Escritas

Lista de Poemas

Destino


Quando parti, levando a minha trouxa
e te deixei, plantado em teu assento,
o coração batia mais violento;
a alvorada era uma mancha roxa.

E, se eu estava lúcida a contento,
a minha vida,  já desfeita e chocha,
me parecia estúpida e tão frouxa;
não mais continha graça nem alento.

Mas, ao dobrar a esquina, tudo foi
mudando e, assim, eu vi que estava certa,
pois, se ao sair larguei a tua oferta,

o teu pedido, agora o que mais dói
é ter tornado a minha vida incerta,
mas essa é mesmo a sina do poeta.

Nilza Azzi
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Desafio


O que diria o Amor, à nossa volta,
ao constatar que nos queremos tanto?
– Esbarraria mudo em tal encanto,
a se abrasar nas chispas que ele solta,

o nosso amor, alheio ao seu espanto,
e, embevecido, em calma contravolta,
nos seguiria e nos faria escolta,
para aprender de si um novo canto.

E o que será que nós, assim perdidos,
em tal enlevo, ao susto de Cupido,
como resposta ao deus, teríamos feito?

Ao sermos um, os dois, em nosso leito,
e ao lhe sorrir, qual fôssemos crianças:
– Que tal ser sonho  em fúlgida bonança?

Nilza Azzi
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Desejos


Quero, do amor, a parte mais preciosa,
a porção mais real e verdadeira;
quero do amor, apenas que me queira
e não me deixe triste e desditosa.

E quero amar sem medos e sem pejos,
quero esquecer de mim, viver a entrega
que sabe ser completa e, amor, não nega
doçuras e o ardor tão benfazejos.

Quero abraçar teu corpo e, do teu cheiro,
fazer o meu perfume predileto
e que entre nós não haja qualquer veto.

Quero sonhar o sonho por inteiro
– que, presa enfim ao teu abraço forte,
esqueça o mundo, nada mais me importe.

Nilza Azzi
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Canto d'aldeia


Mais uma tarde chega e minha aldeia,
nessas horas tristíssimas do dia,
envolve em luz as nuvens e arrepia
a franja do horizonte... A lua cheia

sobe no céu, enquanto a aragem fria,
enevoando os prados, volta e meia
junta o capim e no seu canto enleia
grilos e sapos; rompe a calmaria.

Se, no escuro da noite, é tão pequeno,
esse pedaço de terra e, mais sereno,
dos lares, o recôndito sagrado,

sempre há luzes acesas (e outro fado),
a se estender, por este mundo vasto,
porém nesse meu canto, a mim, me basto.

Nilza Azzi
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Devaneio


Eu e você, nós dois, sob o chuveiro,
e a lembrança das horas que passamos:
como bambus ao vento nossos ramos,
a balançar na chuva o dia inteiro.

Se me deste prazer, se nos amamos,
como se fosse em nós amor primeiro,
guardo comigo o doce do teu cheiro;
a viva sensação dos teus reclamos.

Depois, foi dos teus braços o conforto,
o teu jeito de rir, meu chapéu torto,
ao café da manhã, pãezinhos quentes,

essa delícia inquieta da ventura,
o corpo em alvoroço que procura,
nos mesmos velhos ritos, novas lentes.

Nilza Azzi
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Baliza


Hoje eu chorei a dor da minha vida,
que dói tão fundo e nunca se amortiza;
lavei a alma e a pendurei, torcida,
onde não bate sol, nem sopra a brisa.

E quando escorre informe e diluída,
na solidão dos ermos, nem me avisa
que vai fazer sangrar esta ferida
e me deixar num canto, sem baliza.

Mas entre a alma e a dor existe um pacto
de não sofrer além de um tempo exacto,
porque doer a vida sempre dói...

Depois do choro, sempre estou mais leve
e, já que a vida é curta, é muito breve,
não vou fazer do pranto o meu herói.

Nilza Azzi
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ainda assim


se entre nós houvesse uma certeza
e a vida me ensinasse o que fazer
quando a paixão me dói de tão acesa
e o corpo quer cumprir o seu saber

se as dores que vivi e as que virão
coubessem numa concha perolada
e depois do fim na mesma estrada
a nos unir restasse a solidão

se tudo fosse apenas o punhal
a doer na carne tanto e tanto
que já não mais coubesse nem espanto

por reviver o mesmo e velho mal
meu bem, ainda assim serias luz
um brilho que me atrai e me seduz


nilza azzi
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Dimensão Paralela


Existe um chão sem formas onde piso,
chão das maiores dores e tormentos,
onde estás, não estás, e o paraíso
foge do alcance toda vez que tento

chegar mais perto. E perco meu juízo,
porque o amor não sabe ser isento.
Há uma sede em tal chão e o que preciso
é chorar junto ao mar, secar ao vento,

como roupa em varal, sem resistir,
sem receio do tempo ou do porvir;
apenas roupa, sem nada por dentro.

E, desse ponto, o céu parece perto,
tão lindo, tão azul e tão deserto,
salvo uma nuvem solta, bem no centro.

Nilza Azzi
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Bucólica


E fosse Thalia a Graça mais formosa,  
entre as formosas flores do jardim,  
teria a forma pura junto a mim:    
― espinho sem valor de alguma rosa!  

E, da desgraça, o meu sofrer sem fim,  
que escorre pela roda preguiçosa,  
comprime em filamentos qualquer prosa,  
até verter do sangue a cor carmim.  

E fosse eu porventura um ser alado,  
por Zéfiro soprado até seu lado,  
para agitar-lhe as ondas dos cabelos,  

Amor, jamais queria a dor de havê-los,  
os olhos teus, além dos meus, distantes,  
e achar-me desterrado, como dantes.  

Nilza Azzi
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Despedida


Não foi um grande amor, o que eu senti por ti.
Também não foi paixão; paixões não são assim...
Nem mesmo foi razão do meu melhor poema;
foi simples ilusão que um dia chega ao fim.
Não sei se dependeu de mim esse desfecho
se a vida é que nos traz tais peças porque quer
passar-nos as lições ainda não sabidas
difíceis de aprender, para qualquer mulher.
Amor eu não senti, e afirmo sem receio:
– Jamais meu coração ficou partido ao meio.

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!