Lista de Poemas
Os destinos mil de mim mesmo.

Os destinos mil de mim mesmo.
A minha história é cheia de ângulos invisíveis e de coisas incertas, arestas
Rasas, cegas tal como folhas movidas pelos ventos,
Que sou levado a crer serem movimentos circulatórios,
Acidental a disposição delas e a minha, circulam indecifráveis
Nesta ou em outra área mais dobrada do parque,
Num alegre, bucólico canteiro de flores ou no alpendre de uma casa térrea,
Igual a esta onde me limito ao poder diminutivo das horas,
À tolerância constância dos dias.
É neste esvoaçar constante, lento,
Que residem as lembrança, e acaso o eterno,
Como se a vida não fosse um abissal eco,
Uma vertente com cantos inclinados,
Quais fingimos amar seguindo regras não escritas,
Impostas à partida, estritas e apregoadas até à exaustão,
Aos quatro ventos.
Sinto-me um insólito inverno, um intruso indiscreto,
Um melancólico desconhecido até para mim mesmo,
Como tivesse sido sequestrado por uma sombra esguia, vazia,
Com a aparência dum inútil artefacto que renego e carrego no peito,
Mas do qual e de facto já faço parte e qual amiúde suprimo de merecer-me,
Desmereço-me despejando os olhos exaustos pelo chão dos vivos,
Dos que vivem exactos e sem esforço.
Considero-me acima de tudo uma criatura ausente, sem interesses maiores
Que interessem a alguém se nem a mim mesmo,
A natural sombra de mim próprio e não a dos outros que se salientam.
Fui esse que ainda sou, eu mesmo sem brilho
Ou a fase mais escura da lua e do céu que em sombra dobrou o sol
Em três, frente e atrás, para depois ficar quase, quase breu.
A frágil intenção tornou-se a causa certa,
E o quarto onde paira um silencio tóxico que me silencia,
Assim como mordaça ou uma bandeira branca erguida, desfraldada
P’los meus olhos dentro, paredes hermética
Aos destinos mil de mim mesmo.
Joel Matos (23 Novembro 2023)
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👁️ 164
Com’um grito

Com’um grito
Como eu o grito
Cresce à vista,
O vasto e o calado
A solidão do prado
Com o meu grito
Nem porto ou cais palafita
Poderá ser d’vendavais
Abrigo ou de canalha
Como grito, nen’fulano
Nem os pássaros índigo
E o cio dos lobos,
Parideira com dor
Como eu nem os
Animais ou a fúria humana
De seis Búfalos ou mais,
Como eu o grito
É ter cinco pedras
Na mão e determinação
Fora-d’normal
De gorila grisalho
De Adamastor Druso
Na Síria Jordânia ou Líbia
Desumana
Joel Matos (Dezembro 2022)
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👁️ 119
A importância de estar …

A importância de estar presente,
Foi a que eu sempre quis ter, no
Extremo do que nunca vou ser,
Importa o esforço de não deixar
De fazer e do que tarda a vir,
O vencer do desejo, do desejo
De vencer resta a impaciência,
Na medida do comprido do bico,
-De alguma vez ter voz, como sendo
Minha. -A importância – e mesquinho
Eu também, que em breve morrerei
Humilhado, envergonhado sim,
Por não ter, nem qualquer simbólico
Preço, nem valor para indústria a
Granel, no mercado prestamista
Valho zero, nada a retalho, pouco
Sirvo, nada mais que um Bordalo
No fundo da caneca, sendo vinho
De Pias tinto, carrascão corrente,
Bom copo até para padre, na missa.
O importante é ser lembrada breve,
Terminando a homilia de joelhos,
Como homem o normal que a mim
Me obrigo, com princípio meio, fim.
A importância é estar presente apenas
Na expressão plástica de que viver
É uma realidade externa, presa “ad-
-aeternum” à consciência vascular táctil,
De existir sem estar realmente vivo,
Presente nos restos que são palavras,
Semelhanças que nunca deixei de ter,
Com quem de maneira alguma eu fui.
Joel Matos (12 Fevereiro 2023)
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👁️ 145
A verdade por promessa

(O contraste não se atravessa, se esmaga )
A verdade por promessa
O objectivo da minha vida
é a imprecisão, ela por vezes
me espanta e me esmaga
transversalmente, é talvez
pouco natural o explicar
ao mundo, o mundo que
inda não habituei a habitar,
Isso me basta como contradição
e para ocupar a minha
alma exausta de tanto duvidar
atrás das preciosas alvoradas
ou dos detalhes do que tenho
ainda que andar, nesta viagem
à minha roda,
Sem volta nem pra onde ir,
razão pra alternar de rota
não tenho, embora pergunte
a mim mesmo até onde
esta tão turva, tão manchada
de tida, de nada, de estar
sem estar.
O rosto com que rio por mim
é rasgado, o arroio se tornou
instinto, fluente não, nem resposta
real tenho para dar à realidade
que em mim não há, nem muda de forma
ajusta-se a outra forma,
não a original nem à concreta,
Joel Matos (Novembro 2022)
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O Transhumante
👁️ 10
Cada passo que dou

Cada passo que dou, uma cruz,
A negação é o meu hemisfério,
Misturo delírio e discurso de guerra,
Como fosse o mundo inteiro,
Inteiramente novo, “a sério”,
Sem qualquer relevo clínico,
Cem planícies planas em roda,
Cada passo me dói, igual outro
E outros mil, meço-os p’lo meu
Passar e p’lo que fica pra ficar,
Parado e em ponto de cruz,
Cada passo que dou, não me
Avança, apenas atrasa, traçado
De outra e outra vez, em viés
Ou em movimento d’pendulo,
Enviesado e manso, sem peso
Ou luz, desejo parido na alma,
Que a gente perde de alcançar,
Cada passo damos completa,
Uma pirueta e a impressão
De cadência que sentimos,
Nas pernas, passando uma p’la
Outra, parecendo tocar-se ,
Podendo ser outra coisa, a julgar
P’lo que deixei de viver em
Cada passo que dei, ponto d’cruz
Sem pés. Cada passo que dou,
Uma f’rida “ao tempo”, breve
E um novo sentido para uma vida
Que fede, e que é definido
P’los passos que não dou. O sucesso
Não é aquilo que parece “servir
À partida”, antes uma maldição
Pedestre, o “perder de vista”,
Numa suave, mal parida mentira,
Dos sentidos de General em greve.
Joel Matos (Fevereiro 2023)
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👁️ 109
Notas de um velho nojento

O Trashumante (na primeira pessoa)
Notas de um velho nojento
(parte um)
Houve ao longo da minha porca existência alguns curtos e pouco prósperos momentos de prazer realmente genuíno e em que pude considerar-me lúcido o suficiente para poder auto ajuizar-me ou gabar-me dos meus actos. Recordado e ao vivo, para alguns será condenatório, como estas lembranças de agora mesmo e embora correndo risco de ainda piorar o enxoval, a sordidez e a êxtase do nojo que sinto de mim mesmo como numa mistura agridoce de orgulho miserável, pobre e sem preconceito.
Considero estas memórias cujas antes de mais como um mau hino, um hiato libertador, uma declaração ciente consciente de uma falta de higiene moral, sem cerimonial nem usurpada indemnização de todas as minhas ilícitas, ordinárias e libidinosas ações, não lhes podendo chamar de feitos ou proezas que não escondo, não posso, façanhas são façanhas, não têm nem possuem tão belas ou sujas e desonestas qualidades quanto as que eu a mim próprio me atribuo e me encantam, enojam ou honram apenas e mesmo que só pronunciadas com alguma glória por uma má e reles escrita quanto esta sem estética, harmonia ou beleza, direi que apenas se afigura como da mais fina e refinada flor do esterco, da má reputação ou do pântano lobregue, do logro em que toda esta sórdida, baixa existência se tornou, afinal até os extremos se tocam, indeléveis.
As vielas toscas e sórdidas eram um “habitat” providencial, libidinoso e era nelas que me sentia consumado e em casa, chafurdando na merda, na miséria mais infecta, rastejante. Sentia-me talvez um pouco menor ou ainda mais abjecto se é que sentia ainda algo superlativo no corpo, sob o ralo cabelo, quando saía aos tropeções ou era despejado das imundas tabernas aos pontapés quando se acabava o pouco que tinha para gastar em álcool ou em veneno, sabia lá eu o que era aquela surrapa que destilava pelos rins e que impregnava a pele de cheiro a mijo e a aguardente bera ou falsa numa mistura cacofónica.
Naquela noite fria de Dezembro, lembro-me perfeitamente como se fosse ontem, uma jovem talvez por inexperiência profissional levantou-me levemente do chão com especial carinho ou compaixão, lavou-me o rosto com a ponta do vestido vermelho e olhou nos meus olhos de uma forma tão angelical que me esqueci ou talvez quisesse era mesmo apagar o seu rosto feliz das minhas memórias, quem sabe ela tivesse por momentos esquecido da imundice e dos maus odores a nós próprios e que nos rodeavam, alguns mesmo vindo das rameiras e dos chulos que, como uma fauna nauseabunda, indistinta e vegetal, quase que obrigando quem por ali se aventurasse aquelas horas da madrugada, ao sexo de todas as maneiras, formas e feitios que a famigerada mente humana pode elaborar ou inventar, retorcer.
Perverso por instinto, não pensei uma nem duas vezes, apesar de cambalear tentando endireitar-me nos fracos e alvos braços dela e sem ter o mínimo de decência, pudor ou alguma gota de respeito por algum ou qualquer ser humano, empurrei-a grosseiramente contra a parede grafitada do casario, tentei não sentir dó nem piedade no vocabulário vernáculo, nos palavrões mais velhacos que conhecia e arremessei grotescamente, que ejaculei pelo meio dos dentes em falta e de outros mais que podres. Não sei nem saberei jamais o que é ter dó ou pena por coisa alguma ou por alguém, sentia sim desprezo por tudo e todos e inclusive por mim.
Como quem dobra um submisso animal por gozo, curvei-a pelas coxas, segurei-a pelas axilas e à minha territorial vontade, agarrando-a submetendo-a pelos cabelos mal pintados e encardidos até ao mais baixo que se pode levar contra a seu desejo alguém, usei-a até ser apenas papel mata borrão e mais uma puta sodomizada à traição, de quarteirão barato igual a tantas outras, como era, pensava eu de facto e após o imposto acto não remunerado e criminoso.
Sentia-me novamente tão real quanto repulsivo, abjecto, vasculhando nos bojos das calças sujas, deslavadas do sangue quente da boca da matrona na braguilha, manchado a sémen; procurava pela chave do quarto que se situava mesmo ao fundo dos fundos da rua, numa cave putrefacta, sem janelas e sem limpeza, tão imunda quanto a real realidade dos sonhos de quem realmente não sonha ou nada sente.
O Trashumante (Março 2023)
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👁️ 138
(Creio apenas no que sinto)

Apenas me sinto
Livre enquanto crítico
De mim próprio,
Como se fosse o destino
Outro, eu mesmo
Juiz sui generis e réu
Do foro privado,
Em guerra estranha
Com os sentidos d’outrem,
Socorro-me do falso
Ouro e do parecer
Mármore, ou paládio
Todo o meu esforço
De crustáceo bivalve
Vivo, bora cerceado
P’la casca à mostra,
Enterrado até ao centro
Do umbigo em estranha
Lama mole, frouxa
Pátria que me força
A ser “tal e tal” igual
Ao apelido ingénuo
Desenhado na calçada
Do terreiro do trigo
Seco, seguindo-o me
Segui, porta fora, corpo
Dentro Moniz Mártir ?
Nada me diz Martim,
Valha-me S. Jorge órfão
E uma multidão de seres,
Que não são realmente
Enteados Santos, meus
Aliados distintos, (creio
Apenas no que sinto)
Jorge Santos (Março 2023)
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👁️ 126
Ricardo Reis
Me chame Leonor,
Que eu lhe chamarei
Verdura,
Me chamo Leonel,
Por nenhuma outra
Razão especial,
Senão mesmo
Essa, esse é meu nome …
Sou apenas eu
E só,
Eternamente seu
Circeu … Joan.
Joan Sen-Terra, Ricardo
Reis não,
Não sou eu,
Nem ela.
Joel Matos
Joel Matos (Fevereiro 2023)
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👁️ 120
Pouco sei, pouco faço

Pouco faço,
Pouco sei,
Ando devagar,
Ao meu passo,
Dou o tudo,
Por nada,
O rumo,
Pela jornada,
Sonho o irreal
Suponho-o passível
D’alterações d’humor
Frequentes,
Inesperadas, sentimentos
Não se dão “de graça”
A quem passa,
Expressões não têm relevo,
Não se apalpam nem se aplaudem,
Suposto é sentir iludido,
O real sabendo-o falso,
Singular e diverso, a prumo
O trilho, caminho menos
Fácil, descalço e ferido
Ao passo que sei,
Não atinjo o ardor desejado
Desd’o início de mim
E do dilema do sucesso,
Me basta um ínfimo
Fragmento, uma fracção
De tido, do não tido
É outra história
Pra ser eu totalmente,
Moralmente imprópria
Minha memória
Febril fraca falida.
Joel Matos (Dezembro 2022)
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👁️ 157
A dança continua

A dança continua,
A poesia não morre,
“Nem que a matem”,
Contudo pode ser f’rida
De morte durante o sono,
Com uma bala de prata,
Ou uma vulgar estaca
No lugar do coração,
Tal como faca de abate,
Sem gume, mal afiada.
Desfigurada no rosto,
Sob a máscara da morte,
Não deixará de sair dela
Meu paliativo, minha culpa
De ferimentos, graves
Golpes e da vulgar cura
“Do costume”, não punitiva
Mas bonita na forma prenha
De copo, taça ou de cálice,
Gamo negro, gazela fêmea, fonte
De bruma, poesia não morre,
Não se abate, nem se encosta
À parede, não se consome,
Com os músculos da face, nos
Gestos do rosto redor dos ossos
Considerados breves, brancos
Como ermitas em mármore e aço.
Poesia não morre, “nem que
A matem”.
Jorge Santos ( Fevereiro 2023)
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👁️ 107
Comentários (4)
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nilza_azzi
2019-08-22
É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.
namastibet
2019-01-09
obrigado a todos que me leram
ricardoc
2018-04-23
Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.
131992
2017-10-26
muito intenso seus poemas, adorei.
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