Escritas

Lista de Poemas

Pausas


Na fonte das certezas e dos medos
escorrem  meus silêncios, minhas pausas,
enquanto  uma esperança morre cedo
e a minha solidão tem sombras rasas.

Esgotam-se as nascentes, calam vozes,
permutam-se as vontades por promessas...
As horas cada vez vão mais velozes
e apontam as loucuras inconfessas.

Na rua um carro breca, em sobressalto,
entendo que o perigo é sempre esperto.
O som de uma buzina é qual arauto
e o sonho me adverte de algo incerto.

O dia ­─ mais um dia ─ vai ao meio
e deixa em minha alma outro receio...

Nilza Azzi
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Fina estampa


Foi a mentira seu estandarte,
mas é a verdade o que o incomoda.
Quando o egoísmo entra na roda,
falha o juízo sempre e dessarte,

se fabricar mitos é moda,
parece fácil, quase uma arte.
Só não percebe tal disparate,
algum otário que, nessa, roda.

De fato a vida imita a novela
e chega-se a crer no mal impune
– da personagem, mal falo dela.

O bom sujeito parece imune,
mas tem perfil de um tagarela,
sério sinal de seu mau costume.

Nilza Azzi
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Atrás do vento


Agosto já vai longe e eu cansei de esperar...
Enquanto setembro com jeito e com graça,
desdobra-se em flores por tudo que passa
e o vento carrega os perfumes, e o ar

recende as fragrâncias sutis, entrelaça,
juntando buquês, num só e mesmo lugar,
carrego comigo a missão de juntar
as flores diversas que encontro na praça.

Nilza Azzi

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Voltas


Quanto mais, quanto menos te vejo,
mais percebo a doçura que falta
no meu dia, na noite, no ensejo,
desse olhar cuja ausência ressalta.

Quanto enlevo, nos ais dos cortejos,
e outros mais nas conquistas em alta.
Quanto amor eu não cri benfazejo
e, por menos, larguei sobre a pauta.

A medida dos passos que avanço,
se esta rua dirige-se ao caos,
não permite chegar ao seu fim.

Sem a trégua de um mero descanso,
sem um ponto de fuga, entre os vaus,
há tristezas que vivem em mim...

Nilza Azzi
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Fada


Ao ouvir essa voz,  gentil,  cortês,
entre mil guardarei no mais secreto,
no local onde a luz então se fez
e, ao cegar-me, deixou-me sem afeto.

Essa voz murmurou, dizendo assim:
–Se é um falso brilhante, quem repara?
Nessa dança, que apenas cabe a mim,
no “bandeide” nem pense, ó minha cara

a criança, ao crescer, terá seus calos...
Destruí meus fantasmas, sobra então,
um vazio, onde mora apenas nada.

Se há coragem, então venha tomá-los,
os espaços e esqueça o que dirão.
Traga junto uma estrela, minha fada. 

Nilza Azzi
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O amanhã


Como dizia Scarlet na tarde,
terra nas mãos e lágrimas na face,
vem novo dia, enquanto nos céus arde,
de novo, o sol, e nada há que não passe.

Nilza Azzi
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Esquecimento


Quis fazer uma quadra perfeita
ancorada nas regras reais.
Quando o Sol no horizonte se deita
os teus braços me trazem a  paz.

Quis fazer, mas perdi a receita,
não sei mais como quadra se faz
– se depende das linhas estreitas
ou da pausa que encerra os finais.

Sem receita, meu verso capenga
e não sabe por onde caminha,
vai perdido, banal ladainha.

Este verso que agora definha,
acabou por virar lenga-lenga,
abatido, uma peça molenga.

Nilza Azzi




 
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Nebulosa


O amado surge e o horizonte brilha
em cintilações de luz, em cor e festa.
E o cheiro do capim dessas manhãs
rescende ao bom odor da terra bruta.
Por onde andei, em solitária estrada,
longe de ti, ó força de minh'alma?
Somente atrás da pequenina chama
do amor que vislumbrava prado além;
em busca da estrelinha sobre o monte,
nas tardes de perdida escuridão...
Não sei! Nem sei de como estás diante de mim,
atrás das névoas de ilusões tão fortes.
Diz, meu amor, da essência dessas flores,
do encantamento dos jardins celestes;
e dessas vinhas de cachos maduros
das fontes virgens cujas águas cantam
outras canções, das quais não falaremos...

Nilza Azzi
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Velas ao vento


Na linha do vento, prossigo sem lei,
singrando esses mares, tão verdes, além...
Acima esse teto de céu azul rei,
meus rumos tomei, não me curvo a ninguém.

Se o vento se acalma ou se estaca de vez,
eu paro e contemplo a existência ao redor,
mas quando ele sopra, bem doce e cortês,
eu sou vela inflada e navego melhor.

No mar da poesia, as palavras eu pesco
e, ao tempo do vento, seguimos velozes,
nos damos as mãos, em completa união.

Os meus sentimentos aos verbos eu mesclo,
exponho minh'alma e juntamos as vozes
— veleiros ao vento, os meus versos se vão...

Nilza Azzi
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gato-poesia


meu gato-poesia espia
e mia em cima do muro
inseguro, lambe as patas
espreme os olhinhos amarelos...

se teme o inimigo ancestral
bem ou mal, enfrenta o perigo
e junto ao perdigueiro vai brincar

nilza azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!