Lista de Poemas
Balada do amor além do tempo
O sol se foi, a tarde é quente,
ao longe canta o sabiá,
e o meu amor que vive ausente,
por onde andou, onde andará?
Mas o que importa? É indiferente
se o coração nem se entristece,
procura a paz e tão somente
vive da ausência e cede à prece.
E a solidão é a consulente,
pensa em escolhas, mas não há
na vida, um dom que represente
a garantia; o que nos dá,
depois nos tira. E segue em frente,
quem mais souber ou quem merece
e, por saber-se impermanente,
vive da ausência e cede à prece.
E o que será do ser ingente,
como escapar da força má
que assombra a alma, persistente,
não cede e nunca cederá?
Tudo é acaso, um acidente,
pois quem de amor, pobre, padece,
não tem futuro, nem presente;
vive da ausência e cede á prece.
Ofertório
A ti senhor e confidente,
mais te diria se pudesse
a trovadora que, silente,
vive da ausência e cede à prece.
Nilza Azzi
👁️ 67
Caminho
Quando a chuva nos espera numa curva
e o ar vem exaltar coisas da terra,
uma gama de odores se descerra
e a alma deixa atrás a visão turva.
e a tempestade chove devagar,
mister é que aconteça o despertar
do ser que então vivera desatento.
E, ainda, quando o raio fere o céu
e busca sobre a terra algum contato,
quem pode deduzir só desse fato
que nada vai salvar um infiel?
As gotas são versáteis brincadeiras,
sementes das verdades derradeiras...
e o ar vem exaltar coisas da terra,
uma gama de odores se descerra
e a alma deixa atrás a visão turva.
e a tempestade chove devagar,
mister é que aconteça o despertar
do ser que então vivera desatento.
E, ainda, quando o raio fere o céu
e busca sobre a terra algum contato,
quem pode deduzir só desse fato
que nada vai salvar um infiel?
As gotas são versáteis brincadeiras,
sementes das verdades derradeiras...
👁️ 63
Chamado
Vem, porque tu és a luz
que acorda a madrugada
e traz consigo
a canção do rouxinol.
Vem, porque teu beijo assusta
as sombras deste quarto
e todo espaço em mim
deixa de ter razão
na tua ausência, amor.
Vem, porque te sei capaz
e em sobressalto te criei,
carne em minha carne,
teu gosto antecipei.
Deixa comigo a tua marca
colada ao coração
que há tanto tempo espera.
Vem, como jamais vieste a mim,
em outras eras, outros ais.
Escolhe o lado da cama
que preferes e dá-me a paz.
Nilza Azzi
que acorda a madrugada
e traz consigo
a canção do rouxinol.
Vem, porque teu beijo assusta
as sombras deste quarto
e todo espaço em mim
deixa de ter razão
na tua ausência, amor.
Vem, porque te sei capaz
e em sobressalto te criei,
carne em minha carne,
teu gosto antecipei.
Deixa comigo a tua marca
colada ao coração
que há tanto tempo espera.
Vem, como jamais vieste a mim,
em outras eras, outros ais.
Escolhe o lado da cama
que preferes e dá-me a paz.
Nilza Azzi
👁️ 65
Solvência
Solve-me inteira, no calor do teu desejo,
sol dos meus dias, força mágica, escaldante.
Enquanto espero no suspense deste instante,
perscruto além desse horizonte em que te vejo.
Enquanto a lua enluarada num lampejo,
morre de inveja por saber-te meu amante,
ao céu diurno vem, espia e segue adiante,
pois não consegue compreender o que eu festejo.
Como é que posso ser feliz se me desfaço,
se do meu ser sobram faíscas e estilhaços,
sou só um gasto de energia e me consumo?
Vivo feliz, porque a fusão torna evidentes
as diretrizes que norteiam o meu rumo;
só me diluo porque a alma assim consente.
👁️ 38
Diálogo do desencanto
− Ando triste, bem querer, pois nesta vida,
já não acho mais lugar para o deleite...
− Das palavras que lhe escrevo, alguma aceite
e não ceda a qualquer medo que intimida.
− Neste mundo há tanta coisa descabida,
mas também há, reconheço, muito enfeite...
− Os caminhos não são retos, então respeite
a prudência que o saber sempre valida.
− Não alcanço tal virtude; é quase vão
pôr o manto da esperança e ir em frente...
− A verdade é uma avalanche que transforma,
mas não faça da tristeza vez e norma!
− Bem o sei e não seria indiferente,
se o viver não fosse em suma, solidão...
já não acho mais lugar para o deleite...
− Das palavras que lhe escrevo, alguma aceite
e não ceda a qualquer medo que intimida.
− Neste mundo há tanta coisa descabida,
mas também há, reconheço, muito enfeite...
− Os caminhos não são retos, então respeite
a prudência que o saber sempre valida.
− Não alcanço tal virtude; é quase vão
pôr o manto da esperança e ir em frente...
− A verdade é uma avalanche que transforma,
mas não faça da tristeza vez e norma!
− Bem o sei e não seria indiferente,
se o viver não fosse em suma, solidão...
👁️ 45
Despertar
A tarde foi dormir, cansada e langorosa
e tudo aconteceu, depois do pôr do sol.
Cabia num abraço, a luz desse farol,
a lua em pleno céu, a paz de que se goza.
Do nada, pude ouvir: ─ Bom dia, preguiçosa! ─
e em susto, respondi: ─ Bom dia, rouxinol! ─
e novamente a luz brilhou sobre o lençol
que rescendia a flor, aroma de uma rosa.
Nas brumas da manhã, um som repercutiu:
o tom da tua voz, tranquila e eloquente,
bailava pelo ar, suspenso por um fio.
Num súbito clarão, não mais que de repente,
minh’alma se desfez, num rápido arrepio
e tudo era um vulcão de lava pura, ardente.
e tudo aconteceu, depois do pôr do sol.
Cabia num abraço, a luz desse farol,
a lua em pleno céu, a paz de que se goza.
Do nada, pude ouvir: ─ Bom dia, preguiçosa! ─
e em susto, respondi: ─ Bom dia, rouxinol! ─
e novamente a luz brilhou sobre o lençol
que rescendia a flor, aroma de uma rosa.
Nas brumas da manhã, um som repercutiu:
o tom da tua voz, tranquila e eloquente,
bailava pelo ar, suspenso por um fio.
Num súbito clarão, não mais que de repente,
minh’alma se desfez, num rápido arrepio
e tudo era um vulcão de lava pura, ardente.
👁️ 38
Meu querer
Rasgar os véus da noite, antes que chegue a luz,
sentir que te querer vai longe e mais além
das raias do meu ser, do sexo e também
dos rios, em que deságua, a flor que me seduz.
Beijar teu corpo inteiro, além do que supus,
o colo, o ventre, o sexo, e tê-la, como quem
jamais teve na vida a fome de outro alguém.
Mulher, tu és meu mar, meu porto e minha cruz!
Deter-me no teu leito, até não mais poder
falar ou respirar, em êxtase profundo,
até me esvaziar de mim, todo meu ser
unido ao teu sentir, apenas num segundo,
a súbita explosão, a ponto de morrer
e enfim ressuscitar nos olhos teus, meu mundo.
Nilza Azzi
sentir que te querer vai longe e mais além
das raias do meu ser, do sexo e também
dos rios, em que deságua, a flor que me seduz.
Beijar teu corpo inteiro, além do que supus,
o colo, o ventre, o sexo, e tê-la, como quem
jamais teve na vida a fome de outro alguém.
Mulher, tu és meu mar, meu porto e minha cruz!
Deter-me no teu leito, até não mais poder
falar ou respirar, em êxtase profundo,
até me esvaziar de mim, todo meu ser
unido ao teu sentir, apenas num segundo,
a súbita explosão, a ponto de morrer
e enfim ressuscitar nos olhos teus, meu mundo.
Nilza Azzi
👁️ 38
Resgate
Desde as névoas dos sonhos do passado,
eis que ele veio a mim, tão sedutor...
De quem já não sabia o que era amor,
fez reflorir o mundo desolado.
Se falou sério, foi muito arrojado
e, ao despertar minh’alma do estupor,
virou do avesso a vida e um outro lado
mais verdadeiro ousou assim expor.
Herói das lendas que hoje me arrepia
e faz vibrar meu ser, a cada abraço,
se irá deitar, em minha cama, um dia,
é previsão incerta e não a faço,
porém bem sei que, nessa fantasia,
já me enredei nas malhas desse laço.
Nilza Azzi
eis que ele veio a mim, tão sedutor...
De quem já não sabia o que era amor,
fez reflorir o mundo desolado.
Se falou sério, foi muito arrojado
e, ao despertar minh’alma do estupor,
virou do avesso a vida e um outro lado
mais verdadeiro ousou assim expor.
Herói das lendas que hoje me arrepia
e faz vibrar meu ser, a cada abraço,
se irá deitar, em minha cama, um dia,
é previsão incerta e não a faço,
porém bem sei que, nessa fantasia,
já me enredei nas malhas desse laço.
Nilza Azzi
👁️ 30
Imprevisível
Imprevisível seu rolar na cama,
o sono, o sobressalto, o hálito quente,
o semblante maroto de quem ama
e guarda em si o segredo da semente.
Quase um murmúrio o nome que ela chama,
enquanto sonha alguma cena ardente,
e a expressão sensual revela a flama
e o cheiro de seu corpo, o que ela sente.
Dorme o tempo, esquecido nas cobertas,
uma réstia de luz vai pelo quarto,
faz dançar a poeira que desperta.
A vida é sucessão da dor dos partos
– começa pelas bocas entreabertas –
eclode no calor de amantes fartos.
Nilza Azzi
👁️ 373
Ângelus
Os velhos sinos, aos domingos,
num breve instante, às seis da tarde,
detém o tempo, um tempo ainda,
calam os sons, antes do alarde,
vistos de longe, tão minúsculos,
extasiados, ante o crepúsculo
que não, não quer se abreviar;
desdobra-se em tons coloridos,
− rubro, rosa, cinza e violáceo −
suspensos no azul luminoso,
origem de angústias e gozo.
Nilza Azzi
👁️ 324
Comentários (4)
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petrillipoesia
2020-03-23
Belos sonetos!
sergios
2020-01-23
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
filipemalaia
2019-12-31
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
2019-08-02
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!
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