Escritas

Lista de Poemas

domínio


deixo meus dedos passearem pelo teclado
com a mesma impaciência
com que desenhava a lápis sobre o papel
palavras nascidas da memória antiga
e dessa intimidade sem fronteiras
retiro dos sentidos que me restam
os sons velozes das vogais
e as esperanças surdas das consoantes
procuro as sensações inusitadas
de quando se combinam as verdades
em vocábulos tontos de tristeza
em palavras loucas de alegria
e quando o espaço todo se recobre
de preto tanto quanto posso dar de mim
procuro descanso numa praça
e espero que essas aves tenham asas

nilza azzi
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lembranças


quando me apaixonei
o mundo apagou-se ao meu redor
e só ganhava cores quando estavas por perto

quando me apaixonei
as palavras perderam o sentido
e a única língua importante era a que falavas

em sonhos te envolvi
cada cuidado, cada escolha
tudo que fazia era pela vontade de ser bela aos teus olhos

em desejos me abismei
em descobrir mistérios me envolvi
ao querer mergulhar nos teus olhos negros memoráveis

as horas só valiam partilhadas
o sentido e a razão eram-me nada
e tua camisa azul entreaberta me fazia sonhar com teus mamilos

os sonhos só me valiam por tua voz
quando falavas era o canto enternecido
e as ideias semelhantes sobre a vida era tudo que importava

quando me apaixonei
tua presença ao meu lado era dádiva
eras o homem mais completo que eu jamais conhecera

quando me apaixonei
seria capaz de desfazer-me de mim mesma
para que o mundo fosse a liberdade que entendias

...e soube o que era a dor
a certeza da duração impossível
as feridas que trazíamos em nossas almas tristes

nilza azzi

 

 

 
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Inconstância


Na terra em que havia palmeiras
e o sabiá com seu canto
habitam jovens faceiras
mas seu mundo é desencanto.

Foi-se embora o trovador
num navio sem destino
a cantar versos de amor
e a sofrer por desatino

Nilza Azzi
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Passado


Debrucei-me sobre as minhas incertezas
todas presas por um fio, meio suspensas
como contas de um colar, as minhas crenças
a vacilar labaredas mal acesas...

Depois me ergui, enfrentando indiferenças,
sem entender bem o vão das sutilezas...
Guardei num susto as palavras todas presas
e desdenhei de aventuras mais intensas.

Enfim parti à procura de outros ares,
para enfrentar a pressão que cresce farta,
além  da  dor, sem sinais particulares...

Atrás de mim não imprimo qualquer marca,
jamais espero que um dia tu me ampares,
nessa esperança, minh’alma não embarca.

Nilza Azzi
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Transparências


A libélula voava tonta à beira do lago,
inocente, sem suspeitar de qualquer perigo.
O ar já continha em si um peso vago
e a água refletia apurado brilho.
Na calma da campina, em meio à floresta,
os insetos noturnos, um mundo à parte...
Às margens do largo rio era manifesta
a justa da divisão do que se reparte.
Havia ali um quê de tempo suspenso
e as palmas contra o azul mal se balouçavam...
A lua seria cheia, a maré sem vento
e havia o homem perfeito que me amava.

Mas tempos são pouco firmes e mudam sempre,
transformam em poucas horas a paisagem.
O que soprava no alto, ora sopra rente,
e aos saltos, a forma elástica estica a imagem.
É certo que a solidão pode ser benquista,
se a forma de se entender conduzir ao nada,
se a luta pelas certezas que se conquista
transpassar a iridescência da alma alada.

Nilza Azzi
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Linhas cruzadas

Para Dudu Oliveira

Vi o fio bem esticado,
mas mesmo assim tropecei
me atrapalhei nas palavras
e não consegui tocar
seu âmago, seu sentido

Nas linhas eu me enrolei
desenhei um zigue-zague
juntei frases desconexas
enfrentei os meus pecados
e desfiz-me em personagens

Bem do topo da montanha
olhei um mar sem sentido
a banhar areias brancas
mas vacilei nas palavras
e perdi encanto e vez

Nilza Azzi
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Paisagem


a chuva agradável
fininha, constante
envolve a paisagem
na névoa dos pingos
e tudo se torna
suave e disperso

nas brumas da tarde
o dia adormece

nilza azzi
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O Mistério do nada

extraí, do nada, o menos um
um zero e uma fração do infinito
que é nada, sendo tudo em dimensões
vazias, exteriores, estrangeiras

fiz poesia do nada misterioso
do abismo dos espaços estelares
das formas sem limites ou fronteiras

extraí do nada irrevelado
o sumo do sagrado e do profano
de mundos silenciosos, isolados
que me dão sede de beijar a tua boca

nilza azzi
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Nostalgia

Perdi meu amor, é verdade,
num trem que há muito partiu.
Comigo resta a saudade
da aventura que vivemos,
dos banhos de cachoeira,
dos passeios pela praia,
da conversa sem sentido,
naquele banco da praça...

Lá foi meu amor num trem
que partiu há muito tempo
e meus olhos já cansaram
de perscrutar o vazio,
aquela curva do rio
que hoje lembra o nosso adeus.

Nilza Azzi
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Encontro romântico


O meu amor não teme as madrugadas
e vence o frio e a chuva sem receio.
Caminha, vem de carro ou outro meio
de transporte, por ruas alagadas...

O meu amor me olha e diz que é feio
usar qualquer desculpa esfarrapada.
Denota indiferença pela amada,
mandar uma mensagem por correio.

E para estar comigo, no meu leito,
escolhe o seu perfume mais cheiroso,
aquele que ele sabe ser perfeito,

num gesto delicado, afetuoso.
Assim, desejo vê-lo satisfeito
e faço a minha parte por seu gozo.

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!