Escritas

Lista de Poemas

Amor sagrado

 “L’amour est ta dernière chance.
        Il n'y a vraiment rien d'autre
        sur la terre pour t'y retenir."
                          ( Aragon)
                                     (O amor é sua oportunidade final.
                                      Na verdade, nada mais existe
                                      para prendê-lo à Terra.)


Ao começar, a minha voz já anuncia,
amo as palavras, elas são meu alimento.
E amo amar, viver de amor, porém comento
que, com certeza, meu amor traz alegria ...

Mas, se o amor dá sempre o tom do que é real,
então eu amo, amo sempre, mesmo quando
estou desperta, ou mesmo, quando estou sonhando.
Às vezes sim, às vezes não. Isso é normal.

Assim desvela a realidade do viver,
o que aparece no exterior é tão somente,
da vida interna, só uma ponta pertinente,
ao vasto mundo que faz parte do meu ser.

Pois o alimento mais profundo, esse, retive-o,
é o bem sagrado, o bem restrito, o indizível.

Nilza Azzi


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vida

o que dizer dessa festa
tão selvagem
que mistura e confunde
coragem e covardia
e coloca assim juntos
o joio e o trigo
não tão indistintos
nem tão emaranhados
diante do olhar adormecido
que desperta quando chega o dia!

nilza azzi
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Flores

                       Vou compor um ramalhete
                       Com flores do meu amor
                       Desisti, vão sem bilhete
                       Apenas aroma e cor

                       Não vou mandar entregar
                       Nem mesmo escolhi um cartão
                       Prefiro eu mesma levar
                       Vão da minha pra tua mão

                       E no palco de minh'alma
                       Onde a faina tem efeito
                       A primeira que se espalma
                       O antúrio é o eleito

                       Diz ele da tua fé
                       Cumprir a lei do serviço
                       De uma entrega que assim é
                       Um divino compromisso

                       Em seguida o girassol
                       Flor de grande intensidade
                       Da manhã ao arrebol
                       Fala sobre a dualidade

                       A camélia é aquela
                       Que ensina pelo exemplo
                       Não se toca em flor tão bela
                       Respeita-se como um templo

                       Vai também maracujá
                       Já entre nós exaltada
                       Unindo os lados que há
                       Na identidade apartada

                       Magnólia e açucena
                       Pelo perfume que exalam
                       Da verdade sempre plena
                       E da confiança falam

                       Hibiscos em várias cores
                       Chamado da existência
                       A vivermos os amores  
                       Cuidar da sobrevivência

                       Um mandacaru colhido
                       Nos albores da manhã
                       Coloquei sem alarido
                       Por mostrar da alma o afã

                       Orquídeas, singelas, raras
                       Trazem noção da unidade
                       Por todas as vidas caras
                       Busca da fraternidade

                       E finalmente vêm rosas
                       Rosas todas, cores mil
                       Das singelas às pomposas
                       dizem do amor mais gentil

                       Nilza Azzi
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Espaço sagrado

Um canto em mim, eu reservei, desde pequena,
e ali guardei tudo de bom, que à vida trouxe
(a minha alma) e disfarcei a minha pena,
pra proteger do mundo insano a parte doce,

o bem sagrado. Terei eu alguma essência,
a depurar, neste viver equivocado?
Guardei pra ti o bem maior, a excelência,
a poesia, a alegria, a voz do bardo.

Mas tu não chegas, o Olimpo fica longe,
como Abelardo pode ser, sejas um monge,
e  Heloísa só te ama porque quer.

Se num passado estivemos lado a lado,
na imagem pura desse espaço consagrado,
és o meu homem e eu sou tua mulher.

Nilza Azzi
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Laços

Caminhada rumo aos céus,
momento do nada.

Sem definição a nos unir,
morre minha vida ao longe.

Invade-me a força do teu ser.
Esmoreço. Entrego minha morte.
Incita-me o amor.
Reconheço razão no prosseguir...

À criança assustada, a mão,
um olhar. A voz muda
determina a liberdade.
Me apago.

Teus pés, pegadas fortes, beijo
e choro em solidão.
Afagos tentam suprimir
cansaço longo (com esmero).

Sei a despedida a aprender.
Sempre possibilidade
novo laço. Amar e desatar.

Nilza Azzi
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Pena capital


Faz frio. É noite. Há fogo aceso.
A chama em claridade brinda.
Ao penetrar o corpo ileso
o lume se desfaz e finda

em sombra. No espaço sem peso,
a mente descansa. Bem-vinda,
a certeza de ser coeso
o ardor de vê-la assim tão linda,

em contraponto àquele céu
anil. Sentir tão dentro tal
espanto. Procurar seu mel,

aspirar à entrega total,
apenas ser um simples réu:
o amor a pena capital.

Nilza Azzi
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Trilha


se nas reviravoltas me cansei das luas

e se dos girassóis já se perdeu o encanto
é que uma primavera foi embora um dia
e nunca num verão eu soube o que era amar

pintei minha loucura em cor bem transparente
deixei no céu o adeus sem mesmo refletir
nos braços que partiram já não choro mais

se os restos de um poema são de cor brilhante
e a trilha das palavras vem do pensamento
além do imaginário tine a realidade
certeira e mais cruel do que qualquer inferno

mas se numa recusa há sempre uma esperança
repousam vinho e mel nos campos semeados

nilza azzi
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Quando...

Quando chove, e a chuva manda,
um ar fresco, limpo e úmido,
leio um livro na varanda,
enquanto me olhas, tímido.

Nilza Azzi
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Sem medidas


É quando a tarde cai, e o Sol se esconde,
e a noite chega rápido, e me alcança,
que não posso esquecer-me da criança
perdida, não sei quando, não sei onde.

Não é tristeza, não, ou dor que vaza,
também não é saudade o que me agarra.
É mais a nostalgia... Aquela farra,
na rua, ao fim do dia, em frente à casa.

O espectro da noite, e não me iludo,
era uma ruptura, o adeus à vida,
a forma de aprender que, descabida,
um dia chega a morte e leva tudo.

Enfim, quando declina, em seu processo,
o dia, e só nos sobra a escuridão,
as mágoas, uma a uma, todas vão
juntar-se desmedidas, pois não meço
o tempo, pelos frutos da estação.

Nilza Azzi
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Divagação


Para falar da dor, uma palavra: – Basta!

mas ao falar de mim, confesso que não sei,
se aquela que busquei foi pecadora ou casta,
contida ou arrojada, em vidas que sonhei.

Ao se falar do amor, despreze-se à Jocasta
que ao filho se entregou, desrespeitando a Lei
e a sorte lamentou, na sina tão nefasta.
Eu já não sofro a pena, a sorte revirei.

Em busca da Palavra, eu sigo vida afora
e já não tenho filho ou homem que me atarde,
não creio na ilusão, nem Édipo me castra.

Das vinhas colher mel, é o meu desejo agora
e ao mestre tão atento, eu digo com alarde:
– Na fala do Poeta, há um sonho que se alastra.

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!