Escritas

Lista de Poemas

De um baú...

De um baú, bem lá do fundo,
tirei uma pedra branca,
mas descobri, num segundo,
que o tal baú não tem tranca.
Co'a pedra fiz um anel
que tinha as cores do céu,
quando refletia a luz...
O anel ficou no meu dedo
e, quando ele não reluz,
não sei porque, sinto medo.

Nilza Azzi
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O luar...

O luar da madrugada, no céu limpo,
que clareia pela sala o chão de terra,
as tristezas de minh'alma, ele descerra:
− lua branca, só tu sabes o que sinto...

Nilza Azzi
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Aprendi...

Aprendi a chorar cedo demais,
e a sorrir comecei já bem mais tarde,
entre os dois, já nenhum me satisfaz,
pois prefiro um silêncio sem alarde.

Nilza Azzi
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Anauê, Krexu (Cretchu)


Certo dia, conheci abaetê,
entre os brilhos da formosa airumã, 
quando ainda não nascera um novo oirã,
e crescente, ia subindo airequecê...

Aprumado, vou saindo da carioca
se um caboclo chega e diz baixo:-Anauê!
Muito antes do começo de aracê,
lá na ocara chega quem saiu da oca.

Os carinhos, eu relembro, da cunhã
os sussurros em seu doce abanheém
e não quero ter que ouvir nhenhenhém...
Como é bom rolar por esse ybytatã!

Eu me sirvo da tigela de açaí, 
depois cuido de plantar uma juçara.
Bem pertinho, vou ouvindo nhambiquara,
que me aponta ao longe o belo ybacoby.

Não há mais escuridão, porque yami
foi expulsa lá nos lados de araxá.
De partida, levo junto o meu puçá;
sem demora me encontrei com meu guri.

Vou pisando no capim, o aguapé
colherei, porém não antes de virã.
Ao voltar celebraremos... Anacã!
Boa festa tem presença de avaré!

Animado vou tocando maracá;
trago as honras de um valente guarini,
que chegou, glorioso, vem de anomati
e só quer rever, feliz, seu doce obá!

Mbyci (Bartira)

*exercício poético em que as rimas são vocábulos do tupi-guarani
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Máscara


Sem metro, sem rima, sem pausa, sem cor,

perdidos no espaço, sumiram de vista;
são mil fragmentos... por mais que eu insista,
eu não reconheço um pedaço, um valor

daquilo que outrora chamou-se razão.
São tantos pedaços que ao mundo entreguei...
O mais puro afeto, ao capricho da Lei
escapa de mim, e eu não tenho noção

daquilo que espera por mim de ora em diante.
Então eu não quero ser mais comportada,
eu rompo com tudo e caminho adiante,

cantando revolta e tristeza guardada.
A vida é cruel, é uma dor delirante:
a poesia mascara essa dor tão danada.

Nilza Azzi
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Inferno


Esse inferno, lugar de solidão,
é por vezes o céu em que eu habito,
onde as luzes eternas brilharão,
só quando for calado o último grito.

E a solidão, procura do infinito,
a forma mais real deste meu chão,
faz flutuar, alheio e esquisito,
o anseio que as manhãs jamais verão.

E o parco dos recursos, que aqui tenho,
aguento, sem franzir sequer o cenho:
– As brasas, sempre vivas, encobertas,

que queimam, descartadas as ofertas,
de todas e quaisquer outras saídas, 
sem céu e sem razões desentendidas...

Nilza Azzi
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Impressões

Essa forma liquefeita
se me escorre,
tal recuo das marés.
Deixa conchas cintilantes
– na areia esponja – 
bem debaixo dos meus pés,
as casquinhas já vazias...
Esses mundos submersos
meu terreno,
as escarpas abissais,
os taludes traiçoeiros escorregam
amplitudes naturais.
Quanto mais eu trago ao mundo
mais palavras,
mais realço as profundezas.
Veladuras de metais,
esse choque de texturas
não explica a cena, o quadro;
deixa apenas impressões...

Nilza Azzi
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Águas de julho


Raio e trovão, a chuva cai bem forte;
lá fora é frio e dentro é quase morte.
É feito pausa extremamente longa
que mora n’alma e nela se prolonga.

E a chuva sempre modifica o ar,
ora mais leve de tanto chorar
ora mais claro, pois que foi lavado,
depois que a chuva foi para outro lado.

Porém sem chuva, sem a tempestade
que, de repente, a nossa vida invade,
não sobra  graça, brilho à luz do sol,

fazendo o arco em cores no arrebol,
nem a candura que se experimenta,
quando afinal acaba-se a tormenta.

Nilza Azzi
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Arranjos cósmicos


Quase notei, o vento no meu rosto,
uma emoção guardada só pra mim,
embora fosse um mimo já suposto.
 
Recordação de um tempo sem ter fim
invade a alma com grande doçura,
deixando um leve cheiro de jasmim.
 
Onde, no tempo, tua essência pura
passou por mim para falar de amor?
A imensidão testemunhou a jura,
 
unindo o céu completo em luz e cor.
Lendas distantes, calor envolvente;
o imemorial jorra avassalador,
 
fazendo a estrada sempre diferente,
embora brilhe nessa mesma luz.
Rolam as águas vindas das vertentes,
 
nascem segredos, bardo que seduz...
A nova aurora guarda o seu segredo;
nunca abandona a quem lhe faça jus.
 
Depois da esquina, da dobra do medo,
o coração só quer saber de amar
como sinal que ―seja tarde ou cedo,
 
o mundo vai se desacelerar.
Sonhar enfim com encontrar guarida,
ter no universo, um único lugar,
 
na fonte certa, a água preferida.

Nilza Azzi #terzarima
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Sensações de Inverno


No inverno desolado, a cada dia,
o tempo escoa lento e rigoroso,
entanto, se a coberta é bem macia,
encontro na estação, deleite e gozo.

Se acordo cedo, a névoa delicia
confere graça ao campo, inda brumoso,
e o chocolate quente é uma alegria; 
reconfortante, além de delicioso...  

E quando à tarde, espio da janela 
o fim que mais e mais, já não se arreda,
nenhuma sensação é como aquela;             

no azul do esquecimento a dor se hospeda,
o dia chega ao termo e nos revela
gentil, no firmamento, um sol em queda.

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!