Escritas

Ela escrevia assim

Nilza_Azzi
Tenho as palavras à mão, 
mas não sei lidar com elas...
Sem meu estro, sou apenas 
extravagante impressão.
Num espaço sem fronteiras, 
abeira-me a solidão.
Nestes versos me desfaço; 
deixo manchas no papel,
mas meu céu é sempre baço. 
Sim, disfarço nas medidas,
em loucuras, contrassenso; 
repenso tudo outra vez.
Vou queimando as letras todas, 
em cortinas de fumaça
e ultrapassa-me a vontade 
de essa verdade esconder.
Toda terra tem seu sol; 
toda lua, a poesia,
mas meu dia, sem farol, 
é maldade sem sentido.
Corto o verbo; não olvido... 
Ah! Teimosa poesia
vai e fala mal de mim: 
– Ela escrevia assim... vazia...
(inocente desse amor) 
gastou-se, sem me esquecer.

Nilza Azzi
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