Lista de Poemas
Apagada
Queria um brilho oculto vislumbrar
Da brancura dos teus dentes ao mistério do teu olhar.
Mas o destino vil e cruel
Fez o infortúnio de nos separar
Pra onde você foi? Paris, Roma ou Lua?
Desatinado fiquei com o descortinar desse véu
Plim! Apagada. De você não consigo lembrar
Não sei se daquela vez estava vestida ou nua
e se algum dia te amei.
Lembro-me apenas de uma brancura,
se era do seu brilho ou das estrelas
Mais uma vez não sei.
Acho que eram as estrelas...
7 de Setembro
À República da espada sem sangue,
À Nação que nascia manchada,
Ao Estado tradicional e moderno,
Rico e pobre, branco, preto e índio,
de nativos e estrangeiros;
Desejo, indo na contramão,
Saúde, segurança, cidadania,
Paz, respeito (da criança ao idoso),
Boa política e só.
É o que desejam os paulistas,
baianos, curitibanos, goianos, manauaras
e toda nação à Nação.
A mula(ta)
- "Casa-te comigo, ó Xica
Serás livre e minha mulher
Tudo o que me pedires, nada te faltará!"
- "Quero, mas não posso, Sinhô
Sou escrava fugida de Alenquer
E logo viro ama-de-leite pra Sinhá."
- "Pois com Sinhá não quero mais ficar
Quero provar desse chocolate de negrinha."
- "Sinhá carrega sementinha que vai brotar
E o Sinhô aqui querendo dar escapadinha?
Aceito contigo me casar, me possua!"
Xica sonhadora pulou nos braços do Sinhô
- "Fala que sou tua!"
O Sinhô sorriu e logo se assanhou
mentiu-lhe ao ouvido e foram à estrebaria
Xica se preparou para, enfim, ser amada.
[A mulata virou mula
ou a mula mirou mulata?]
Mas o amor não veio, ele a violentou.
Sinhô fazia de um jeito que nem ela imaginaria
Xica chorava com tal ultraje, sempre calada.
Ao fim de tudo, ele disse que a amava
E foi-se embora, deixando Xica.
A mulata enganada maldizia sua sina
O pedido de casamento violento todo dia voltava
A foice
O tiquetaquear do relógio mata
Tão rapidamente um relacionamento
Do que as mentiras
Que a cicuta servida a dois.
As estrelas todas apagam-se;
O Sol parece que refulgia menos;
Tudo é um prelúdio sinistro
De uma possível morte.
Faça o que for possível, mas
Não faça nada.
Muitas vezes o ato deixa de
Ser uma ajuda para tornar-se
A foice.
Se é pra morrer
Se é pra morrer,
quero morrer de desgosto.
Nada mata tão rápido,
é preferível do que morrer sofrendo de uma dor pungente.
Parabéns!
Tu conseguiste me fazer cair de joelhos.
Agora, meus olhos injetados cravados nos seus,
num misto de dor e desespero,
loucos de amor, querem saber o porquê.
De tanta maldade, tanta ingratidão, tanta frieza...
Até agora nada entrou na minha mente
Como se houvesse um espaço vazio
Onde nenhuma peça se encaixa.
Espero que tal tormento acabe o quanto antes,
Pois se for pra morrer,
Quero morrer de desgosto.
Gotas
As gotas que molham as plantas
São as mesmas que molham minha face,
Gotas quentes e cálidas.
Pequenas pérolas que rolam silentes,
Se são produtos de humor ou precipitação
Eu não sei.
Só sei que vieram do fundo do coração.
Gotas simples e funestas,
Como nós,
Mal nascem e já sentem o peso da morte.
Gotas quentes, gotas frias, não mais gotas.
Logofobia
Preciso confessar-lhe meu medo
Medo de ter medo,
Medo do porvir,
Medo das pessoas.
Sobretudo, o meu medo das palavras:
Hipopótomonstroesquipedaliofobia;
Pneumoultramicroscópicossilicovulcanoconiose;
Hexacosioihexecontahexafobia.
Não!
Não dessas palavras,
Mas de outras mais aterrorizantes:
Acabou,
Fim,
Adeus.
Ano novo
Ao dar 365 passos,
Olho pra trás e pergunto-me:
"Que diferença fiz eu?"
E pergunto como um fantasma que passa despercebido.
Certo dia
Não era um passarinho como outro qualquer,
era multicolorido, especial.
Seus diferentes tons e nuances despertaram meu vago olhar,
de súbito, me peguei num romance,
desses onde o improvável sempre acontece
e me dei conta da importância da ave.
Egoísta, pensei em aprisioná-lo
Numa gaiola velha e empoeirada,
Mas nada fiz;
Apenas sorri.
Agradeci a ele com um meneio de cabeça
E gargalhei como um desvairado,
Compreendendo tudo.
Ele bateu asas e foi-se embora, chilreando.
Me senti gratificado pela sua visita inusitada
Pois havia entendido, enfim, a importância de manter a janela aberta.
1964-1985
Aos desaparecidos políticos.
Quem hoje é capaz de ouvir o grito dos esquecidos?
Heróis sem cavalos e espadas
E heroínas sem objetos mágicos, só armados
Com paus e pedras. Mas que com paus e pedras
Não deixaram de luta contra a tropa,
O governo,
O sistema,
O mundo...
Quem hoje é capaz de ouvir o grito de apelo de suas famílias?
Eles só queriam mudar o mundo,
Isso é um crime?
Crime é esquecer e empurrá-los
Para baixo do tapete, sem nenhuma cerimônia.
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