Escritas

Lista de Poemas

Analogias


Luz do pensamento, asas da alegria,
águas no deserto, em manhãs tão brancas,
flor de buriti, a enfeitar barrancas,
um bom cobertor, numa tarde fria.

A bebida quente, lá pelas tantas,
pôr do sol perfeito, cor que irradia;
de uma torta doce, a melhor fatia,
a pergunta esperta e as respostas francas.

Louco espaço-tempo da minha mente,
tudo que acontece de mais frequente
são analogias que ninguém vê;

tudo que desperta em mim um sorriso,
tudo que há de raro e de que preciso,
confesso que só pode ser você…

Nilza Azzi
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Asas


Cansei de amar a quem já não me quer!
Vou sair pelo mundo e ganhar asas,
abusar da poesia que extravasa
e obrigar a palavra ao seu mister.

Cansei de ser um zero à esquerda, rasa,
conforme à situação de ser mulher;
de ajustar-me ao teu gosto e de qualquer
conversa tua que me ponha em brasa.

Depois, quando eu voltar, feliz e alada,
talvez me dês valor e olhes pra mim
como a luz que clareia a tua estrada;

talvez entendas que meu verso enfim
encontra em ti a melhor pista e nada
vai me livrar de amar-te tanto assim.

Nilza Azzi
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Dantesco


Havia monstros azuis incandescentes
e outros vermelhos, girando ao meu redor.
Havia dor, muita dor, nesse ambiente,
de um tipo tal que não deve haver pior

e a luz perfeita de um céu indiferente
a incidir sobre a pedra do altar-mor.
Era o inferno de Dante à minha frente?
Era pior que eu pensara e bem maior.

Tornava em bênção a pena mais temida
e a sujeição pela espera, num suplício.
– Seguir sem fim, condição da prória vida!

Como sofrer fosse um fardo vitalício
e aquele horror –  um fantasma suicida –
uma cilada na estrada, um precipício.

Nilza Azzi

 
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Baya


Uma jovem princesa do Oriente,
beleza ímpar, corpo escultural,
apaixonou-se tão perdidamente
–  ele era herói a combater o mal.

Peixe Dourado, entanto indiferente,
não compartia sentimento igual;
em sua saga, curvas e vertentes,
buscava unir-se à Rosa, outra vestal.

Havia um rei, um homem mau, tirano,
que a jovem Baya cortejava certo
de tê-la um dia, em seus braços reais.

Sem sonhos, sem vencer o desengano,
foi ela ao cais, a ver o mar de perto,
e da princesa ninguém soube mais...

Nilza Azzi

 
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Galáctica


Meu namorado colhe estrelas, tece os ramos
que me oferece, azuis clarinhos, cintilantes...
Dispõe tapetes só de flores onde estamos,
onde sorvemos luz e amor, a cada instante.
Sua presença traz ao mundo a cor dourada;
faz coração vibrar num sentimento puro.
ele é presente, ele é passado, ele é futuro.
Meu namorado põe a luz no meu olhar
e o mundo faz girar veloz à minha volta;
com devoção conduz minh’alma a apreciar
a imensidão... Tal qual um raio, ela se solta
dessa prisão e, sem temer mais coisa alguma,
alcança os sonhos das venturas, uma a uma.

Nilza Azzi

 
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Desidratação


Destrói o que seria o seu jardim em flor
e deixa, em todo espaço, um ar de desencanto...
Não há mais alegria e nem perfume. É tanto
o mal que prevalece e lhe desbota a cor.

Morreu desde a raiz, a vida desse canto;
dos ares da esperança, a dor não vai dispor.
Retrato em branco e preto, a forma bicolor
revela a emoção, melhor que a cor, garanto.

Contudo, na lembrança, a rosa permanece
e o seu perfume apraz à mente desgarrada,
do bem que alimentou, da ausente clorofila.

A cena do passado, a imagem que desfila,
indica que perdeu vitalidade e nada
sobrou daquele amor, lembrança de outra espécie.

Nilza Azzi
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Prognose


Ninguém pode viver a dor que é minha
ou mesmo  compartir minha alegria.
A vida nunca segue a mesma linha
– é cheia de contrastes, eu diria...

Percorro meu caminho, tão sozinha,
vivendo a solidão das companhias
e o mundo, ao me fitar, não adivinha
o quanto a minha alma se arrepia.

Badala o velho sino de uma igreja.
As ruas mais desertas seguem tortas.
Desdobram-se as esquinas dos meus medos.

Confesso ter morrido ainda cedo.
Fechadas, encontrei todas as portas.
Não vejo no futuro um bem, que seja.

Nilza Azzi
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Vespertinas


És a minha alegria, meu pesar,
toda loucura dos meus dias tontos,
um tesouro perdido a procurar
– a soma inútil de todos os pontos .

És a cor mais escura a fazer par
com o contraste desses brilhos prontos...
As luzes da cidade a cintilar,
meros sinais de certos desencontros.

E não sei se te quero ou te rejeito,
estranho amor, que permanece além
daquilo que se entende por um bem.

Um mal comum, mas que me causa efeito
– um salto que se aborta pelo medo –
e a noite colhe um dia meio azedo.

Nilza Azzi
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Camuflagem


Ramos,  guirlandas, flores em cascata
alcatifaram toda a rodovia.
Por ela caminhei, cheguei à mata,
àquela onde cantava a cotovia.

Toquei, ao alaúde, a serenata,
contei segredos, mas não entendia
porque meu coração jamais acata
a voz que o adverte todo dia.

Há nítidos sinais por toda parte,
mas não posso entender essa mensagem
– a Lua lá no céu me desconcerta !

Quisera ter nascido mais esperta,
agir como os heróis dos filmes agem
e ir viver nalgum jardim de Marte.

Nilza Azzi
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Derrota


Guardei a minha força, meu tesouro,
no castelo secreto, na alma fria;
naquele sonho inerte que anuncia:
– dos bens, apenas um é duradouro.

E digo, é bem discreta esta alegria,
porém tem um sabor imorredouro.
Um dia, do crisol, emerge o ouro;
previu-se já que assim é que seria.

Na busca por sentido, a vida escoa,
na luta entre as forças, claro, opostas,
na ânsia de ganhar qualquer pessoa.

Se Atlas leva o mundo em suas costas,
sou fraca de uma forma que destoa...
Sucumbo à tal tarefa a mim imposta.


Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!