Lista de Poemas
Assim foi que chorei...
"No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho"
(Carlos Drummond de Andrade)
(Carlos Drummond de Andrade)
No meio do caminho estava ela
e não era a pedra, era a palavra
foi quando tudo deixou de ser simples
e o meu horizonte escureceu
A palavra não era a pedra
nem o caminho do meio
era o meio e o caminho
era o meio do caminho
era tudo que se via
Não havia como desviar
impossível um ar de indiferença
uma simulação de que não vi
Não! Prosseguir sem enfrentá-la
nem pensar, nem sequer uma chance
de agir como a água e contornar
passar ao lado, assobiando baixo
sem um ai ou mesmo um arrepio...
Era o obstáculo real
o reconhecimento de que escarnecia
da natural forma de dizer-se
ainda assim pensei em algum truque
a forma mais banal de solução
Pensei em dar um salto, ultrapassar
a sua arrogância, o desacato
porém aquela força intimidou-me
desisti do trajeto bloqueado
Se não puder vencê-la, dizem todos...
Juntei-me à palavra atravessada
deixei crescer o nó pela garganta
e rolei em regato vida afora
Nilza Azzi
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Natividades
O amor é feito amor,
num dia.
Mesmo sem esperança,
a alegria brota.
Sete crianças,
numa praia de areia
branca,
convidavam
para a festa
de seus sete anos...
Tudo era a carícia calma
do sol no corpo
e a sagração da vida
ali mesmo se fazia.
Sete vezes sete,
é curta a espera,
quando o amor
torna-se amor sem tempo
e pronto!
Nilza Azzi
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Quereres
Querer-me-ia sozinha
tão eu mesma e tão alheia
ensimesmada em meus sonhos
num mundo sem pesadelos
sem o medo do abandono.
Querer-me-ia distante
tão dona de mim, tão minha
presa ao meu mundo tranquilo
num tempo sem novidades
sem saudade do futuro.
Num susto, vi-me tão perto,
tão longe dos meus quereres.
Nilza Azzi
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tronco
teu tronco
faz-se em retas curvilíneas
onde cravo minhas gavinhas
em avanço na escalada
até que possa
alimentar-me, a tua seiva
nilza azzi
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Silêncio
Há calma! E se nenhuma ave canta,
e morre na garganta o canto meu,
as folhas não se mexem por espanto.
Perdeu-se a voz do amor e então se grave,
nas bolhas que esse vácuo emudeceu,
a ausência e a condição não desejada
e nada, nada mesmo, eu sei que nada,
da atroz separação trará consolo.
Se o dolo de uma espera sem resposta,
não pode a mim trazer mais nenhum mal,
quisera o bom silêncio da quimera...
Sacode a minha alma em sobressalto
aquela voz que, incauta, inda procuro
no silêncio, tão escuro, de minh’alma.
Nilza Azzi
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Encanto quebrado
"São onze e meia da noite, /e eu quero ficar contigo.
Quero menos paciência /e um pouco mais de loucura..."
(Balada das Onze e Meia)
Joaquim Pessoa
Quero menos paciência /e um pouco mais de loucura..."
(Balada das Onze e Meia)
Joaquim Pessoa
Essa eterna meia hora
em que as regras são quebradas.
Esse tempo de loucura
permitido pelas fadas...
Entre a meia e a noite inteira,
eu quero ficar contigo.
Pois com menos paciência,
de decência, um pouco menos,
já não se ouvem os galos,
só temos a nossa estrada.
Entre a meia e a noite inteira
me puxas pelos cabelos
e eu quero ficar contigo.
Entre a meia e a noite inteira,
Lua cheia nos lençóis
e, na nossa carruagem,
escolha do coração,
sempre clara é essa imagem
tão distante da razão.
E nesses trinta minutos,
eu quero ficar contigo.
Os nossos corpos são frutos,
mantenho os olhos enxutos.
Chorar o encanto quebrado,
o espanto e talvez o olvido,
contanto que eu vá embora,
são onze e meia da noite,
é coisa de meia hora.
Será que vais encontrar
o cristal ali esquecido?
Nilza Azzi
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amar é doce
na vez do encontro
meu coração dispara
e nesse ponto
descubro o quanto é cara
a tua voz
e sei o quanto é doce
estarmos sós
nilza azzi
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Ai, que saudade!
Ai, que saudade
da vida que vai tão longe
de um sonho que o tempo esconde
nas horas tristes do dia...
Ai que vontade
de ser um lugar tão perto
a vida depois da curva
e o céu a descortinar
não fosse essa mancha turva
nem tampouco a solidão...
Nilza Azzi
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Pobre
Um coração de pedra
uma alma líquida
medra um sofrimento
nesta vida insípida
escorreguei na chuva
a voz se foi num susto
e o custo disso é alto
é estranho ao conhecer
a casa do outro lado
e o lago silencioso
Nilza Azzi
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Gota d'água
"Só percebemos o valor da água, depois que a fonte seca"
(Provérbio Popular)
será
que cai
se esvai
assim
sem que
ninguém
pense em
seu fim?
porém
se vai
ao chão
em vão
já lá
não há
quem vê
perder
valor
sem fim!
mas a
secar
o lago
o rio
pensei
então
só vai
chegar
pra mim...
e quem
virá
depois
de nós
só vai
poder
viver
se for
lhe dar
valor.
nilza azzi
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Comentários (4)
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petrillipoesia
2020-03-23
Belos sonetos!
sergios
2020-01-23
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
filipemalaia
2019-12-31
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
2019-08-02
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!
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