Lista de Poemas

Na minha janela

Cercado por conhecimento
Não sou menos escravo do que um operário.
Sou pior!

Soterrado por livros
Respiro com dificuldade,
Sufocado pelo verso,
Afogado na prosa,
Eu vivo - ou finjo viver.

E mesmo tendo fontes de ambrosia
Para o meu regalo,
Dou preferência à janela
Onde me debruço.
Não por amar a morte,
Mas por aprender mais com o que ela me mostra.

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Bando

Eu passarinho, canto lá
Tu passarás, não mais
Ele passará, um dia
Nós passaremos, será?
Vós passareis, até que...
Eles passarão, não! Já passaram.

Entre Eu e Ele, um espanto de beija-flor.
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Sobre homens

O homem não nasce do ventre feminino
Nem é identificável pelo falo entre as pernas,
Também não é o que come várias mulheres,
Muito menos é aquele que possui pomo-de-adão.

O homem de verdade só nasce na flor da juventude
Busca no orvalho o que lhe atrai
E só assim tornar-se-á homem, mas é um processo demorado.

Inicialmente ele é um caldeirão
Uma sopa de volúpias e perversões,
Através da boca só saem besteiras, sacanagens e nada que preste.
O cérebro migra para a glande
E quase tudo - senão tudo - que povoa sua mente tem a ver com sexo.
Ele pensa que quanto mais mulheres come mais homem é.
O sexo oposto é o poço de maturidade onde todos que nele se banham são os mais machos.
Chorar? É coisa de gay... Homem não chora, fica mal, só isso.
Vida? Pra quê se preocupar com o amanhã se o que se vive é o momento?
Música? Uma com batida dançante, nada de letras melodiosas ou inteligentes.
Amar? Coisa de mulher.

Os anos passam
E o tempo faz a ficha cair para todos!

Alguns chegam a ser homens, outros pensam que são e uns outros jamais o serão!
Homem que é homem chora;
Homem que é homem ama;
Homem que é homem pensa com a cabeça de cima;
Homem que é homem respeita o sexo oposto, não faz dele um mero objeto sexual, reconhece-o como
gente;
Homem que é homem não nasce, faz-se;
Indo contra todas as anunciações de parteiras e ginecologistas.

Ter pênis e duas bolas entre as pernas é fácil, quero ver ser homem de verdade.

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Não lhe quero mal

Não lhe quero mal, quero-a morta!
Porque viva não posso te ter
E não tê-la é pior que morrer,
E sabes disso, mas não lhe quero mal, não!

Quero-a morta afogada,
Seu corpo boiando, branca e fria,
Tendo como ornamentos
Os aguapés e as vitórias-régias em flor,
Quem sabe até uma garça...
Mas não te quero viva, não!

Vê-la viva em companhia
É doloroso, por isso te quero morta.
Ninguém mais te olhará, por nojo,
Mas eu a velarei da melhor maneira
Contemplando seu corpo até o primeiro verme surgir.

E eu o invejarei
Porque ele percorrerá os cantos do seu corpo
Que eu jamais sonhei.
O meu amor recusado
Agora de nada valerá,
Pois o verme está devorando
O único músculo que jamais bateu por mim...
E nem mais baterá.

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Ipanema

Meus olhos se perdem em tamanha imensidão
onde o azul do céu se funde com o do mar;
areias brancas, palmeiras e tesouros a encontrar
Onde estão? Não sei, talvez onde ocorre a arrebentação.

As gaivotas caçam os pobres peixes
e as morenas se banham ao Sol.
Ai Deus-pescador, não me fisgue com seu anzol!
Deixe-me vivo para admirar seus belos feixes.

Quero a onda sempre sublime
e os surfistas ordinários a desafiando.
Ai Deus-pescador, perdoai meu lamento enjoativo,
mas é a minha caneta que se exprime!

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Onde está a arte?

Quem é meu inimigo?
O MAM, o MAC, o MASP,...
Eu, poeta que sou, que tanto preza a liberdade sempre me pergunto:
Por que tiram a liberdade das obras de arte?
Elas devem ser livres.
Estar na calçada.
Na fachada.
No muro.
Na rua.

Imagine-se andando pela rua do Catete e topando com uma Tarsila?
Ou dobrando no cruzamento da Paulista com a Consolação e dando de cara com Malfatti?
Até mesmo os quadros retratando a Liberdade não são livres.
A arte tem que andar de mãos dadas com o povo
Nas calçadas.
Nas fachadas.
Nas ruas.

E não encarcerada em prisões chamadas de museus.
A arte das ruas é mais selvagem, mas não menos importante.
A arte que vemos está nos muros,
Embora não a vemos realmente;
É menos clássica, mas nem por isso menos valiosa.

A arte existe em nós.
A arte está nas ruas.
A arte está nos esgotos.
A arte está nos lixões.
Ela sempre está lá.
Basta você saber enxergá-la.

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Sobre as nuvens

No cimo daquela montanha estava um mistério,
A complexidade de um ser,
Dentre as nuvens, exalava um sorriso amarelo,
Distorcia o tempo e o espaço à sua volta,
Não era um buraco negro, não!

Constrangia aos mais corajosos com um simples farfalhar,
Enchia o peito dos mais contidos a se libertarem de seus preconceitos,
Esvaziava os corações dos depressivos e preocupados
Para enchê-los de sensibilidade.
Sua visão era como se uma neve fresca que desabrocha nos olhos de quem vê, embaça-os
[de início e os lava ao mesmo tempo.

Não curava as doenças do corpo, embora sanasse as dores do peito e da alma;
Não desfazia os tortos da vida, embora endireitasse a real visão de tudo;
Daquilo, alguns só tiravam uma possível conclusão: a prova da existência de Deus.
Outros, em contrapartida, evocavam: a prova da beleza da natureza.
Talvez sejam as duas coisas em uma só - como vários caminhos que levam a um único fim.

Uns muitos davam várias explicações, cientistas elaboravam as mais diferentes teorias, alguns teólogos evocavam a Deus e todos os santos, os escritores escreviam ensaios, os poetas, elegias; mas acho que nenhum desses de fato entenderia e conseguiria falar sobre a beleza, formosura e perfeição de uma orquídea violeta.

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O último

Antes que as cortinas se fechem eu
Apresento uma tragicomédia,
Pulo, canto e danço
Mais colorido que um saltimbanco.

Enceno minha peça com maestria
Sem vergonha, com alegria.
Rodo, choro e rio,
Mas o público permanece sombrio.

Encerro a encenação e agradeço,
Porém o público cala.
Nos bastidores a voz da mente fala:
"Minha própria vida rejeitada... um dia desapareço".

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Tália e Melpomene

No final daquela rua há uma casa mágica,
Casa grande, casa bonita, sem muito ornamento.
Diz-se que lá a veia cômica desemboca na trágica,
Ao dia é solitária, porém à noite começa o movimento.
Aparecem pessoas robustas, risonhas, de grande desenvoltura,
E pessoas atarracadas, quietas, ávidas por cultura.

Todos sabiam que a casa tinha um poder especial
Transformava-se a si própria e o chato em fenomenal:
Homens viravam reis, cavaleiros e embriagados,
Loucos, mendigos e oprimidos soldados.
Em nórdicas e lavadeiras se transformam as atrizes;
Além de mães, princesas e meretrizes.

Sonhos se tornam realidade,
Feiticeiros desaparecem rapidamente,
Mas no fim sempre aparece a verdade,
Louvada de aplausos e sorrisos ardentes.

Noutro canto do mundo as pessoas não frequentam a casa
Não por lhes desagradar,
Porém por ela lhes faltar
E sem ela vivem na sufocante realidade rasa.
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Epitáfio de uma estrela

Ao cantar dos anjos
E ao alvorecer do dia,
Deixar-me-ei descansar nos braços dela,
Aquela que me censura
E nutre: de ver, de sentir e de sonhos.

A última estrela do céu se foi
e com ela a minha esperança
O firmamento nunca mais será o mesmo
mas nem assim ele pode parar:
de girar, de perceber e de sonhar.

Galáxias e nebulosas choram a perda
daquele pontinho de luz que fazia a diferença
na imensidão escura. Machuca
no peito daquele que sofre a partida
sem volta daquele sem vinda.

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