Escritas

Lista de Poemas

Desfalando


um gato na lua
uma sombra na rua
um palhaço que atua
e a goiaba ainda crua

uma bala de festa
um mosquito na testa
um sagui na floresta
isso é só o que me resta

Nilza Azzi
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Sensação

passou a pata
pousou o pássaro
voou o tigre pela savana
bebeu a água qualquer girafa
quicou o Sol sobre a montanha
terra africana, bruta,  selvagem

nilza azzi
👁️ 79

Emoção

Inventei a paixão quando cheguei ali,
na janela da alcova. A copa, o cambuci,

as flores sensuais, o ambiente de sonho.
Um pedaço de céu que a cortina mostrava,
a sagrada impressão dos amores perpétuos
e meu corpo fremente a palpitar por ti.

As loucuras que fiz... Depois horas mansas,
o tempo de fruir do teu abraço quieto.
Na lembrança ficou, aquela flor sedosa
e a luz do teu olhar, meu doce colibri.

Nilza Azzi
#ghazel
👁️ 72

Primavera ardente


A tarde estava quente e seca
o ar pesava sobre a Terra,
havia um coração ferido,
nos termos qua a razão alerta,

as nuvens combinavam cinzas
com esta dor que existe em mim,

os sorrisos não afloravam,
o olhar mantinha-se triste,
morava o horizonte distante;

na atmosfera tudo para;
logo a tempestade dispara.

Nilza Azzi
#retranca
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Safra antiga

Do seio de Deméter a fartura
depende da semente e cada grão
brotado é uma seara já madura,
oferta aos ceifadores que virão.

Perséfone acompanha seu marido
e desce às profundezas... Chora a terra!
O inverno deixa o mundo comprimido
e um branco vasto e puro se descerra.

Porém, na primavera, ela retorna
ao lar da deusa Ceres, linda e pura.
Florescem campos, vales, e a bigorna
trabalha admirável armadura.

A força produtiva, o alento pródigo,
suspenso no recesso, ausente a filha,
Deméter, ressarcida, entrega o código
e assim a safra d’ouro ao sol rebrilha.

Nilza Azzi

 
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Ondas

A onda que afoga meu ser em tristeza,
por nada se explica e em nada começa.
Engole meus sonhos, tranquila e sem pressa,
e afunda no abismo, minh’alma indefesa.

É um mundo perdido que a dor atravessa,
e nele não sobra nem luz, nem beleza.
Somente a saudade é que ali vive presa
a quando esta vida era sempre promessa.

Mas dizem que o mar, devolvendo às areias,
qualquer corpo estranho, em marés, quando cheias,
promove a limpeza das águas... Decerto,

mais limpa é a praia, em lugar mais deserto,
e as ondas que vêm e que vão, sobretudo,
não podem roubar-me a coragem... E eu mudo!

Nilza Azzi
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Natureza reciclada


Entre brotos e botões, a primavera

tece o rubro colorido e se prepara,
com a cor mais adorável e mais rara,
e com calma, pouco a pouco, ela se altera.

Foi preciso um ano inteiro e quem repara
nos galhinhos que dormiram longa espera,
entre os raios, sob o sol, vê que prospera
um vermelho intermitente e uma tiara,

debruçada sobre o arco, adorna a entrada.
Logo, logo as flores vão formar cascata:
À visão de intensa cor, atordoadas,

borboletas... As asinhas abstratas
das abelhas, transparentes – quase nada – 
e avezinhas com seu canto e passeata...

Nilza Azzi
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Fonte

o meu desejo por você vem das águas primordiais,
porque lá, um dia, estivemos em comunhão,
partilhamos a graça de um só coração
e flutuamos, em êxtase, qual feto
que desconhece em seu destino
uma separação!

o meu desejo por você 
vem do barro de que fomos feitos
ao emergir da águas para os céus,
onde o ar suavemente nos secou
e o fogo nos forneceu impulso,
para que pudéssemos carregar
cada qual, o nosso próprio Ser,
insuspeita ainda a dor da Queda,
a saudade de nossa inocência...

então, quando irrompe,
meu desejo brota, poro por poro,
em gotas d’água cintilantes!
eu me molho por você,
como um cântaro saturado,
que não pode mais conter
a umidade transbordante.

em meu desejo por você,
eu, líquida, sou fonte única 
a matar a sua sede;
sou lembrança das origens,
na memória resguardada.

sereia de canto mágico
aguardo em águas amenas,
mas a intenção, não duvide,
é levá-lo a nadar comigo,
eterno mar abissal!

Nilza Azzi

 

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Rua


Num caminho diferente
Passeiam gentes e sonhos
Estes são muito concretos
Aqueles totalmente aéreos

Ninguém encontra conversa
A rua é vasta e desocupada
E no fim é tudo igual 

Nilza Azzi
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Madrigal das margaridas

No verde dos canteiros, surgem os botões
que vão tomando forma, esticam sua haste
e deixam ver o branco, em tímido contraste.

Passeiam joaninhas, buscam os pulgões,
numa colônia imensa, parecem milhões...
Nem mesmo água de fumo, nada há que os devaste!

É deixar que algum tempo passe e os afaste...
Passeio diariamente a olhar esses canteiros
e um dia percebo que se abrem os primeiros

botões, cuja pureza envolve o amarelo,
num branco petalado, em torno do miolo.

Depois é um mar gentil de flores espalhadas;
esqueça o bem-me-quer... Isso é papel de tolo!

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!