a sombra esguia;
samba no pé, desfila a fantasia
depois se vai, fazendo uma algazarra.

E a poesia, esse ideal tão nobre,
nessas palavras já não se descobre;
vistas do avesso, repudia as três.

Quando retorno, não me reconhece
e me abandona, tira-me a benesse,
e o meu sentido esvai-se de uma vez.

Nilza Azzi
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A flor e a terra


Então pediu a flor, à terra por mais viço.
Riscou com a raiz, caminhos rumo à seiva,
depois curvou-se ao sol – perfeita rosa – ei-la
brilhante em seu jardim, porém sem saber disso.

(Fechada em seu botão, à beira de uma leiva
esconde no interior perfumes e feitiços;
contempla o céu azul e o seu corpo roliço,
a chuva, quando cai, de leve, apenas beija.)

Até que desdobrou – tão rosa e delicada
a roupa que ela veste ao tempo da florada! –
aos poucos seu matiz, em pétalas iguais.

Nutriu nesse jardim, até não poder mais,
em busca de seu mel, abelhas, borboletas,
até que desfolhou tingindo a terra preta!

Nilza Azzi
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O tigre


Dorme, sob essa pele espessa e quente,
e sonha devagar, sonha sem pressa,
fera que só conhece, do presente,
esta calma aparente e apenas essa.

No interior da pupila, em cada lente,
rememora a savana e assim regressa
à paz mais essencial, enquanto sente
o mundo que evolui dessa promessa.

Na perfeição que a natureza pinta,
carrega, das espécies, tão distinta,
a marca que lhe coube por herança,

cada detalhe em preto sobre o branco...
Visão tão surreal, chega a ser franco,
o brilho desse olhar que o tigre lança.

Nilza Azzi
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A cartomante


Ela agitou a bola e olhou bem fundo;
logo explicou, tudo é ilusão da mente
e sei por que é assim, exatamente,
é que te opões ao bom e velho mundo.

Tu sofres tanto, quando ninguém sente
a solidão e a dor, cada segundo,
se nessa opinião eu me aprofundo,
é porque és forte, além de renitente.

Mas ninguém leva um fardo além das forças!
Se acreditar em Maya leva adiante
e nos solapa a paz de cada instante,

mesmo que finjas e a visão distorças,
o que o cristal revela, sem embargo,
é que essa escolha deixa gosto amargo.

Nilza Azzi
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Tempo improvável


Quando contempla a sucessão dos dias,
esse rosário de infinitas contas,
que lhe escorregam pelas mãos vazias,
por dedos pasmos, ante as horas tontas,

guarda a tristeza das ave-marias,
das ilusões e das certezas prontas...
Se redescobre o amor e as fantasias,
como afastar as dúvidas e afrontas?

Livra ao silêncio um grito sufocado,
de extrema rebelião, pelo pecado
de amar assim a quem amar não deve.

Mas o inimigo é sempre mais feroz,
tempo suspenso que lhe cala a voz,
pelo impossível desse sonho breve.

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!