Lista de Poemas
Testamento
Em bela caligrafia,
registro minhas previsões
para um futuro sem rima.
À margem, anoto, a esmo,
observações sem sentido
sobre o meu poema barato.
Imprimo o mata-borrão
e tenho cópia em espelho...
Escolho um velho envelope,
guardo o papel bem dobrado,
derreto o lacre na chama
e selo o vão conteúdo.
Marco a data de abertura,
num feriado do futuro...
Coço a pinta no nariz
e caço a velha vassoura
que nem sei onde ficou.
Nilza |Azzi
registro minhas previsões
para um futuro sem rima.
À margem, anoto, a esmo,
observações sem sentido
sobre o meu poema barato.
Imprimo o mata-borrão
e tenho cópia em espelho...
Escolho um velho envelope,
guardo o papel bem dobrado,
derreto o lacre na chama
e selo o vão conteúdo.
Marco a data de abertura,
num feriado do futuro...
Coço a pinta no nariz
e caço a velha vassoura
que nem sei onde ficou.
Nilza |Azzi
👁️ 31
No limiar da natureza
(“Se é de metal, minha visão atina
e ao pedregulho mais comum eu canto.” — Bento Ferraz)
Percorro as poucas ruas do meu bairro,
as casas que contornam labirintos,
os muros, pelo musgo escuro, tintos,
as portas e janelas de madeira,
um gato que aparece e já se esgueira,
a velha que me espia da janela,
a jovem sorridente e muito bela,
e tudo que provoca algum espanto,
se é natural, minha visão atina
e o pedregulho mais comum eu canto,
porque, se a natureza me convida,
não posso desprezar o seu chamado.
No mundo, eu não me sinto deslocado,
meu bairro é sempre cheio de surpresas
e posso descobrir muitas belezas,
apenas, ao dobrar qualquer esquina:
Se é natural, minha visão atina
e o pedregulho mais comum eu canto
e, assim, a cada pedra eu amo tanto,
pois pedras também guardam sutilezas
e nada do que vejo é permanente...
As nuvens condensadas pelo céu,
os pássaros, em súbito escarcéu,
acabam por gravar-se na retina.
Se é natural, minha visão atina
e o pedregulho mais comum eu canto...
Meu canto almeja ser um acalanto,
qual música suave das esferas,
os sons que já vararam tantas eras,
ou mesmo o próprio Verbo sacrossanto!
Quem dera que o meu canto fosse ouvido,
tal fosse uma verdade cristalina!
Se é natural, minha visão atina
e o pedregulho mais comum eu canto,
assim evito apenas que o meu pranto,
vertido por tristezas inconfessas,
percorra as muitas ruas e travessas
do bairro onde nasci, faz algum tempo
e os sonhos que deixei no calçamento
e a paz sejam reais, e não promessas...
À paz, a inteligência se destina!
Se é natural, minha visão atina
e o pedregulho mais comum eu canto.
A pedra não tem vida e, entretanto,
não causa nenhum mal ao semelhante.
Inerte, seu valor é mais constante,
que aquele do mais mísero animal.
Afeito a fazer bem, só faz o mal,
e atinge com furor seu semelhante,
esquece que o Amor é dom vital.
Nilza Azzi
#poema com mote migrante
👁️ 17
Velha toada
As flores que vi na estrada
toldaram meus pensamentos,
não deixaram sobrar nada
atrás dos meus passos lentos.
Na praia vivo do vento
que sopra vindo do mar;
em terra, mas que tormento,
jamais paro de pensar.
Entre flores, ventos, ondas,
desisto de procurar;
não acho quem me responda
quantos peixes tem o mar.
Meu amor, na maré cheia,
catei conchas, persegui
caranguejos pela areia,
mas não te encontrei ali.
Foi nos ares da montanha
que encontrei alguma paz;
o silêncio me acompanha:
pensar, já não penso mais.
Nilza Azzi
toldaram meus pensamentos,
não deixaram sobrar nada
atrás dos meus passos lentos.
Na praia vivo do vento
que sopra vindo do mar;
em terra, mas que tormento,
jamais paro de pensar.
Entre flores, ventos, ondas,
desisto de procurar;
não acho quem me responda
quantos peixes tem o mar.
Meu amor, na maré cheia,
catei conchas, persegui
caranguejos pela areia,
mas não te encontrei ali.
Foi nos ares da montanha
que encontrei alguma paz;
o silêncio me acompanha:
pensar, já não penso mais.
Nilza Azzi
👁️ 94
Se essa lua...
se essa lua, se essa lua fosse minha
eu pedia, eu pedia pra entregar
lá na rua onde existe uma casinha
que seria mais bonita 'inda ao luar
nilza azzi
eu pedia, eu pedia pra entregar
lá na rua onde existe uma casinha
que seria mais bonita 'inda ao luar
nilza azzi
👁️ 23
Ser flor...
ser flor
e nada ser antes de abrir-me
como se o imo revelado
ainda guardasse o pólen
para abelhas que passeiam
carregadas de amarelo
nilza azzi
e nada ser antes de abrir-me
como se o imo revelado
ainda guardasse o pólen
para abelhas que passeiam
carregadas de amarelo
nilza azzi
👁️ 35
Estragos de mim...
Estragos de mim esses olhos
em seus caminhos indiscretos
penetram as sombras sem medo
descobrem alternativas
Começos de mim essa boca
faminta por beijos errantes
Numa tela de Djanira
a vida plana como um rio
escoa a luz do momento
reflete os desejos sinuosos
Entre as negras sobrancelhas
surge um vinco involuntário
Nilza Azzi
👁️ 223
Vou pra Jabuticabal
Vou pra *Jabuticabal
– vou colher jabuticaba –
escolher em qual quintal
a fruta nunca se acaba.
Gosto de manga com sal;
pode ser verde, a goiaba,
desde que não faça mal,
eu como e não fico braba,
mas em Jabuticabal,
sou pajé da minha taba.
Nilza Azzi
*Jabuticabal: cidade do interior de SP
– vou colher jabuticaba –
escolher em qual quintal
a fruta nunca se acaba.
Gosto de manga com sal;
pode ser verde, a goiaba,
desde que não faça mal,
eu como e não fico braba,
mas em Jabuticabal,
sou pajé da minha taba.
Nilza Azzi
*Jabuticabal: cidade do interior de SP
👁️ 84
Tenho medo
tenho medo
tenho medo de ti como de um rio
cuja profundeza não conheço
medo das águas agitadas e escuras
da correnteza que escorrega sobre as pedras
e dos caminhos longínquos e perdidos
tenho medo de ti, dos teus segredos
das tuas noites solitárias, dos teus ermos
da inconstância que me assusta os sonhos
da tua força sem medidas sobre o tempo que vacila
tenho medo da tua sombra sobre mim
tenho medo de ti como de um lago
dessa calma sempre atenta de águas claras
da grandiosidade do céu sobre as montanhas
vendo a pequenez do barco sobre as águas
os limites do horizonte ao fim da tarde
tenho medo de ti como de entrar no mar
quando as ondas me puxam para o fundo
mas atraída pelo impulso das marolas
busco o prazer de navegar nesse teu mundo
nilza azzi
tenho medo de ti como de um rio
cuja profundeza não conheço
medo das águas agitadas e escuras
da correnteza que escorrega sobre as pedras
e dos caminhos longínquos e perdidos
tenho medo de ti, dos teus segredos
das tuas noites solitárias, dos teus ermos
da inconstância que me assusta os sonhos
da tua força sem medidas sobre o tempo que vacila
tenho medo da tua sombra sobre mim
tenho medo de ti como de um lago
dessa calma sempre atenta de águas claras
da grandiosidade do céu sobre as montanhas
vendo a pequenez do barco sobre as águas
os limites do horizonte ao fim da tarde
tenho medo de ti como de entrar no mar
quando as ondas me puxam para o fundo
mas atraída pelo impulso das marolas
busco o prazer de navegar nesse teu mundo
nilza azzi
👁️ 22
Vazios
Eu tenho as mãos geladas, olhos baços,
sem ti, o mundo, inerte, perde o viço
e a vida se desfaz num tom mortiço;
sem ti, tudo me escapa, faltam laços...
Os dias vão e vêm, e nem por isso
serão os meus desejos, mais escassos,
nas horas que me escapam aos pedaços,
sem graça, pois me falta o teu feitiço.
A noite chega cheia de arrepios,
mas sonho que divido a minha cama
contigo, que teu corpo por mim clama,
porém meu leito assoma em seus vazios
e sem o teu calor, não tenho nada:
— A noite é uma esperança esfarrapada.
Nilza Azzi
sem ti, o mundo, inerte, perde o viço
e a vida se desfaz num tom mortiço;
sem ti, tudo me escapa, faltam laços...
Os dias vão e vêm, e nem por isso
serão os meus desejos, mais escassos,
nas horas que me escapam aos pedaços,
sem graça, pois me falta o teu feitiço.
A noite chega cheia de arrepios,
mas sonho que divido a minha cama
contigo, que teu corpo por mim clama,
porém meu leito assoma em seus vazios
e sem o teu calor, não tenho nada:
— A noite é uma esperança esfarrapada.
Nilza Azzi
👁️ 45
Fascínios
Em face a borboletas e corujas,
escolho as borboletas, por que não?
As borboletas, co'as patinhas sujas
de pólen, entre as flores, sempre são
presenças delicadas, são beleza.
Encantam todos, sempre uma atração,
as borboletas, leves, indefesas...
Nilza Azzi
escolho as borboletas, por que não?
As borboletas, co'as patinhas sujas
de pólen, entre as flores, sempre são
presenças delicadas, são beleza.
Encantam todos, sempre uma atração,
as borboletas, leves, indefesas...
Nilza Azzi
👁️ 19
Comentários (4)
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petrillipoesia
2020-03-23
Belos sonetos!
sergios
2020-01-23
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
filipemalaia
2019-12-31
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
2019-08-02
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!
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